Wednesday, October 06, 2010


 



Moinho do Guadiana – “ti” Zé Maneta
(submerso pela barragem do Alqueva)

Debaixo d’ água e triste
está o moinho encantado,
que ideia lhe assiste
de tornar ao antigo fado.

Voltar a sentir-nos a alma,
dando-nos sombra no estio;
e num fim de tarde calma
para nos acompanhar no rio…

Velho Moinho do “ti” Zé,
que saibas: aprendemos a lição,
mesmo já não te tendo ao pé
guardamos-te no coração.

AC

ALENTEJANOS ILUSTRES





"A Propósito" de Manuel Inácio Pestana (1924-2004)

Homem de imenso saber, da cultura, historiador, investigador, pedagogo, autor de extensa bibliografia, fundador, com Joaquim Torrinha, da revista Callipole - uma das suas paixões. Alguém com conhecimento de causa, que não eu, fará a sua biografia.
Nasceu no Alandroal, em 1924, e a sua vida decorreu entre duas terras de adopção: Portalegre e Vila Viçosa. Nesta localidade esteve longos anos ligado à Casa de Bragança, como seu Arquivista e Conservador. Foi onde tive a sorte de o conhecer, discreto mas despretensioso, afável, sempre disponível.
Ao Alandroal legou todo o seu vastíssimo espólio literário.
Aqui se publica este seu pequeno mas riquíssimo escrito sobre os vinhos do Alandroal: A FAMA DOS VINHOS DO ALANDROAL PERDIDA E NÃO RECUPERADA (publicado no jornal Diário do sul, onde era colaborador regular). Uma sua chamada de atenção, que felizmente teve eco.

Vem a talho de foice, agora que decorre em Borba a 6.ª Festa da Vinha e do Vinho e se presta homenagem à excelente qualidade deste produto e se evidencia a importância da actividade vitivinícola da região na economia nacional, vem a propósito – dizíamos – recordar o que foi a produção de vinho e a cultura da vinha no termo alandroalense.
A fama dos vinhos do Alandroal remonta aos tempos medievais da formação da nacionalidade, pois já D. Dinis preferia para a sua adega real – segundo lemos na “História de Portugal” de Damião de Peres – os vinhos de Lisboa e os do Alandroal, assim como aquele “bom vinho vermelho e branco” de que a administração municipal do Porto mandou encher dois odres para oferecer a um legado pontifício que em 1390 passou por aquela cidade. Afirmava-se ainda a qualidade excepcional dos famosos vinhos do Douro e dos arredores de Lisboa, talvez os de Carcavelos, Bucelas e Colares. A par destes sobressai então o vinho alentejano do Alandroal, com tais razões se tornou afamado que já o Mestre de Avis Martim de Avelar (1364) inventariava uma importante adega nesta vila nos seguintes termos:
“Uma adega em que estão dez talhas de vinho branco cheias e três cheias de rosete e oito de vinho vermelho;  “as cinco de bom vinho e três de mau, e duas talhas quebradas a uma tinha [tina] e um cocho [tabuleiro] de pisar tinta.
“Está uma talha de vinho na adega de João dos Passos e o vinho é do mestre e a talha de alquiel, [aluguer] e o vinho é furmigento.
“Está uma cuba na adega de Madriana Martins e o vinho do Mestre […]”.
E ainda no séc. XVIII (1756), quando os moradores de Borba, já então região privilegiada de produção vinícola, reclamam a defesa dos seus vinhos perante o incremento do plantio de vinhas nos termos vizinhos, citam-se, além de Elvas, Olivença, Campo Maior e Estremoz, precisamente o Alandroal.
Cremos que a quantidade de produção e a qualidade destes vinhos se mantiveram por largo tempo, até ao ponto de encontrarmos o registo de uma significativa representação deles na grande Exposição Portuguesa realizada em Lisboa em 1888.
Estávamos ainda no período da chamada “Revolução Verde” que desde os meados do século se caracterizara por um aumento da produtividade agrícola no país, em que, embora diminuindo a produção de trigo por força da concorrência americana aumentava a do milho e proporcionou o incremento do plantio de vinhas em substituição das searas. Por outro lado, a filoxera já dominava a Europa, de modo que em Portugal as perspectivas de exportação de vinho anunciavam-se promissoras. A crise viria atingir Portugal mas só em 1890 e daí em diante, a filoxera responsável também mais adiante: ”Entretanto, como dizíamos, o Alentejo e nele o Alandroal produziam cada vez mais e melhor vinho. Temos então, para remate desta notícia, que na referida exposição agrícola do Alandroal se apresentaram com os seus vinhos os seguintes produtores: António Joaquim Barbas e António José Biga, Joaquim José Fernandes e José Mariano Carvallho Faleiro – que eram os maiores produtores do concelho – e ainda António José Neves, Bárbara Luísa Matroco, Catarina Rita Cordeiro (Monte dos Pobres), Emídio José Simões, Fortunato José da Fonseca, José Madeira da Silveira Belo, José Joaquim Mendes, José Pedro Galhardas, Martinho José Galhardas, Joaquim Diogo Morte e Joaquim Lopes Godinho. Apresentaram vinhos tintos, brancos e licorosos (A. J. Biga) Aguardentes (A.J. Biga, E. J. Simões, F. Fonseca e J.J. Fernandes).
As quantidades de produção anual de alguns destes vinicultores alandroalenses superavam de longe as de qualquer outro dos muitos expositores do nosso distrito, o que vem demonstrar como na realidade eram de fama os vinhos desta terra, hoje perdida reduzida que, após a doença das vinhas, se tornou encaminhada a produção para as cooperativas da região, quando, historicamente pelo menos, se justificaria hoje a existência no Alandroal da sede uma região vinícola incrementada como me parece tem vindo a ser a plantação de vinhas no concelho.
Por tudo quanto fica dito, não merecia o Alandroal a homenagem dos actuais industriais da produção vinícola desta região, lembrando o seu nome numa das marcas comercializáveis?



Tuesday, October 05, 2010





















(Arquivo A CAPITAL. Publicada em 4 de OUT. 1974)

Este histórico comunicado, já publicado no oraculodasabedoria.blogspot.com, transita hoje para o lugar que lhe é devido – 5 de Outubro de 2010.
Os cruzadores Adamastor e S. Rafael, fundeados no Tejo, abriram fogo sobre o Paço das Necessidades, onde se encontrava o rei.
O primeiro tiro que atingiu o Paço provocou uma onda de pânico e desorientação.
O rei D. Manuel foi para o seu oratório pessoal, pedindo a ajuda divina. Pouco depois abandonou o local em direcção a Mafra.
Como consta do comunicado saído da MAJORIA GENERAL DA ARMADA e enviado para bordo do Adamastor: [Comunique Cruzador “Adamastor” cesse fogo Paço Necessidades. Ponto. Rei abandonou Paço. Ponto.]
Revolução Triunfante
Viva a República
Ladislau Parreira
(no comunicado é rasurada a coroa)

Sunday, October 03, 2010












FLASH
Gosto de observar estes animais… mas ao longe!
Rebuscando velhas fotografias encontrei esta que, em si, nada tem de espectacular. Mas do lado de cá da objectiva foi onde decorreu o espectáculo.
Numa tarde de passeio e relaxe parei o carro junto à vedação, onde pastavam os touros bravos, animais que muito admiro desde criança, e que não se importunaram com a presença do veículo.
Baixei os vidros e preparei a máquina para fazer uns disparos. Isolei um preto e outro castanho, mais próximos e pelo contraste.
Mas…, pensei eu…, eles (os touros bravos) estão tão calmos que vou fotografá-los fora do automóvel, junto do aramado… sempre faço uma fotografia de melhor qualidade.
De minolta em punho, junto à cerca ainda me ocorreu uma segunda ideia: eles (os touros bravos) nem deram sinal de me sentir por perto. Com alguma agilidade até consigo saltar para o lado de lá… e a coberto das giestas faço um flash mais perto… vai sair fotografia de capa de revista de touros.
Eis-me, pois, de cócoras, “escondido” pela vegetação…, e faço o disparo, um único, isto é, o único que consegui pressionar… e de que aqui dou notícia.
O touro castanho, como vêem, não se molestou com o ruído, ou se deu por isso tal não lhe agitou a bravura.
Mas o touro preto… senhores, levantou de imediato o focinho de fera picada, na direcção do barulho feito pelo disparo, ou seja, na minha direcção, como o atesta a “impressão” revelada.
Depois aconteceu o que já não podia ser revelado: investiu bestialmente em busca do som que lhe incomodara o pasto. Ainda hoje não percebo como as minhas pernas actuaram tão velozmente e como de um salto (olímpico) fiquei do lado de lá do perigo.
O monstruoso touro preto estancou a poucos metros, levantando uma nuvem de pedra solta e pó, ao mesmo tempo que expeliu duas baforadas de mau génio de dentro dos pulmões.
Da minha parte as consequências de este encontro iminente foram de somenos importância: camisa e calças estraçalhadas, um pequeno golpe na testa e arranhões vários nos braços e nas pernas…, tudo resultado do tal salto olímpico.
Ele (o touro preto) nem me tocou…

AC

Tuesday, September 21, 2010









Foi a Primeira Fotografia!


A cena campestre, que nos é dada observar, parece ter sido gravada na tela pelas mãos de um artista desconhecido. Mas não se trata de uma tela, nem o artista é desconhecido.
A imagem reconhecida como a primeira fotografia que o mundo viu, foi captada por um inventor francês em 1826, cerca de 60 anos antes da invenção oficial da máquina fotográfica.
A impressão (8 x 6.5 polgadas) foi captada por Joseph Nicephore Niepce, numa fina chapa de peltre e foi analisada por cientistas do Getty Conservation Institute, num projecto conjunto com especialistas franceses, que procuram desvendar o misterioso processo químico pelo qual a imagem foi obtida.
Niepce chamou-lhe heliografia, em reconhecimento ao poder do Sol.
«Se pensarmos na história da fotografia, no desenvolvimento do filme e da televisão, tudo descende desta 1ª imagem». É a trisavó de todas essas tecnologias – é o princípio!

FLASH

Friday, September 17, 2010




(foto: O POVO CIGANO - 2ª edição,1996, Dr. Olímpio Nunes, ilustre ciganólogo)




Este pequeno conto foi escrito há muitos anos. A ele voltei agora pela necessidade que senti de expurgar, sempre um pouco mais, o meu imaginário colectivo sobre os ciganos, sabendo eu que o mesmo será sempre "feio". Felizmente tenho um imaginário pessoal sobre os roms bem mais favorável e tolerante. Sei que, em todo o lado, ninguém os quer por vizinhos, e que se lhes deita a culpa por qualquer tipo de crime que aconteça anónimo, bastando para tal estarem por perto..., enfim..., podia desfiar um sem número de razões porque são malditos.
Mas estas deportações dos manouches, executadas pelo governo Francês, não auguram nada de bom. Pequenos acontecimentos na História cresceram e tornaram-se incontroláveis...





Mariana vive numa barraca de madeira, desgarrada do pequeno bairro entremeado de casas pobres e outras que atestam algumas posses, nas traseiras do cemitério.
Conheço esta cigana, de idade indefinida, desde há muito, o que me faz pensar que temos, mais ou menos, as mesmas primaveras, e não lhe conheço parentes, o que não é habitual na sua etnia sempre com famílias numerosas. Disse-me um dia, meio a sério, meio a brincar, que quanto a anos não sabe às quantas anda e que ficou esquecida no que foi outrora terreno baldio, nos arrabaldes da vila, em época de grande fome, tempos longínquos e difíceis, esses, em que evita cismar. Não que isso lhe ocasione qualquer desejo íntimo de voltar a ver os seus, que não sabe quem foram, ou quem são, mas pelo simples facto de se saber abandonada ali, nas traseiras de um cemitério, onde até os mortos são recordados de vez em quando.
Mariana tem, apenas, uma visão enevoada de ver partir uma caravana numerosa mas não lembra a fisionomia de ninguém, nem sequer o nome de algum miúdo mais próximo da sua leva. E, curiosamente, vê e ouve, com nitidez, um pequeno cão malhado, preso ao eixo de uma carroça desengonçada, em lamuriante ganideira que se vai diluindo no espaço entre a parede das traseiras do cemitério e o infinito.
Hoje tem, para si, a certeza que a família, vinda não sabe de onde, acampou no local onde se encontra o bairro que então não existia. E no dia de levantar arraiais esqueceram-se dela, menina pequena, que se teria afastado no entusiasmo de alguma brincadeira.
Quando alguém deu pela sua falta, muito depois do laticar do cão malhado, era tarde, longe, e menos uma boca com quem dividir as migalhas tão difíceis de angariar para o sustento do dia a dia.
Assim engendra a história que lhe dá a razão de existir.
Recolhida por um casal de velhotes sem filhos, a ti Mariana, que lhe deu o nome e o ti Júlio Alabaça, fizeram por ela o que a idade e a vida lhes permitiu.
Deixaram-lhe a pequena barraca da horta que cultivaram em tempos, hoje engolida pelo bairro e são agora seus vizinhos do lado de lá da parede do cemitério, que no Verão a recompensa com sombra acolhedora e no Inverno a protege da nortada áspera, que ali sopra por vezes com ruído ensurdecedor.
Mariana tem por mim um carinho desmesurado desde o dia em que lhe dei atenção e a tratei de uma dor de dentes velhaca.
«O senhor doutor é muito bonzinho, Deus o abençoe pelo bem que me tem feito, que eu não lhe posso pagar, e dê sorte à sua senhora e aos seus meninos, que é o que eu mais lhe desejo, que essa sorte para mim não posso desejar; e, já agora, veja lá, senhor doutor, se a sua senhora tem uns sapatinhos e uma roupinha velha que já não queira, que a mim tanta falta me faz…», -e por aí adiante, a lengalenga estende-se ao jeito de bom augúrio e benção iniciais e termina com o pedinchar, que lhe está na massa do sangue, do que quer que seja, pois de tudo necessita Mariana Só.
Quando me procura a qualquer hora do dia ou da noite, já sei que a aflição física que a apoquenta é uma dor em qualquer sítio do corpo, única “doença” que conhece, ou da alma que, essa, sempre lhe dói.
Costumo brincar com ela, comentando: -isto aqui não é uma igreja; e tirei o curso de médico, não de padre, -o que logo a põe a rir.
Um dia, vindo da caça, parei junto à porta da “mansão”, onde se encontrava sentada no poial, apanhando a soalheira do fim da manhã.
Tirei um coelho e uma perdiz do pendurador e depositei a caça no colo encovado de Mariana Só, ao mesmo tempo que lhe ia recomendando, com o intuito de evitar um desfiar de agradecimentos: -olha que o sol nesta altura do ano é manhoso, e se adoeces, depois, não tens dinheiro para me pagar a consulta!
Riu-se, envolvendo-me com o íntimo do seu ser em gratidão e tentou devolver-me as oferendas com delicadeza: «senhor doutor, isto faz mal ao meu estômago que é tão fraquinho e não tenho dentes para mastigar. Leve para os seus meninos que estão em idade de crescer; coitadinhos, bem precisam assim de uma carninha sadia como esta. Eu logo passo em sua casa para me dar o resto do pão que sobrou de ontem e um litro de leite para fazer umas sopinhas, que tão bem me sabem e que sempre consigo desmoer melhor».
-Guarda lá a tua parte da caçada e deixa-te de conversa fiada, que os meus filhos também aqui têm o seu quinhão, para o caso de hoje começarem a gostar de carne de coelho ou de perdiz, -alvitrei em tom desmotivador de qualquer outra reacção.
Os olhos expressivos de Mariana, tremelicando, fitaram os meus, deixando-me adivinhar que estava comovida.
Tentei fazer passar a ideia que não tinha reparado e procurei galhofar com a minha amiga cigana: -tu és Mariana de nome próprio e Só de apelido ou só Mariana, querendo o só significar que não tens mais nenhum nome?
Mas logo me arrependi da galhofa, de ali ter passado naquele dia e do resultado desastroso do que eu pretendia que fosse uma brincadeira geradora de risota mútua.
Mariana desatou num pranto incontrolável, soluçando como se fosse criança, e despejando rios de lágrimas pelos sulcos profundos da face.
Surpreendido pela emoção inesperada que provocara, indaguei com ternura, ao mesmo tempo que lhe afagava o rosto e as mãos: -não tinha intenção de te ofender, mulher; e o que disse foi apenas para me meter contigo…
«Eu sei, eu sei, senhor doutor, -repetiu, ainda soluçando, mas mais calma. O que me disse fez-me voltar a ver a névoa de quando fui menina, aqui neste mesmo sítio; e o que mais me enraivece é não ter explicação para o que me aconteceu, pois todos os que conheço da minha “raça” têm uma amizade que nunca acaba para com os seus… -deixou a conversa no ar, por alguns segundos, e depois rematou: eu sou mesmo Mariana Só, de nome e de tudo o mais…».

AC

Tuesday, January 12, 2010













Um cão chamado Faísca
guarda o lugar do dono
mesmo quando"trovisca",
e à noite nunca tem sono.
(cachorro rafeiro do Alentejo,
na foto com a idade de 6,5 meses)

Tuesday, September 01, 2009

















Alto de S. Bento – Évora
Sítio de um povoado pré-histórico, ocupado, provavelmente, desde os finais do VI milénio antes de Cristo e os inícios do V, período em que se pensa ter ocorrido a transição das últimas sociedades de caçadores-recolectores para as primeiras sociedades agrícolas e pastoris.
Um ex libris da cidade, pela vista magnífica que oferece ao visitante, pensamos que esteja fora da jurisdição da CME, tal o estado de degradação a que foi votado.
Provavelmente os “homens da autarquia” não se afoitam por aquelas bandas, pois consta que quem ali manda são meia dúzia de bandoleiros, descendentes do Geraldo (o Pavor têm-no eles).

Saturday, August 29, 2009

Évora... Alto de S. Bento
Entardecer















Uma verdadeira mãe ou um caso de adopção canina…









Quem não ouviu já contar dezenas de histórias sobre factos quase inverosímeis passados com animais que, muitas vezes, em atitudes de grande altruísmo, superam o comportamento dos humanos (infelizmente muitos destes nunca aprenderam o sentido dessa palavra com nobre significado).
Pois esta é uma dessas estórias, entre tantas outras que se contam, com a particularidade de ser verdadeira e de nos dar uma lição de grande amor maternal – que também existe entre os animais, embora muitos insistam que se trata de mero instinto, esse enlevo de sentimento que nos admira e comove.
Faz muitos anos, um meu vizinho era dono de dois cães rafeiros que lhe guardavam a casa e uma quinta de dia e de noite.
O cão chamava-lhe Jack e a cadela que tratava por Mina.
O Jack já era entrado na idade e a cadela Mina ainda quase cachorra, não se entendiam de modo algum, sendo as desavenças exacerbadas à hora a que a comida caía nos pratos; os rosnares e lances de olhar de desconfiança eram mútuos, aplicando-se-lhes, no caso em questão, o velho ditado: “o que é do meu vizinho é sempre melhor do que o que é meu”.
As meças de patas por vezes terminavam em ferozes brigas com encontrões e algumas dentadas pelo meio, apenas tendo fim com a intervenção de uma mangueira que o dono também utilizava para regar a horta.
Mas bastava a mais pequena lufada de ar fresco, transportando algumas moléculas anunciadoras do cio da Mina, estimular as ventas do Jack, aí se metamorfoseava ele no cão mais dócil e meigo…, o constante companheiro…, um “eterno” e galante namorado. A comida e a água ficavam nos pratos, pois, ao bom do Jack, as vinte e quatro horas do dia não chegavam para cumprir os rituais da corte, quanto mais para ter tempo para se alimentar.
Uma vez ainda conseguiu traduzir a sua prole em seis lindos cachorrinhos que a Mina pariu num tórrido dia de Agosto. Não cheguei a vê-los crescer, pois o dono foi dando um a um, a vizinhos e amigos de outras quintas.
Não mais o Jack se multiplicou, pois a velhice canina também não perdoa e os galanteios e ladradelas de amor ficaram por isso mesmo: uns encostos de cabeça e umas quantas tentativas frustradas de se suster nas patas traseiras sobre o dorso da Mina. E assim…, já em idade muito avançada o Jack entregou-se nas mãos do criador de todos os cães.
Apesar dos desentendimentos frequentes, a cadela Mina soube o significado da palavra solidão (canina). Era vista ora farejando os carreiros da quinta, onde ainda estava activo o cheiro do seu companheiro, ora estando deitada junto à casota que pertencera ao Jack, com olhar triste e taciturno.
Mas um belo dia, para minha surpresa, vi chegar uma carrinha que estacionou junto ao portão da quinta e de onde foi tirada uma caixa que transportava um cachorrinho com focinho de tenra idade e olhar desconfiado, tremelicando desde as orelhas, por sinal bem bonitas e vistosas, até à ponta do rabo que era branca. Simpatizei de imediato com o pequeno bicho, pensando logo de seguida para com os meus botões: -pobre cachorrinho… vais ter uma dura prova de vida na companhia da cadela Mina – sabendo eu da sua irascibilidade e mau génio para com o velho Jack. Nesse dia não vi mais o novo inquilino da quinta, pois o meu vizinho pô-lo a recato dentro da habitação, receoso, com certeza, de uma reacção perigosa da Mina. Esta, durante o resto do dia e pela noite fora, não arredou pé da porta da casa, que foi farejada com insistência e obstinação nas mais pequenas frestas onde podia encostar as narinas.
Na manhã seguinte acordei tarde, pois tinha estado entretido até altas horas, ora a ler, ora a espreitar os movimentos da cadela no pátio da casa, que se avistava nitidamente da janela do meu quarto, ainda por cima iluminado aquele por um forte luar, manifestando a Mina forte desassossego, pois cheirava a presença do cachorrinho dentro de casa. Assim, os meus primeiros movimentos, ainda debaixo do efeito do final do sono, foram para me dirigir ao posto de observação dos meus aposentos, confesso que impelido pela curiosidade de saber notícias do pequeno cachorro, do qual ainda nem sabia o nome, ou sequer se o tinha.
Digo-vos, custou-me perceber o que os meus olhos, ainda ensonados, viram: o dono da quinta já tinha substituído o nome do Jack numa das casotas de madeira, onde podia ler-se agora o nome de Faísca.
A cadela Mina lá estava deitada sob a sombra da alpendorada do pátio… e debruçado sobre a sua barriga chupava deliciado o pequeno Faísca!

AC

Sunday, August 02, 2009










Alandroal, uma vila a necessitar de um provedor de justiça local...
...para apreciar o "feliz" enquadramento deste mamarracho estilo barracócôco, com o castelo e ambiente arquitectónico da praça em geral... (supomos toda esta obra com autorização do IPPAR e dos Monumentos Nacionais?!)

Tuesday, June 30, 2009








A Autarquia é amiga do Ambiente!








E esta ein! ...
(3 anos depois..., sob a "eco"pista)

Friday, June 26, 2009

Saturday, June 20, 2009



















...traz outro amigo também!







































Dia mundial do chapéu : comemorado festivamente na pacata vila de Alandroal ( início do séc.xx; adivinha quem são eles... chapéus há muitos!... )

Tuesday, May 19, 2009















Santa Justa: um destino injusto!







Entre Évora e Arraiolos utilize a ecopista: vai mais rápido e chega com mais saúde...

Saturday, April 18, 2009








Na elevação com maior cota, do lado esquerdo do que se adivinha ser uma casa: o sítio onde esteve o Templo Romano de Endovélico







Fui eu que as fotografei... Elas vieram de longe..., desenhar a cidade...

Monday, December 22, 2008

ADEUS PAI NATAL...

texto: Luis Galhardas
ilustração: Paula Costa

“...Mas o melhor do mundo são as crianças,...” (Fernando Pessoa: poema Liberdade).

Nesta época do ano recordo sempre aquele ambiente caloroso de casa de meus avós maternos, onde fui criado.
Havia sempre muita gente. Netos eram uma catrefada deles.
Depois chegavam outros familiares e amigos que vinham passar a consoada connosco.
Na cozinha havia uma grande chaminé, sempre abastecida de gigantesco madeiro que ardia durante todo o Inverno.
Era um dos meus locais preferidos nas horas de lazer daqueles dias frios, aproveitando para ir depenicando nas batatas que a nossa cozinheira ia fritando. Por vezes resmungava: «tal não está, não dou batatas fritadas!».
Foi nessa chaminé, enorme para um pequeno catraio, que dei conta da existência do Natal, palavra que jamais deixei de associar a brinquedos, e do seu actor principal, o Pai Natal, homem de compridas barbas brancas, trajado de vermelho, vindo não se sabia bem de onde.
Pela grande chaminé descia nas noites de Natal, de saco cheio, com algumas prendas que eram nossas, depositadas, no silêncio da madrugada, numa árvore decorada para o efeito, desde há muitos dias à espera.
Por vezes perdia-me em conjecturas, olhando para o cimo daquela grande “torre”, imaginando como conseguia descer o velho homem chaminé abaixo, mesmo por cima do lume, sem se queimar!
E intrigava-me, também, como era possível o idoso personagem, naquelas noites frias e escuras como breu, dar a volta ao mundo, entrando em todas as casas onde havia crianças, a deixar as suas oferendas de Natal.
Lembro-me de ter posto essa questão a meu avô que, sabiamente, me respondeu sem pestanejar: «ele tem muitos ajudantes!».
Foram-se passando os anos. Entrei para a escola.
Aprendi a ler rapidamente, mas a escrever foi o cabo dos trabalhos, pois também tive que aprender a fazê-lo com a mão direita. Felizmente a tempo de redigir a minha lista de desejos para enviar ao Pai Natal.
Aproximava-se mais uma época natalícia, começando a imaginação da criançada a labutar afanosamente sobre as surpresas com que seria contemplado cada um, na tão desejada noite de Natal.
Numa dessas conversas de escola o meu amigo Tricas, a quem ainda não ouvira formular qualquer petição, largou uma tirada que me deixou atordoado como gato caído dentro de água: «isso do Pai Natal que vocês para aí estão a falar é uma grande treta!... o Pai Natal a minha casa nunca vai, simplesmente porque não existe... não passa tudo de uma grande mentira que vos pregam».
«Irá a tua casa porque és neto da professora da escola?»- perguntou-me com desplante.
E continuou, arrasador: «quem oferece os presentes são os nossos pais…, se têm dinheiro para os comprar«.
O Pai Natal não dá nada, pelo menos a mim, que aos meus pais não lhes sobra dinheiro para brinquedos.
Eu olhava o Tricas de olhos esbugalhados, incrédulo na foiteza com que ele desafiava o velho mito.
Mesmo sendo o meu maior amigo apeteceu-me bater-lhe, furioso com a afronta dirigida a tão simpática figura do meu pequeno mundo.
Fugi do grupo, corri para casa e meti-me no canto da chaminé, pensativo: -se era verdade que o Tricas não recebia presentes, então tinha que tirar as coisas a limpo.
Naquela noite de 24 de Dezembro fui com ela fisgada para a cama.
Como era hábito, a nossa Joana foi-me deitar e ajudar nas orações da noite que eu nunca sabia de cor.
Enfiei-me de seguida nos lençóis e apagou-se a luz.
O meu quarto tinha uma janela grande que dava para a marquise, dependência da casa que nessa época festiva era cenário do Presépio e da árvore de Natal.
Tinha, assim, um belo posto de observação nocturna.
O propósito de comprovar o que o Tricas me contara provocara em mim grande espertina. Fiquei atento ao menor ruído nas imediações, se bem que prejudicada a minha audição pelo ressonar trovejante de meu avô, dormindo no quarto ao lado.
Ouvi o relógio da “casa de jantar” bater as onze horas. O meu irmão, na sua cama, dormia, desconhecendo o meu plano.
Mas eis que ouvi accionar o trinco da porta da marquise, e passos cautelosos, de um lado para o outro, denunciaram-me a presença de alguém.
De um pulo saltei da cama e estava no meu observatório.
Na marquise, com a iluminação de Natal, parecia dia.
Os meus pais e minha avó, atarefados a colocar cuidadosamente prendas e chocolates na árvore de Natal, não deram pela presença de um pequeno espião empoleirado na janela do quarto dos miúdos.
Ali estava a concertina que tinha pedido ao Pai Natal... e uma camioneta igual à da carreira...
A visão, à socapa, daquelas pequenas maravilhas cegara-me momentaneamente.
Mas logo de seguida ouvi a voz do Tricas gritar: «o Pai Natal a minha casa nunca vai!».

Sunday, September 28, 2008










A Praça - encontro de gentes











Alandroal - Praça da República
(a data da fotografia: primeiros anos a seguir à implantação da República, pois o "rapaz da bicicleta" aqui tem doze anos.)
Uma mota endiabrada
texto:Luis Galhardas
ilustração: Paula Costa








Nesse dia 30 de Agosto Manuel Braga completava dezasseis anos.
Filho de um rico proprietário, que mais rico ficara quando lhe saíra a sorte grande de treze contos, no ano de 1913, não dera ainda por qualquer obstáculo na vida.
Nascera rico e, como era óbvio, tinha vida de rico.
Menino predilecto de Francisco Braga a quem não dera preocupações que não fossem as próprias do desenrolar da mocidade, fizera a instrução primária com brio e desenvoltura invulgares.
De tal modo que aos doze anos estava à frente da complexa escrita dos negócios familiares.
Não se colhia um quilo de uvas, laranjas, ou azeitonas que não fosse devidamente registado; nem saco de farinha da moagem, ou garrafão de azeite do lagar que não lhe passasse pela ponta do lápis.
O pai, babado com as qualidades do pequeno Manuel, presenteara-o com a primeira bicicleta que a vila vira chegar.
Fora no dia dos seus treze anos. O pai chamara-o ao escritório para que assumasse à janela de sacada, a alguém que o perguntava.
Encostada ao banco da rua, em frente à casa, estava a realidade de um sonho que se repetira muitas noites desde que desejara ter uma bicicleta.
Volvidos três anos, já um homem, achou que era altura de dar descanso às pernas.
Tinha lido nos jornais as últimas sobre um novo modelo de mota, de uma marca inglesa, que lhe ficara debaixo de olho.
Voltara a sonhar: o grande farol dianteiro, o imponente guiador em cromado, o selim em cabedal..., enfim, uma verdadeira máquina.
O cabo dos trabalhos é que ouvira o pai, por diversas vezes, vociferar contra um desnorteado de uma terra vizinha, que andando de amores com uma rapariga da terra, ali se deslocava em mota ruidosa a que imprimia uma gáspia desmesurada, sobressaltando a povoação.
A medo, deixara aproximar a data natalícia para ganhar coragem que bastasse, apoiada no evento.
Conversa feita um mês antes do aniversário, em dia de boa catadura do pai Francisco, os seus receios eram infundados.
«E se tivesse pedido duas…, porque não?»
«Que não estava já em idade de pedalar!»
Assim, em vésperas de dia de anos, chegava uma mota de marcaTriumph à pacata vila alentejana.
À porta da família Braga juntaram-se os curiosos habituais do burgo, mirando, alguns pela primeira vez, um veículo motorizado de duas rodas.
O pai, ainda ontem crítico acérrimo do tal pinga amor, encorajava agora o filho para uma volta experimental. «Que ruído todos os motores faziam; e quem não quisesse ouvir que se metesse em casa e fechasse as janelas.»
Manuel, já instalado em posição de condução e catapultado para a ribalta das atenções, sorriso de orelha a orelha e peito inchado, deu ao pedal do motor de arranque, com precisão inesperada, e partiu.
Sucediam-se as voltas ruidosas à vila, com passagem obrigatória pela Rua do Caminho da Fonte, onde a assistência que ali se reunira o via passar com estupefacção.
E não havia meio de parar!
Percebida inicialmente a insistência pelo gozo e novidade, aproximava-se a hora do almoço, o que não parecia desmotivar o compenetrado condutor.
Tomou-lhe o gosto…, diziam uns; anda a armar-se…, diziam outros, entre dentes.
Aos apelos do pai para que encostasse respondia com um abanar de cabeça e palavras inaudíveis, perdidas entre os roncos do motor.
Neste vai vem sem fim passou horas a fio, tarde dentro, guiando a sua mota Triumph, novo modelo da marca inglesa.
Por fim surgiu a pé, rua acima, esfalfado e embezerrado, “assento” amassado de tanto trepidar, empurrando com esforço o novo modelo da marca Triumph, agora com o dobro do peso.
À sequência interminável de perguntas do pai, esclareceu irritado:
-Tive que andar até lhe gastar a gasolina toda…, não faço ideia de como se pára o raio da mota!!!

Friday, September 26, 2008









O estado da arte: arrasar é preciso para que não haja memória...

Sunday, September 21, 2008








Praia vigiada: cuidado com o cão...
















Ilha do Pessegueiro
Na ilha: forte construído logo após a Guerra da Restauração, sobre anterior construção militar; e ruínas do período romano, nomeadamente salgas de peixe.
Na costa, sobranceiro à ilha: forte do final do Séc. XVII, felizmente com obras de restauro.

Monday, August 25, 2008










Dia Mundial Da Chuva
(Estava um lindo dia
para passear na rua...
...sem sol... muito chovia!
O tempo prega das suas...)

Saturday, August 23, 2008

Wednesday, July 30, 2008







Paisagem...

Texto:Luis Galhardas
Ilustração: Paula Costa


O Alentejo escalda como nunca.
O ar quente seca gargantas já desabituadas destas temperaturas e os grilos nas tocas emudecem esperando, em vão, dias mais amenos.
Uma máquina agrícola corta um trigo pouco promissor, lançando à sua volta uma poeirada de palha solta.
A erva de há poucos dias deu lugar a pasto seco que cobre de amarelo tórrido a planura ondulada, exibindo à memória telas de Van Gogh.
Animais arrastam-se penosamente procurando uma fonte, uma sombra que os ajude a transpor a barreira de mais um dia.
Um cão vigia de longe, com um palmo de língua de fora.
Do moiral nem sinais, que não há chapéu que pare este sol abrasador.
“Venham bulir neste Alentejo que destila fogo, um dia que seja!”
Mais além a miragem de um oásis. Uma horta, um milagre na charneca ardente, onde o verde faz lembrar outra estação, palácio da passarada que depois de depenicar na fruta aproveita para se refazer da calma.
Junto a um poço dois miúdos, perdidos nesse espaço imenso, chapinham com entusiasmo no caldo que preenche o bebedoiro do gado. Aproximo-me. Riem-se, divertidos, não me sentem chegar.
Gozo também a brincadeira de atirarem água um ao outro, corpos nus despedindo gargalhadas de prazer. Hesito em anunciar a minha presença. Por fim dou uma tossidela que não ouvem, de tal modo estão absortos na pândega.
Invejo-lhes a inocência, a graça gestual, os sorrisos escancarados, o estado de alma doce, tudo a condizer com o seu pequeno mundo.
Quero ser um deles, tocar aquela água que limpa a carne e tempera do calor como se do mar oceano se tratasse.
Esqueço-me, em sonhos com outros tempos que me despertam esse desejo, e eles continuam a ignorar-me, entretidos em combinações de proezas infantis.
-Chico, vamos a ver quem é capaz de estar mais tempo com a cabeça debaixo d’ água, -diz um deles, deixando vir à tona um insuspeito semblante de malícia.
O Chico ainda duvida aceitar a competição: «eu respiro mal pelo nariz», contrapõe com santa ingenuidade, obrigando-me a conter a respiração para não me rir e ser denunciado.
O Tónho, assim se chama o outro catraio, nitidamente mais batido em pequenas trapaças, mantém e argumenta a proposta: -olha lá Chico, debaixo d’ água só os peixes é que respiram!...
...o meu desafio é precisamente o contrário: ver qual de nós aguenta mais tempo sem respirar, metendo a cabeça na água.... enchemos o peito de ar, contemos a respiração, e vemos qual de nós lá consegue estar mais tempo.
O Chico, receoso do alvitre, ainda levanta mais uma questão: «e como contamos o tempo se não temos relógio?».
-É simples meu medricas – a palavra sai dos lábios do Tónho com tom incentivador – fazemos à vez e o que fica de fora vai contando até cinquenta...
Repetem a cena enquanto o fôlego do Chico resiste, nunca topando este que o Tónho tem escondida uma palhinha retorcida, metida habilmente no canto da boca...
...nem dão por ser espiados pelo desconhecido que deliciado os observa.
Dali arrancam repentinamente, gritando em uníssono: -vamos a ver quem chega primeiro ao monte!

... e lá vão galgando cabeços, como penas soltas batidas pelo vento ...