Sunday, May 17, 2015



 

 

Investigação na Praça do Teatro




Na Praça do Teatro a azáfama das máquinas escavadoras dá origem a uma cratera que mais parece ser o efeito da queda de um engenho explosivo de grande potência. As obras, que têm como fim a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, em zona de influência do centro histórico, estão ao abrigo dos mirones por uma vedação cerrada de madeira.
Subitamente o ruído ensurdecedor dos motores em acção deixa de atentar contra os tímpanos dos transeuntes e a coluna de pó que entra pelas frestas das janelas, a alguma distância, acama-se paulatinamente marcando todos os recantos com resquícios da sua presença.
Ao princípio da tarde o arqueólogo chefe da Universidade é visto entrar para a zona das obras, vestido a rigor como qualquer engenheiro, sinal de que uma ruína, talvez restos de uma estrutura antiga foi posta à luz do dia pelas escavações.
Pelas onze e trinta da manhã uma secretária atendera uma chamada telefónica da parte do empreiteiro que dirige a construção do parque.
«Está lá..., sim..., estou..., ouve-se mal, estou no fundo do buraco...»
Do outro lado da rede uma voz feminina, trocista, questiona: –e quem o mandou meter-se no fundo do buraco?
O homem, meio irritado, volta à carga: «estou no fundo das obras do parque..., em frente ao Teatro..., o meu telefone tem pouca rede...»
–Agora ouvi perfeitamente, apressou-se a informar a secretária, em que posso ser-lhe útil senhor...?
«Minha senhora, uma escavadora pôs a descoberto dois esqueletos que estão juntos, quero dizer, na mesma cova..., não sabemos se há mais..., o manobrador fugiu com o susto que apanhou..., depois todos rimos..., mandei suspender os trabalhos até alguém entendido ver do que se trata.»
–Muito obrigada, ouviu-se a voz desinteressada da secretária, com certeza habituada a receber este tipo de recados, vou avisar o meu chefe, alguém... A chamada caiu levando a voz do empreiteiro a ecoar pelas paredes da cratera – está..., estou..., está lá...
A cidade é um conjunto de estruturas que se foram sobrepondo no tempo, assentes umas sobre outras, espreitando aqui e acolá algumas  que ousam assomar-se através dos séculos.
Quando o Professor Saturnino Viegas se dirige para a Praça do Teatro vai conversando as suas divagações com as pedras dos muros e das calçadas, como é seu costume, porque as pedras velhas e gastas por vezes devolvem opiniões sensatas, assentes na experiência de longos anos passados.
–Já muito me admirava que ainda não tivessem encalhado em meia dúzia de cacos velhos, quanto mais não seja para cumprir a regra que é lei na “merda desta cidade” – não se levanta uma pedra que não se destape logo outra mais antiga.
Depois de passar a entrada da vedação de madeira o Professor Saturnino fica alguns segundos imóvel, enquanto limpa os óculos de aros metálicos redondos que lhe fazem os olhos ainda mais pequenos mas sem ocultar a aparência inteligente e observadora que transmitem. Cofia a barbicha desalinhada e continua a fazer comentários para si próprio. A escavação efectuada – emprega o termo por hábito profissional para designar a abertura feita – tem uma profundidade maior do que pensava. À medida que vai descendo por um trilho de pó, pouco seguro, vai observando as fatias dos muros circundantes, ainda crus. Afloram vestígios de casas da época medieval, cristãs e árabes, sem dúvida bem fora da cerca defensiva dessa época. O que leva a concluir que estamos perante um arrabalde muito antigo, onde cristãos e árabes viveram paredes meias – um espaço raro de tolerância entre os dois credos.
O homem que o arqueólogo palpita ser o empreiteiro veste um blaser com uma camisa branca e calça clara bem vincada, que lhe negam o estatuto de assalariado e tem um capacete de protecção de cor azul marinha em contraste com os amarelos dos homens que o rodeiam. Encontram-se no topo sul da abertura gigantesca, já com cerca de quinze metros abaixo do solo, olhando absortamente para o que deve ser o achado que é motivo da sua visita às obras do parque de estacionamento.
Quando pressentem a sua presença abrem um pouco o círculo que formam e o Professor Saturnino Viegas fica frente a frente com o senhor Arantes Gaspar, empreiteiro diplomado da construção civil, a quem os funcionários da firma construtora chamam, por dá cá aquela palha, de senhor engenheiro. Quase encostada ao muro do topo sul, protegida pela sombra que lhe forma uma espécie de cortina, vê-se uma fossa estreita e pouco profunda que contém, à primeira vista, duas ossadas humanas.
Depois das apresentações formais e de um pedido de investigação acelerada do assunto, pois a empreitada tem os minutos contados, o senhor Gaspar – considerando-se um mecenas das coisas antigas – dá um jeito às mangas do casaco que abotoa cerimoniosamente como se de uma inauguração se tratasse e aponta para o sítio a que o arqueólogo dá toda a atenção desde que chegou.
Saturnino Viegas repete o gesto de cofiar a barbicha desalinhada, denunciando um tique que sucede quando os acontecimentos lhe absorvem por completo o pensamento, enquanto se dirige ao outro de modo imperativo.
–Apenas uma hora, senhor engenheiro, para recolha de algum material e tirar meia dúzia de fotografias, apenas uma hora – sublinha, já envolto pela penumbra do seu trabalho. O senhor Arantes Gaspar faz qualquer comentário descabido a que Saturnino Viegas já não dá atenção, embora lhe responda: –sim, sim, deve voltar a enterrar os mortos para que reiniciem o repouso que lhes estorvou.


***


No gabinete do chefe do Departamento de Arqueologia da Universidade a área é contada ao centímetro. As paredes estão tapadas de estantes apinhadas de livros que Saturnino Viegas localiza um a um sempre que é necessário. Pelos cantos e chão do aposento todo o cuidado é pouco para não danificar algum dos muitos objectos antigos vindos de estações arqueológicas para investigação, depositados sem qualquer ordem aparente mas o utilizador do gabinete movimenta-se no exíguo intervalo entre as preciosas antiguidades como se ali nada existisse. Na secretária de mogno, com tampo de vidro embutido, também há alguma confusão de papéis e três ou quatro peças de cerâmica do calcolítico que contrastam com o computador pessoal do arqueólogo.
Bem em destaque no centro da mesa de trabalho estão por ordem dez fotografias a preto e branco, tantas quantos os ângulos possíveis em que o Professor Saturnino conseguiu fotografar a sepultura descoberta na obra do parque de estacionamento da Praça do Teatro. E dispostos simetricamente, por baixo da fiada de fotografias acabadas de revelar, vêem-se três peças ósseas relativas aos restos mortais recolhidos no túmulo para fins de investigação, já que ainda na sua presença, Saturnino Viegas assiste ao camartelo revolver o espaço milenar que minutos antes tratara com admiração e respeito e confundi-lo com toneladas de entulho retirado do fundo da obra.
As fotografias confirmam as primeiras ilações da observação atenta feita “in loco”. Trata-se de um enterramento árabe, pois os esqueletos encontram-se posicionados de lado, com a parte facial do craneo orientada para Meca. Mas os craneos estão numa atitude bizarra, dispostos entre a parte do esqueleto dos pés dos mortos, sem dúvida ali colocados propositadamente. O Professor embrenha-se nas fotografias, nos restos dos despojos humanos, na visão de centenas de anos atrás...
O tique de cofiar a barbicha instala-se..., não dá conta do corrupio de gente que passa para as aulas ou outros departamentos da Universidade..., não ouve sequer o toque insistente da campainha do gabinete, accionada por dois alunos que desistem da espera e resolvem fazer a entrega de um trabalho para mais tarde.
Levanta-se, acende um cigarro junto à porta envidraçada das traseiras da sala que dá para o jardim da Universidade. O dia está bonito, o sol entra a jorros pelas vidraças, a passarada anda num delírio com o cheiro da primavera. Saturnino não dá por isso. Quando volta para a secretária discursa em voz alta, fixando os livros e pedras velhas como se de uma assistência se tratasse. “A sepultura não apresenta sinais de ter sido violada em épocas anteriores. O que significa que os dois corpos foram decapitados, sendo as cabeças postas junto aos pés no momento do enterramento, por alguém que respeitou a fé dos crentes. O exame minucioso, quer no local, quer pelas fotografias, determina que um dos esqueletos pertenceu a um homem com idade compreendida entre quarenta e cinquenta anos no momento da morte, não mais, de estatura média – cerca de um metro e sessenta e cinco de altura – e pelo estado de conservação dos ossos, nomeadamente da cabeça do fémur recolhido, que não apresenta sinais de desgaste ósseo importante, suscita a imagem de alguém que não utilizava a força física – tinha homens que trabalhavam para si... podia ser um príncipe ou um rei...
O segundo esqueleto em questão identifica uma mulher nova, talvez não tivesse mais de dezoito anos, o máximo vinte e, curiosamente, tinha uma estatura um pouco superior ao homem – cerca de um metro e setenta centímetros. Os ossos não apresentam sinais de doenças e algumas peças dentárias existentes têm bom estado de conservação, o que reflecte preocupação com a higiene pessoal, hábito enraizado apenas em indivíduos de status social elevado. O pequeno fémur retirado, de entre outros pequenos ossos depositados junto à bacia da mulher, permite-nos concluir que estava grávida quando foi executada..., o que transporta até nós um drama de grande intensidade e violência. Na cidade houve grandes convulsões durante a ocupação árabe e ao longo dos tempos da reconquista cristã. É importante datar o achado para que as conjecturas sejam mais fundamentadas”.
Do laboratório respondem ao fim de alguns dias que os ossos analisados têm cerca de oitocentos anos, com uma margem de erro até oitocentos e cinquenta anos e que o estudo genético vai demorar, pelo menos, mais...
Saturnino Viegas já não ouve a restante informação dada pelo seu interlocutor.
Para o chefe do Departamento de Arqueologia da Universidade os decapitados eram seguramente parentes. Talvez marido e mulher..., príncipes muçulmanos..., talvez pai e filha...
O arqueólogo dá a última passa no cigarro que esmaga no cinzeiro de pé alto, recosta-se no cadeirão flexível em atitude de repouso, fica em estado de semi-hipnose seguindo o feixe de luz que atravessa o silêncio do gabinete e vai atingir certeiramente um pequeno emblema heráldico, meio escondido numa das estantes atafulhada de livros. Simboliza uma tragédia semelhante à que acaba de fantasiar nesse tempo distante de há oitocentos anos...
…os decapitados de Ebora.

AC


Vão deixar-me cair?




Fui à vila de Alandroal, com almoço marcado para o Arco Íris, mas com outro propósito, ou ideia, ou destino na mente: observar de perto a Ermida de N.ª S.ª da Consolação, o estado da arte de um estilo arquitectónico muito bonito – manuelino mudéjar – que Dom Diogo Lopes de Sequeira* mandou levantar para no local ser enterrado em campa rasa de mármore, com inscrição em letra gótica nos quatro lados, que lhe confere também embelezamento decorativo.
Local de concorrida procissão, as memórias de nela participar chegam aos primórdios da minha infância e por aí adiante…; fechado esse capítulo de empenhada religiosidade, perco o conto às vezes sem conto que passo perto, vindo dos lados do Redondo, e olho sempre para a ermida, que prefiro a todas as outras que cercam a vila, com sentimento de recordação de outros tempos, de outro Alandroal, digamos assim, e de grande admiração pelo ilustre alandroalense que a mandou erigir para sua última morada.
Deixemos em paz o secular defunto, impedido que está de cuidar de obra sua, concentrando em nós vivo desgosto e revolta pelo decretado abandono do monumento.
Um dia destes fiz o pequeno desvio, desconfiado do estado de degradação quer da ermida, quer da envolvência, que já se vislumbra bem da estrada.
Em hora morna dominical ali encontrei, sentado, o Elias: -quem manda aqui?…, é a Câmara?…, …é a Junta de Freguesia?... …ou será a Igreja? – pergunto eu.
«Sempre tenho ouvido dizer que é do Santíssimo» – respondeu-me…; «a porta da sacristia, nas traseiras, foi arrombada mas não havia lá santos… …e o sino ainda ali está porque é difícil a escalada». Será?
Do que vi entrego-te uma pequena parte em fotografia.
Talvez uma AAEC (Associação Amigos Ermida Consolação) lhe possa valer… para sua (e nossa) consolação.

*IV Vice-Rei da Índia, diplomata na corte de D. João II, de D. Manuel I e de D. João III.
Referido nos Lusíadas, Canto X, 52.

AC



Wednesday, April 01, 2015


poema solidário*

 
se morrer esta noite
acordo de manhãzinha
para ir ao funeral
dizer um poema solidário

solidário…
com os mortos em geral
e comigo em particular
que há pouco estou defunto.

meus camaradas mortos:
acabo de chegar
ao abrigo do silêncio e da solidão
onde a morte se contempla…

…ou se vive…

*com Herberto Helder Poeta Imortal

 AC

Saturday, October 19, 2013


 
 
 
 
 
 
 
 
O caso do submarino amarelo - continuação
 
 
 
De como chegou uma boa notícia ao “reino”

 

Uma chamada misteriosa

O senhor Vice PM Dantas Paulus ajeitara-se na nova e muito confortável cadeira de trabalho para dormir uma soneca, depois de um chato almoço de trabalho com dois cidadãos italianos de uma fábrica de torpedos, quando o seu chefe de gabinete lhe anunciou uma chamada do Funchal, mais propriamente das Ilhas Selvagens, anunciando a voz do outro lado do satélite ser o regente do arquipélago, Albe Jarbin, o que foi logo confirmado pela algazarra que se ouvia, ainda Sua Excelência não encostara o ouvido ao auricular.
O Vice PM ainda tentou safar-se mas o seu chefe de gabinete, com ar aterrorizado, recusou voltar a pegar no equipamento, saindo esbaforido pela porta de serviço.

«tá lá… tá lá… tá lá… atendem essa merda ou nam atendem…, estes tipos de Lesboa gostam de me fazer isperar pra mostrar que sam impertantes mas ê dou-lhes a impertância pelo rego do …ú acima…». Sua Excelência O Vice PM Dantas Paulus suou em bica, como se estivesse a orar num horto, e sendo devoto cristão perguntou a Deus Pai que pecado era o seu para ter que aturar um troglodita daquele calibre, que só diz asneiras e destila ódios. Depois, num gesto de coragem à antiga, pegou no telefone e disse: «fala o Vice PM Dantas Paulus…, faz o obséquio de dizer em que posso ser útil?».

«Fala quem?... Vice PM Dantas Paulus…, nam sei quem é…, Dantas só conheço o do “manifesto”… por sinal um bom palerma… como muitos cús há no contnente!» Sua Excelência teve que fazer um esforço sobre-humano para não se irritar com tanta boçalidade, habituado que estava a tractos delicados, punhos de renda…, até no chá das cinco habituara as tias do partido a falar sem aquele tique de subir o tom da voz no fim das frases.

Pensando ir ter algum êxito, ainda insistiu: «eu sou o novo Vice PM…, o número dois do governo…» e mais não disse porque do outro lado do satélite a voz berrante e descontrolada cortou-lhe o pio.

«Tira o cavalinho da chuva…, eu não falo com números dois…, chama aí o teu patrão… ó submarino!..., chama depressinha qu’eu já tou agarrado ao instrumento há muito tempo… e as sobretaxas pró contnente estão pelo olhos da cara… tûdo por vossa cûlpa… cambada de mafiosos e gatunos…».

Agora o Vice PM Dantas Paulus, estava vermelho que nem um pimentão, não contra atacou aquele autóctone das Ilhas Selvagens, pois o próprio selvagem (no sentido de natural dessas ilhas) lhe dera a deixa de apenas querer falar – se àqueles modos se podia chamar falar – com o Senhor PM Passos Perdido. E ainda bem… uf uf uf…  respirou de alívio Sua Excelência o Vice PM, que avançou de telefone em punho, em direcção ao gabinete do Senhor Presidente do Conselho.

Toc Toc Toc…, foram as três pancadinhas que o Vice Dantas Paulus bateu na porta do gabinete do PM, ao mesmo tempo que rodava a maçaneta e entrava.

«Entre Teresinha…, tenho que lhe ditar uma correspondência para a nossa chanceler, a tia  Merccel, sobre as tais swaps…, que nem eu, ainda, percebi bem o que são…, talvez seja conveniente passar esse assunto ao Dantas… ele que se desenrasque… e negocie com os troikanos». Ao completar o seu monólogo, enquanto remexia numa gaveta da secretária, procurou o vulto da sua chefe de gabinete mas deu de caras com o do seu Vice que entrara, como era seu hábito, sem ser pressentido. Assustou-se por demais, como se estivesse a ver um fantasma… que era a sério.

«Caramba Dantas…, entras sem bater…, sem fazer qualquer ruído… queres provocar-me um bac cardíaco?... Vinhas a correr ocupar o meu cadeirão… ou não te conhecesse de ginjeira». Aquele meio sorriso do seu Vice, que tanto irritava o Senhor PM, disse-lhe que estava a ser gozado à grande e à francesa por um tratante, ainda por cima instalado na sua residência oficial.

Pelo som agudo e oscilante – muito semelhante a uma transmissão de ondas curtas –  que saía do auricular do telefone que Dantas Paulus, de braço estendido, queria entregar ao PM, este mostrou-se desconfiado e perguntou: «mas que raio de cantilena é essa…, até parece que do lado de lá algum macaco se apoderou de um telemóvel?!».

«Sim meu senhor… é mais ou menos isso… o Albe Jarbin está na emissão e só quer falar contigo…, além de que pertence ao teu partido e não ao meu» – disse Dantas Paulus com ar de gozo, depositando o telemóvel nas mãos do PM.

O PM deu um salto no cadeirão, que com o impulso ficou cinco metros afastado da secretária, e de mãos postas suplicou ao seu Vice: «não… não por favor…, eu não posso falar com esse homem…, não quero falar com o homem…, fala tu com ele que tens jeito para urdir e tecer teias como uma aranha». Entretanto, no meio de interferências e ruídos estranhos ouviu-se uma frase nítida: «nam me digam qu’esse gajo nam tem tmates pra falar com o chefe máximo do Piéssedê (PSD) do arquipélago». E desligou…, pelo menos assim pareceu com o terminar dos ruídos estranhos.

Dantas Paulus ainda não tinha acabado de sair do  gabinete, quando Sua Excelência o PM o interpelou: «ó Dantas…, tens alguma boa notícia do Submarino Amarelo?... … ao fim e ao cabo tu já foste da Defesa… … e de submarinos percebes tu…».

A porta do gabinete de Sua Excelência o PM bateu com tal estrondo que se ouviu por toda a residência.

 

 

O Professor Merçalo investiga

 

 

A convite do Senhor DeBolikeime, o Professor Merçalo integrou a comitiva até às Ilhas Selvagens, pois ouvira contar a marinheiros da praia do Guinchôso que não havia surfondas como as das Selvagens. Poderia ser a sua oportunidade de surfar uma onda gigante, e ser catapultado para o Guiness, destronando o maluco da Nazaré. O que daria assunto para quarenta programas com a Judica Dezuza… , pois o Professor Merçalo tem essa arte de estar sempre a dizer a mesma coisa, gerando a convicção, em quem ouve, de que o assunto muda constantemente (o que é próprio de um sábio como ele).

Mas infelizmente nas Selvagens não há praias, não há ondas…, não há nada…, escrevendo com verdade, há um pássaro da família das cagarras..., apenas. E como este desgraçado animal ainda não tinha nome, foi apadrinhado pelo Senhor DeBolikeime, passando a chamar-se a cagarra portuguesa (sabemos que o bispo de Portugal também deu a sua bênção).

Depois da canseira de percorrer de lés a lés as ditas ilhas em procura das ditas ondas, o Professor Merçalo avistou ao longe um navio que se afastava cada vez mais e mais daquela terra cagarrosa, chegando à conclusão que perdera a fragata portuguesa, melhor dizendo, ficara despejado nas ilhas Selvagens.

Como homem inteligente que era e com grande poder de análise e prestidigitação, o Professor equacionou calmamente as três ajudas possíveis que podia ter:

-O Papa Francisco…, embora conhecesse o Merçalo da TVY como católico fervoroso e de bater com a mão no peito, estava fora de questão, pois Roma fica completamente fora de mão, e Sua Santidade anda assoberbado de trabalho com os escândalos da pedofilia e da corrupção no IOR (Instituto Ordem para Roubar), que lhe caíram em cima… … bom!

-O Senhor DeBolikeime, mais que certo responsável pelo seu despejo e preocupado com a União Nacional, estava a  caminho da Capital…, a fragata desaparecera há muito no horizonte marítimo…, e não volta para trás porque não há dinheiro para combustível… … cá me hei-de desenrascar… … bom!

-O Albe Jarbin, senhor absoluto do arquipélago… … bom!… bom!… bom!…, só de pensar que tinha de falar com tal personagem deu-lhe grande vontade de ir à casa de banho, em sentido figurado, e logo ali depositou uma pequena amostra do seu adubo biológico. Ainda estava naquela posição chamada de cócoras, quando sente escorregar do bolso o equipamento de que estava esquecido: o seu TELEMÓVELLLLLLL. O seu grito tarzânico ecoou pelos agrestes penhascos da ilha, ao mesmo tempo que o senhor Professor se estatelava sobre o seu detrito biológico. Muito mais importante que esse desagradável percalço, era ter na mão o telemóvel onde estava registado o número do Albe Jarbin e um satélite a bafejá-lo com rede máxima. Marcou os dígitos com algum tremelique… sentiu todas as pancadas do coração… a chamar!!!...  acelerou a respiração…

Atendeu: «alô… alô… como está o meu caro amigo?... é o Merçalo…».

 –Merçalo… Merçalo quê?... nam conheço nenhum Merçalo nas ilhas…, Rabelo?!?... o quê!!!... … o fala-barato da TVY… ó seu grandessíssimo filho da polícia…

«Ó senhor Doutor Jarbin…, aqueles ataques que às vezes lhe dirijo é tudo na brincadeira… para entreter o pagode… é preciso entreter o pagode para ajudar o rapaz do governo…».

 –Vai mas é entreter a p… da tua tia…, aconteceu-te uma desgraça?… deviam ter sido dez…, ah ah ah…, deixaram-te nas Selvagens… ó diabo tás bem f… pra nam seres espertinho…

«Peço a vossa boa vontade… … e que me envieis um barquinho de resgate e salvamento… está a pôr-se a noite e um frio do caraças». O Professor Merçalo captava um cheiro pestilento à sua volta mas o diálogo com o tal Jarbin embotava-lhe o raciocínio.

Chegara a hora de Albe Jarbin sacar o que tinha na manga: –aportaram aqui dois doidos varridos, num Submarino Amarelo, que andava em missão encriptada no Mar de Al-Kêva. Dizem que submergiram na fossa Barranquenha… por descuido do piloto automático… e emergiram aqui…, no mar do arquipélago… … de facto aqui os tenho. O Professor ouviu uma espécie de guinchos telefónicos que confirmou ser o Doutor Jarbin a rir às gargalhadas… e ainda o ouviu proclamar solenemente: –eles estão todos doidos…, … imaginem da fossa Barranquenha para o mar do arquipélago… …  ahahahahahahahahahahahahahahahahaha!!!

A seguir, com voz de grande seriedade, disse: –os do governo do contnente recusaram-se a falar comigo esta manhã…, quando lhes queria transmitir a notícia…

 

 

 

Epílogo

 

Que rica ideia…, mandar os dois heróis da descoberta do caminho marítimo para o arquipélago…, via fossa Barranquenha…, em vosso resgate e salvação… … ahahahahahahah!!!
Chama cá a Judica que fazemos o próximo programa no palácio do governo regional.

 

AC