Caminhos novos pegadas antigas
Cultura Megalítica ou Megalitismo
Fenómeno cultural
caracterizado pela construção de grandes monumentos de pedra, cuja origem
remonta, especialmente, aos períodos Neolítico e Calcolítico, entre o VI e o
III milénio a.C.. Embora difundida por várias partes do globo, desenvolveu-se
sobretudo no mediterrânio ocidental e europa atlântica, tendo a sua maior
expressão nos monumentos de sepultamento. É o caso da região do Alentejo,
particularmente junto a Évora, onde se encontram alguns dos monumentos
megalíticos mais importantes e antigos da Europa.
Em dia de passeio sem destino,
hora de procurar o almoço, passámos pela indicação “anta da Vidigueira”, à
entrada da aldeia do Freixo – Redondo. A seguir quisemos usufruir do “encanto”
do monumento, assinalando a sua localização na extensa planície que segue à aba
sul da serra, com a tampa, ou chapéu, ainda posicionada sobre os esteios…, até
o corredor da anta, já destruído, mas perfeitamente identificável. Batemos
várias fotografias, pois o que nos foi dado apreciar merece registo para
memória. O dia estava agradável, temperatura amena, sem vento, o que nos
permitiu estar até quase ao fim da tarde, sentados no chão… viajando à
velocidade da luz até alguns milénios no passado – mais ou menos 5 mil anos a.C.
– perscrutando as pedras…, com a sua generosidade milenar permitiram decifrar a
mensagem, então, gravada.
A anta da Vidigueira, aqui
reproduzida em fotografia, é um desses monumentos que se veem por todo o
Alentejo, a sinalizar, certamente, acontecimentos importantes nas sociedades
humanas já muito distantes de nós; por todo o território nacional vamos
encontrando sítios, muitos deles porque foram integrados na toponímia local,
são a memória, em outro tempo materializada por pedras, de seres humanos cuja
pegada nos antecedeu.
A mensagem
Um grupo de caça desce do
povoado, localizado na aba sul da serrania, em marcha apressada, procurando
fazer o menor ruído possível para surpreender uma grande manada de auroques que
tinha chegado às ricas pastagens da planície que se estendia até onde um olho
certeiro podia enxergar. Caçar alguns destes animais alimentaria a tribo por
alguns meses.
Os adultos eram seguidos por
alguns jovens já em idade de aprender as manhas e truques da caça a animais de
maior porte, e mais perigosos quando acossados pela algazarra final da
perseguição. Embora fizesse frio, o que os cobria não atrapalhava o movimento;
iam bem armados: machados de pedra de gume cortante, lanças leves com bem
trabalhadas pontas de sílex e outros artefactos para esquartejar as feras
abatidas.
Um auroque que pastava
tranquilamente, desgarrado da manada, foi surpreendido e surpreendeu o grupo:
investiu selvaticamente sobre dois jovens que caminhavam em terreno mais
aberto; uma cornada, aplicada com toda a força e peso do bicho, levantou os
rapazes que caíram com estrondo alguns metros à frente…, depois marrou e pisou
desenfreadamente até o grupo conseguir vergá-lo com vários golpes das suas
lanças.
Os corpos foram deixados para
trás, cobertos por pedras que impediam o avanço de algum lobo, ou outro animal,
que farejasse o local. Posteriormente, quem se podia deslocar percorreu o longo
caminho desde a serrania até aos dois amontoados de pedras que cobriam os entes
queridos; ali ergueram um digno monumento de pedra onde colocaram os dois
corpos, ao som de canções e choro…, cada um foi deixando pequenos potes com
comida, flores silvestres…, colares e enfeites…, para a viagem no além.
Uma barbárie: soubemos,
algum tempo depois, do triste fim de dois monumentos, duas antas como esta, bem
conhecidos do roteiro do megalitismo do Alentejo, de onde foram pura e
simplesmente rasurados. E também uma vila romana que o camartelo reduziu
praticamente a pó. Resta-nos admirá-los pelo seu registo fotográfico.
AC


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