Friday, September 30, 2016

O Caso de Bartholomeu Bernardino



 

 

 
 
 
 
Vai longe o dia 4 de Novembro de 1889, conforme reza na lápide, encimada com cruz, posta no local onde foi barbaramente assassinado Bartholomeu Bernardino.

Quando se conta uma estória, ou determinado facto, decorridos muitos anos do seu acontecimento, cada narrador elimina pedaços do episódio que lhe parecem menos consentâneos com a realidade, acrescenta aqui e ali o que julga estar mais de acordo com a mesma, chegando a mudar nomes de intervenientes no ocorrido apenas por serem mais do seu agrado. O resultado final está à vista: é um modo de contar pessoal e descaraterizado tão diferente de outras narrativas anteriores como a noite é do dia.

Consultando os arquivos do meu amigo Francisco, onde descobri referência a este caso, escreve ele que, ao contrário do escrito na pedra “Foi Roubado…”, Bartholomeu Bernardino era antes um ladrão, com quem teriam acertado contas manhosas naquele fatídico dia de 4 de Novembro de 1889.

Eu próprio tive contacto com o assunto, nos tempos remotos da infância, a caminho de Vale Vaqueiros, acompanhando meu avô Sousa. A lápide, então cravada no muro de xisto que acompanhava o caminho, chamou a minha atenção de pequeno curioso. À pergunta singela “avô que pedra é esta na parede?”, recebi a resposta seca «não é coisa para a tua idade».

Fiquei ciente que do avô, nesse ou noutro dia qualquer, não teria explicação para o significado da lápide aposta no velho muro de xisto.

Logo que tive oportunidade entrei na oficina do mestre Palma, sapateiro que me punha as meias solas nas botas, pois gostava de ver a arte que empregava no ofício e de ouvir estórias antigas sobre a vila, que mestre Palma sabia contar com o jeito inato de captar a atenção de quem o ouvia.

 

Encontro com mestre Palma

 

Abordei a questão à defesa, pois temia, tratando-se de algo vedado a pequenos como eu…, ouvir outra resposta seca como a do avô…

Mestre Palma fixou-me nos olhos com os seus, que expressavam sempre um sorriso doce e tácito com a vida, criando em mim, desde logo, a noção de que sabia a estória tim tim por tim tim…

Eu também tinha sido honesto e comentara-lhe a evasiva de meu avô Sousa em contar-me o que se tinha passado no dia 4 de Novembro de 1889.

Disse mestre Palma: «não podes, nunca… por nunca…, dizer lá em casa que falámos do Bartholomeu…, as pessoas não querem saber desse passado com quase um século de morto…, e eu devo bastantes favores ao teu avô doutor…, sim…, em criança tratou-me de febres intestinais e já rapazote com pelos na cara, livrou-me da febre carraça…, que essa ia pregando comigo na cova…, enfim favores que não se esquecem».

Não se ouvia uma mosca, nem a nossa respiração que parecia suspensa no tempo, ao encontro de outros tempos que preenchiam agora todo o pequeno espaço da oficina.

 

O que mestre Palma sabia sobre o assassinato que perturbou as gentes da vila

 

Mestre Palma estava a meio de umas botas novas – cozia a parte do corpo à palmilha aonde ia assentar a sola – e continuou o seu trabalho enquanto falava, variando apenas a entoação da voz quando tinha que perfurar o cabedal com a grossa agulha para passar o fio.

«Esse Bartholomeu Bernardino…, assim era o seu nome de batizado…, era guarda municipal, ou guarda noturno… – que nesse tempo era a mesma coisa – …ainda estávamos na monarquia.

Fazia a ronda noturna pela vila, sempre começando nos baixos – nas eiras…, onde aliás morava – e vinha topando, nesta rua e mais naquela, se havia descuidos dos moradores, como portas mal fechadas, lumes esquecidos por apagar, ou algum malandrote a fazer das suas a desoras, até passar pela Praça Municipal e percorrer os altos da povoação.

Nessa noite entrou na rua da Mata – dizem que é a rua mais antiga da vila – avistando uma luz ténue numa loja bem fornecida de tudo, precisamente onde é hoje a do Sr. Bernardino – vê tu bem a coincidência do nome – e ao aproximar-se viu a porta entreaberta, o que o pôs de sobreaviso. Pé ante pé, não ouviu ruído algum que lhe indicasse a presença de alguém dentro da loja… …e lá estava um pequeno candeeiro com o petróleo quase gasto, em cima da mesa da escrita do dia a dia.

Chamou…, primeiro em surdina, depois mais afoito, chamou pelo proprietário do estabelecimento – creio que se chamava Macedo – e não obtendo resposta, admitiu que tinha havido esquecimento do mesmo. Apagou o candeeiro e fechou a porta, murmurando entre dentes – é com um descuido destes que se arranja um fogo para destruir tudo.

No outro dia a pequena vila acordou em polvorosa com a notícia da “visita” noturna à loja da Rua da Mata – rapinaram tudo o que puderam carregar.

Bartholomeu estava nervoso…, sentia um grande rubor facial e não conseguia que o corpo parasse de tremer. A mulher gritava-lhe «vergonha…, onde andavas tu que não deste por nada?, ainda correm contigo da guarda… e era bem feito…, tenho pena é do senhor Macedo… uma loja com tanta coisa boa…».

–Mas onde diabo é que eles estavam metidos? – foi a única frase que o tremelicante Bartholomeu conseguiu articular de jeito.

A mulher de Bartholomeu Bernardino, que ia sempre aviar a casa à loja do Macedo, estava possessa, como depreenderia quem quer que a ouvisse: –a loja só tem duas dependências…, a de atender os fregueses e o armazém, que fica na parte de trás, onde o coitado do senhor Macedo tem em reserva os produtos que mais se vendem…, pois era aí que estava o gatuno – ou os gatunos – branco é galinha o põe. A mulher não vira crescer o rubor facial do marido, assim como a expressiva inquietude nos seus olhos, procurando esconder-se dos dela.

 

Até aqui a narrativa foi de mestre Palma, com toda a habilidade e perspicácia que punha no seu modo de contar característico, dando ênfase a frases que queria realçar, fazendo mudanças no tom de voz, consoante o ritmo que desejava imprimir à narrativa, mesmo vírgulas e pontos finais o ouvinte dava conta deles.

O que segue é, simplesmente, uma visão do autor sobre o desenrolar trágico de um acontecimento ainda hoje, cento e vinte e sete anos depois, envolto sob a capa do mistério.

 

Um pressentimento com consequências funestas

 

Alda, assim se chamava a mulher de Bartholomeu Bernardino, sentia que o senhor Macedo a cortejava, sabendo-a uma mulher casada.

Freguesa habitual, como outras, era-lhe dispensada uma atenção especial pelo dono da mercearia: «leve deste bacalhau que é muito bom…, a carne é de primeira qualidade…, manteiga e açúcar são sempre produtos racionadas, mas para a D. Alda arranjam-se sempre…».

Um sorriso discreto quando a via chegar, ou a insistência para ver um tecido da moda, procurando reter a sua presença por mais tempo, eram sinais que Alda captava e traduzia para si.

Macedo era viúvo, de meia idade, além de bem parecido e com educação, estava assente numa vida desafogada.

A comparação que lhe aflorava no pensamento prostrava-a num estado de confusão inevitável, levando-a a sair bruscamente da loja e a procurar refúgio na ermidinha de Nossa Senhora da Consolação.

Se eram horas de encerrar, ou não tinha fregueses para atender, Macedo seguia-a a distância segura de modo a não levantar suspeitas, apreciando o estado de alma que conseguia provocar em Alda… e ela em si…, que sempre dissera, para os seus botões, ser mal empregue aquela flor no bexigoso monte de banha do guarda noturno.

A vila era pequena e os mexericos pelo menos com o dobro do tamanho. Qualquer desgraça, ou sucedido alheio, saltavam de porta em porta mais velozes que o vento em dias de zumbir.

No dia de folga, Bernardino visitava as tascas que eram muitas nesse tempo, quase uma por cada rua.

E foi aí que começou a ouvir os ditos e desditos dos companheiros de copos, a quem a língua se solta mal emborcam uma gota a mais, sobre o seu estado de saúde, para ser mais preciso, da sua testa que parecia estar cada dia mais disforme.

Fingia passar-lhe ao lado, não ser para ele cada farpa lançada, regressando a casa não só a abarrotar de vinho, mas também de incontida raiva. E bem se continha perante a mulher: dava-lhe jeito mesa posta a tempo e horas e a roupa bem lavada e engomada.

Arquitetou um plano de vingança bem orquestrado, pensava ele, para assaltar, ele próprio guarda noturno, a loja da Rua da Mata.

A porta não lhe ofereceu resistência, pois no chaveiro da guarda municipal estava um duplicado para casos de emergência. E o candeeiro que ficara aceso…, fora ele que o acendera para descobrir a caixa onde o Macedo guardava o contado que depositaria no Banco do Alentejo, quando fosse a Estremoz comprar mercadoria. Eram 48 mil réis que tinha dentro, ficando a caixa limpa.

Soube logo o Macedo quem fora o autor da proeza, pois a porta não tinha sinais de arrombamento, antes pelo contrário, a boa conservação era notória. E grande parte do petróleo com que abastecera o candeeiro na manhã anterior evaporara-se.

Só Bartholomeu Bernardino tinha acesso à chave dupla, cogitou o Macedo, ao mesmo tempo que lhe jurava a cobrança com juros de mora… «disso podia estar certo o canalha»…

Planeou, então, fazer saber que o produto do roubo se limitara a géneros de mercearia e da drogaria, isco facilmente engolido por um ou dois alcoviteiros que espalharam a notícia por toda a vila, num ápice.

Uma espera na volta para casa num fim de tarde de domingo, dia em que o guarda noturno folgava, regresso sempre feito com o buxo atulhado e a mente leve que nem a pena de um passarinho… assim trataria do assunto.

Macedo sabia-lhe a rotina do caminho, determinou o dia da ação e pôs-se à coca.

Caíra a noite e cacimbava. De ouvido atento, esperava o primeiro sinal do regresso de um bêbedo que tinha por hábito falar para o vazio e cantarolar para as estrelas.

De repente, o piar de uma ave noturna, por perto, levou o encoberto a deitar a mão ao cabo do facalhão que trazia sob a capa.

Mais uma e duas vezes apurou o ouvido…, então sim…,era sem dúvida ele que estava de regresso…, percebia-se o andar aos ziguezagues, da bebedeira que carregava às costas. A “alegria” – estado de embriaguez – dava-lhe para vir assobiando uma melodia  roufenha…, impercetível… a melodia da morte!

Já mais perto, Macedo ouviu o que lhe pareceu ser uma ameaça: «meeuu graande saacana voou coortar-te as goelas como faaço aos frangos…

Calou-se! A passeata estava agora muito perto…, uma pedra e outra saltavam debaixo dos pés de quem caminhava.

Macedo saltou para cima do muro, certo que não daria pela sua presença. Viu um vulto no escuro, quase a cruzar-se com o sítio onde se encontrava. Cortou-lhe o caminho, com o facalhão na mão e a capa atirada para trás. «Não era tempo para conversa o momento, ainda que seria inútil falar com um candidato a morto completamente embriagado».

As duas primeiras facadas, que recebeu no ventre, nem as sentiu, tal o estado de anestesia que o álcool provocara…, …às três seguintes disse um «ai» apenas. À sexta estava morto.

O Macedo, para cumprir a promessa, cobriu-lhe o tronco e o bandulho com mais quarenta e duas, contadas no dia seguinte pelo oficial de diligências da Comarca e verificadas pelo perito forense que fez a autópsia – foram quarenta e oito facadas.

O médico legista, cofiando o farto bigode, desabafou com o oficial de diligências: «nos termos legais está tudo conforme…, identificação, hábito externo e hábito interno do cadáver, assinatura das duas testemunhas que o reconheceram e as nossas assinaturas…

…mas quem teria tanto ódio a um pobre pastor de 23 anos, de volta para o redil…, não foram facadas para roubar… …não foram… não!».

 

Epílogo

Por terrível coincidência o desgraçado rapaz tinha o nome de batismo de Bartholomeu Bernardino. Natural de uma aldeiazinha da Beira Baixa, viera com o pai, ainda muito novo, trabalhar para a casa de um lavrador abastado, como ajudante de pastor.

Já moço homem viu o progenitor morrer com uma doença que o secou por dentro e por fora..., em vésperas da morte deitou pela boca o pouco sangue que lhe restava.

O lavrador, vendo o mancebo desenvolto, entregou-lhe o rebanho por conta.

Mas já nesses anos, as falsas amizades rondavam à volta da carteira que sabiam ter algum recheio, como as abelhas o fazem ao mel.

Nesse dia 4 de Novembro de 1889 Bartholomeu fora despedido pelo patrão, farto de ver o gado maltratado e atacado pelos lobos e cães vadios, enquanto o seu pastor deambulava pela vila, percorrendo as tabernas. E também com a desconfiança de que alguns animais eram roubados pelas más companhias de Bartholomeu, sabendo-o longe do sítio onde pernoitava.

O fim, como acabámos de ler, não foi nada bom.

 

O Macedo nunca mais viu Alda entrar-lhe pela porta da loja…, faleceu pouco tempo depois, meio louco, ninguém acreditou na confissão que fez à hora da morte.

O guarda noturno Bartholomeu Bernardino continuou a fazer as suas rondas à vila, com a mesa posta a tempo e horas… e a roupa bem lavada e engomada…

  

AC      

 

Monday, June 08, 2015

No Consultório.com

No Consultório.com

 
 
 
Uns Comprimidos para Acalmar...

 

Um colega e amigo, sabendo-me amante das letras, como ele, enviou-me este pequeno conto com pedido de comentário, pois ainda não se sente seguro do modo como a escrita lhe sai. Em particular encorajei-o, mas logo me ocorreu a ideia de o submeter a um grupo mais vasto de leitores. Ficas assim, amigo Chico, com o pedido da sua publicação no concorrido blog “Al Tejo” e a missão de me fazeres chegar opiniões, boas ou más, dos ilustres e exigentes assíduos dessa página.
Sem outro assunto, agradeço toda a atenção e envio um abraço com elevada estima e consideração.

Teu amigo
AC


Um dia destes fui procurado pela mulher do Zé Spinafre, meu cliente e amigo desde que abri consultório na vila, já lá vão vinte anos.
Maria Rosa, que fez este ano sessenta e cinco primaveras, é mais nova que o marido, embora aparente mais idade.
Diz ela sempre que leva a conversa ao seu moinho:
«Quem tem as canseiras todas desta vida são as mulheres!: quem faz a lida da casa, quem trata da roupa e quem prepara o comer?..., e os filhos, quem cuida deles e se rala nas aflições?».
Fiz um gesto com a cabeça em sinal de concordância, pensando arrumar o assunto, mas Maria Rosa tinha-lhe dado corda.
«Eu vejo pelo meu homem; se tivesse que parir a perna de um gaiato, que fosse, estava dez anos para se recompor.»
«A caminho da taberna não se cansa, homem dum raio que não sei como o vinho não dá cabo dele.»
Bem, se uma pessoa não a interrompe, Maria Rosa é capaz de estar uma tarde inteira a desancar no marido.
Ele, esguio, ainda bem tapado de cabelo que mantém o mesmo tom castanho claro, embora salpicado de alguns brancos, não parece ter mais seis anos que a patroa.
E pensa que o vinho não só não deu cabo dele, praga que tantas vezes ela lhe rogou, como o tem ajudado a afastar, com algum resultado, o peso dos anos.
Quando quer pôr a Maria Rosa ao rubro o Zé Spinafre conhece-lhe o ponto fraco: -ó D. Maria Rosa ainda consegue mirar-se inteirinha no espelho do guarda-fato?
Esta frase é sempre dita em sítio propício a fuga que evite ser atingido com o que quer que seja que a mulher tenha à mão.
E, já de longe, atazana -lhe mais o juízo com a habitual máxima que tanto a irrita: -se beberes um copinho, minguarás o teu corpinho!
Quando nesse dia fui atender o toque persistente da campainha do consultório, ainda meio ensonado de uma pequena sesta que inadvertidamente fizera encostado ao tampo da secretária, e dei de caras com a Maria Rosa especada na minha frente, lembrei-me que se o espelho do guarda-fato tivesse as medidas daquela porta o Zé Spinafre tinha razão.
Cerrei os dentes para conter o riso que quase se desenhou nos lábios.
O semblante da visitante, não parecendo ser de doença, anunciava timidez e pouco à vontade, pois lançou-me uma “boa tarde senhor doutor” a gaguejar, em contradição com a sua desenvoltura e desembaraço habituais.
-Ora viva Maria Rosa!, -cumprimentei efusivamente, abafando ainda um pequeno esgar que não contive ao vê-la ultrapassar a entrada do consultório de esguelha. E o Zé por onde anda ele? – larguei à pressa, para disfarçar.
«A estas horas… adivinhe lá o senhor doutor onde o trangalhadanças pára!... não é difícil adi…vinhar, pois não?» – alvitrou com desdém.
-Mas não é pelo Zé que me vem visitar, calculo… – sugeri de imediato para evitar ouvir o rol de lamentações habituais sobre as tibiezas do desgraçado – a senhora não me parece doente, embora seja claro que algo a apoquenta… – deixei a frase no ar, com o propósito de a pôr à vontade.
«Aí é que o senhor doutor se engana. É mesmo pelo meu Zé que eu cá venho – fez uma pausa no discurso e depois continuou – ...e também por mim que ando com ele pelos cabelos!»
Maria Rosa estava vermelha que nem um pimentão, sentada à minha frente do outro lado da secretária, com a voz e as mãos trémulas de um nervosismo que não lhe conhecia.
-Acalme-se mulher que só a morte nesta vida não tem remédio – argumentei em jeito de consolo e compreensão, procurando transmitir confiança. Mas é assim tão grave o problema que vocês têm?... …que eu saiba saúde não vos falta e os filhos estão criados e arrumados, o que é um grande descanso.
O Zé de vez em quando entorna uns copos, é verdade, mas, com a idade dele, se mal não lhe fez, mal já não lhe fará!
«Quando o Zé entorna uns copos quem paga sou eu, senhor doutor» – frisou em surdina, inclinada na minha direção e sondando os quatro cantos do consultório, denunciando receio em ser ouvida.
«Olhe Dr. Joaquim, o senhor sabe muito bem o que acontece às mulheres na minha idade – afirmou com os olhos pregados no tampo da secretária –  quando à noite me deito na minha cama é para dormir e descansar do muito que ainda trabalho durante o dia; mas o desavergonhado do Zé quando recolhe à noite com o grão na asa, o que acontece com alguma frequência, vem com ideias malucas da taberna e o que quer é paródia, não me deixando sossegar… estou-me a fazer entender, não estou senhor doutor?» – ultrapassada a barreira inicial do desabafo, mostrava-se agora calma e segura de si.
Eu ouvia atentamente, não fazendo qualquer comentário, mas já prevendo o fim daquela “consulta”.
«Preciso da sua ajuda para o acalmar – sublinhou com um timbre de voz em crescendo e fixando-me nos olhos – o senhor terá, com certeza, para aí uns comprimidos que lhe cortem esse efeito endiabrado que o vinho lhe provoca e que não me deixa pregar olho.»
«Garanto-lhe que ele não saberá de nada…» – sussurrou desta vez com voz quase inaudível, ainda assim não fosse o marido estar a ouvi-la.
Foi então a minha vez de olhar fixamente o tampo da secretária, cogitando como me iria safar da embrulhada que viera ter comigo, naquele princípio de tarde calma, mas que tão inesperadamente animada se tornara.
-Esses comprimidos não se podem receitar sem mais nem menos e a qualquer pessoa – afirmei com ar austero e profissional, de quem domina o assunto com à vontade.
E insisti, com aparência de preocupação para sugerir alguma cautela e receio:
-Por vezes o seu efeito com o álcool pode ser contraproducente e desastroso…
…tenho que pensar bem no caso e apanhar o Zé a jeito de lhe mandar analisar o sangue – fui dizendo ao mesmo tempo que me levantava da cadeira em direção à porta, dando a entender que a “consulta” terminara.
Maria Rosa saiu sorridente, confiante no meu interesse e competência em encontrar remédio eficaz para a sua “preocupação”.
Quando fechei a porta suspirei de alívio e sorri, em silêncio, com o desejo de paródia que a vinhaça provocava no meu amigo Zé Sspinafre.

Paródia inocente…, com certeza!

 


 

 

Sunday, May 17, 2015



 

 

Investigação na Praça do Teatro




Na Praça do Teatro a azáfama das máquinas escavadoras dá origem a uma cratera que mais parece ser o efeito da queda de um engenho explosivo de grande potência. As obras, que têm como fim a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, em zona de influência do centro histórico, estão ao abrigo dos mirones por uma vedação cerrada de madeira.
Subitamente o ruído ensurdecedor dos motores em acção deixa de atentar contra os tímpanos dos transeuntes e a coluna de pó que entra pelas frestas das janelas, a alguma distância, acama-se paulatinamente marcando todos os recantos com resquícios da sua presença.
Ao princípio da tarde o arqueólogo chefe da Universidade é visto entrar para a zona das obras, vestido a rigor como qualquer engenheiro, sinal de que uma ruína, talvez restos de uma estrutura antiga foi posta à luz do dia pelas escavações.
Pelas onze e trinta da manhã uma secretária atendera uma chamada telefónica da parte do empreiteiro que dirige a construção do parque.
«Está lá..., sim..., estou..., ouve-se mal, estou no fundo do buraco...»
Do outro lado da rede uma voz feminina, trocista, questiona: –e quem o mandou meter-se no fundo do buraco?
O homem, meio irritado, volta à carga: «estou no fundo das obras do parque..., em frente ao Teatro..., o meu telefone tem pouca rede...»
–Agora ouvi perfeitamente, apressou-se a informar a secretária, em que posso ser-lhe útil senhor...?
«Minha senhora, uma escavadora pôs a descoberto dois esqueletos que estão juntos, quero dizer, na mesma cova..., não sabemos se há mais..., o manobrador fugiu com o susto que apanhou..., depois todos rimos..., mandei suspender os trabalhos até alguém entendido ver do que se trata.»
–Muito obrigada, ouviu-se a voz desinteressada da secretária, com certeza habituada a receber este tipo de recados, vou avisar o meu chefe, alguém... A chamada caiu levando a voz do empreiteiro a ecoar pelas paredes da cratera – está..., estou..., está lá...
A cidade é um conjunto de estruturas que se foram sobrepondo no tempo, assentes umas sobre outras, espreitando aqui e acolá algumas  que ousam assomar-se através dos séculos.
Quando o Professor Saturnino Viegas se dirige para a Praça do Teatro vai conversando as suas divagações com as pedras dos muros e das calçadas, como é seu costume, porque as pedras velhas e gastas por vezes devolvem opiniões sensatas, assentes na experiência de longos anos passados.
–Já muito me admirava que ainda não tivessem encalhado em meia dúzia de cacos velhos, quanto mais não seja para cumprir a regra que é lei na “merda desta cidade” – não se levanta uma pedra que não se destape logo outra mais antiga.
Depois de passar a entrada da vedação de madeira o Professor Saturnino fica alguns segundos imóvel, enquanto limpa os óculos de aros metálicos redondos que lhe fazem os olhos ainda mais pequenos mas sem ocultar a aparência inteligente e observadora que transmitem. Cofia a barbicha desalinhada e continua a fazer comentários para si próprio. A escavação efectuada – emprega o termo por hábito profissional para designar a abertura feita – tem uma profundidade maior do que pensava. À medida que vai descendo por um trilho de pó, pouco seguro, vai observando as fatias dos muros circundantes, ainda crus. Afloram vestígios de casas da época medieval, cristãs e árabes, sem dúvida bem fora da cerca defensiva dessa época. O que leva a concluir que estamos perante um arrabalde muito antigo, onde cristãos e árabes viveram paredes meias – um espaço raro de tolerância entre os dois credos.
O homem que o arqueólogo palpita ser o empreiteiro veste um blaser com uma camisa branca e calça clara bem vincada, que lhe negam o estatuto de assalariado e tem um capacete de protecção de cor azul marinha em contraste com os amarelos dos homens que o rodeiam. Encontram-se no topo sul da abertura gigantesca, já com cerca de quinze metros abaixo do solo, olhando absortamente para o que deve ser o achado que é motivo da sua visita às obras do parque de estacionamento.
Quando pressentem a sua presença abrem um pouco o círculo que formam e o Professor Saturnino Viegas fica frente a frente com o senhor Arantes Gaspar, empreiteiro diplomado da construção civil, a quem os funcionários da firma construtora chamam, por dá cá aquela palha, de senhor engenheiro. Quase encostada ao muro do topo sul, protegida pela sombra que lhe forma uma espécie de cortina, vê-se uma fossa estreita e pouco profunda que contém, à primeira vista, duas ossadas humanas.
Depois das apresentações formais e de um pedido de investigação acelerada do assunto, pois a empreitada tem os minutos contados, o senhor Gaspar – considerando-se um mecenas das coisas antigas – dá um jeito às mangas do casaco que abotoa cerimoniosamente como se de uma inauguração se tratasse e aponta para o sítio a que o arqueólogo dá toda a atenção desde que chegou.
Saturnino Viegas repete o gesto de cofiar a barbicha desalinhada, denunciando um tique que sucede quando os acontecimentos lhe absorvem por completo o pensamento, enquanto se dirige ao outro de modo imperativo.
–Apenas uma hora, senhor engenheiro, para recolha de algum material e tirar meia dúzia de fotografias, apenas uma hora – sublinha, já envolto pela penumbra do seu trabalho. O senhor Arantes Gaspar faz qualquer comentário descabido a que Saturnino Viegas já não dá atenção, embora lhe responda: –sim, sim, deve voltar a enterrar os mortos para que reiniciem o repouso que lhes estorvou.


***


No gabinete do chefe do Departamento de Arqueologia da Universidade a área é contada ao centímetro. As paredes estão tapadas de estantes apinhadas de livros que Saturnino Viegas localiza um a um sempre que é necessário. Pelos cantos e chão do aposento todo o cuidado é pouco para não danificar algum dos muitos objectos antigos vindos de estações arqueológicas para investigação, depositados sem qualquer ordem aparente mas o utilizador do gabinete movimenta-se no exíguo intervalo entre as preciosas antiguidades como se ali nada existisse. Na secretária de mogno, com tampo de vidro embutido, também há alguma confusão de papéis e três ou quatro peças de cerâmica do calcolítico que contrastam com o computador pessoal do arqueólogo.
Bem em destaque no centro da mesa de trabalho estão por ordem dez fotografias a preto e branco, tantas quantos os ângulos possíveis em que o Professor Saturnino conseguiu fotografar a sepultura descoberta na obra do parque de estacionamento da Praça do Teatro. E dispostos simetricamente, por baixo da fiada de fotografias acabadas de revelar, vêem-se três peças ósseas relativas aos restos mortais recolhidos no túmulo para fins de investigação, já que ainda na sua presença, Saturnino Viegas assiste ao camartelo revolver o espaço milenar que minutos antes tratara com admiração e respeito e confundi-lo com toneladas de entulho retirado do fundo da obra.
As fotografias confirmam as primeiras ilações da observação atenta feita “in loco”. Trata-se de um enterramento árabe, pois os esqueletos encontram-se posicionados de lado, com a parte facial do craneo orientada para Meca. Mas os craneos estão numa atitude bizarra, dispostos entre a parte do esqueleto dos pés dos mortos, sem dúvida ali colocados propositadamente. O Professor embrenha-se nas fotografias, nos restos dos despojos humanos, na visão de centenas de anos atrás...
O tique de cofiar a barbicha instala-se..., não dá conta do corrupio de gente que passa para as aulas ou outros departamentos da Universidade..., não ouve sequer o toque insistente da campainha do gabinete, accionada por dois alunos que desistem da espera e resolvem fazer a entrega de um trabalho para mais tarde.
Levanta-se, acende um cigarro junto à porta envidraçada das traseiras da sala que dá para o jardim da Universidade. O dia está bonito, o sol entra a jorros pelas vidraças, a passarada anda num delírio com o cheiro da primavera. Saturnino não dá por isso. Quando volta para a secretária discursa em voz alta, fixando os livros e pedras velhas como se de uma assistência se tratasse. “A sepultura não apresenta sinais de ter sido violada em épocas anteriores. O que significa que os dois corpos foram decapitados, sendo as cabeças postas junto aos pés no momento do enterramento, por alguém que respeitou a fé dos crentes. O exame minucioso, quer no local, quer pelas fotografias, determina que um dos esqueletos pertenceu a um homem com idade compreendida entre quarenta e cinquenta anos no momento da morte, não mais, de estatura média – cerca de um metro e sessenta e cinco de altura – e pelo estado de conservação dos ossos, nomeadamente da cabeça do fémur recolhido, que não apresenta sinais de desgaste ósseo importante, suscita a imagem de alguém que não utilizava a força física – tinha homens que trabalhavam para si... podia ser um príncipe ou um rei...
O segundo esqueleto em questão identifica uma mulher nova, talvez não tivesse mais de dezoito anos, o máximo vinte e, curiosamente, tinha uma estatura um pouco superior ao homem – cerca de um metro e setenta centímetros. Os ossos não apresentam sinais de doenças e algumas peças dentárias existentes têm bom estado de conservação, o que reflecte preocupação com a higiene pessoal, hábito enraizado apenas em indivíduos de status social elevado. O pequeno fémur retirado, de entre outros pequenos ossos depositados junto à bacia da mulher, permite-nos concluir que estava grávida quando foi executada..., o que transporta até nós um drama de grande intensidade e violência. Na cidade houve grandes convulsões durante a ocupação árabe e ao longo dos tempos da reconquista cristã. É importante datar o achado para que as conjecturas sejam mais fundamentadas”.
Do laboratório respondem ao fim de alguns dias que os ossos analisados têm cerca de oitocentos anos, com uma margem de erro até oitocentos e cinquenta anos e que o estudo genético vai demorar, pelo menos, mais...
Saturnino Viegas já não ouve a restante informação dada pelo seu interlocutor.
Para o chefe do Departamento de Arqueologia da Universidade os decapitados eram seguramente parentes. Talvez marido e mulher..., príncipes muçulmanos..., talvez pai e filha...
O arqueólogo dá a última passa no cigarro que esmaga no cinzeiro de pé alto, recosta-se no cadeirão flexível em atitude de repouso, fica em estado de semi-hipnose seguindo o feixe de luz que atravessa o silêncio do gabinete e vai atingir certeiramente um pequeno emblema heráldico, meio escondido numa das estantes atafulhada de livros. Simboliza uma tragédia semelhante à que acaba de fantasiar nesse tempo distante de há oitocentos anos...
…os decapitados de Ebora.

AC