Monday, September 02, 2013


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Seis tiros à socapa...

(um conto por AC)

 
 
O velho Sameiro, apesar da idade, era um homem alto e bem constituído e sempre o recordo de espingarda a tiracolo no meio das vinhas à sua guarda. Metia respeito e, confesso, qualquer tique e modo no seu olhar catapultavam-me para trás das calças ou saias de pessoa de confiança que estivesse por perto.
De Verão acontecia com frequência ir em passeio à vinha com a família.
Por vezes ele aparecia sem ser esperado, subitamente, e a sua “boa tarde patrão” cavernosa – as passeatas eram, invariavelmente, pela frescura dos fins de tarde – impelia-me a fugir rua da vinha abaixo, obrigando meu avô a esfalfar-se no meu encalço para conseguir deter-me antes do portão da propriedade, que já uma vez conseguira ultrapassar, indo perigosamente para a estrada.
Meditando hoje sobre o assunto, é óbvio que, então, a sua figura me era sinistra.
Dizia-se que não largava a espingarda de dia e de noite, dormindo mesmo com os dedos nos gatilhos da arma, ainda com receio de uma vingança decretada por ter matado um rapaz que fora, pela calada da noite, roubar uns cachos de uvas num dos sítios da sua jurisdição.
O ti Sameiro sustentou em tribunal ter-lhe parecido ver o rabo de uma raposa que lhe andava a devastar o galinheiro. E assim convenceu o juiz, que não o pai do desgraçado atingido por violenta chumbada que lhe sentenciou uma morte prematura, nunca justificada pelo desvio de uns reles bagos de uva, que não chegou sequer a saborear.
Esta história fazia muitos anos mas o velho guarda vinhas tinha como certo que as vinganças, quase sempre, passam de pais para filhos como um bem precioso da herança e, à cautela, não se separava do fuzil.
Ouvi uma vez alguém criticá-lo por nos receber, com despropósito, de arma a jeito: -o perigoso
instrumento ou é para caçar coelhos ou para estar em casa arrumado e fora do alcance de crianças. Ao que ele retorquiu, com a sua voz trovejante: -eu, por causa do dia de amanhã que não sei como virá e estando para aqui sozinho ao Deus dará, prefiro sentir o seu aconchego. E cá tenho os meus cuidados.
Esta conversa foi prenunciadora de um episódio que teve lugar ali pelos dias seguintes.
Um fim de tarde de Verão, ainda quente, fui numa dessas passeatas à vinha com meu avô.
As advertências, como de costume, sucederam-se em crescendo porque eu ia cinquenta metros à frente do irritado avô: -pára quieto, olha que cais, cuidado com os carros, ainda te aleijas... e por aí adiante.
Um lagarto, lagartão para o meu tamanho, cruzou a estrada, vertiginosamente, passando-me por cima das pontas dos dedos que assomavam nas sandálias, fazendo-me retroceder, assarapantado e aos gritos, para a mão segura e protectora que já não larguei. Assim chegámos à vinha.
Passada a entrada, já esquecido do susto pregado pelo réptil e contra mais meia dúzia de advertências, larguei em desenfreada correria na direcção do pequeno pinhal, plantado no termo da vinha, local muito do meu agrado para observar a passarada que ali tinha o hábito de pernoitar. No entanto, a meio da alameda que levava ao pinhal fiquei com os pés colados ao chão pela aparição assustadora do velho Sameiro que se postara à minha frente, cortando-me o caminho.
Sem saber o que fazer, olhei para trás a pedir socorro com expressão aflita desenhada no semblante, já que a língua me ficou presa ao céu-da-boca no único grito que consegui despedir. Três ou quatro pequenas gotas rolaram-me pelas pernas abaixo no preciso momento em que meu avô cumprimentava o guarda. Depois acalmei e fui espinoteando à volta dos dois homens que conversavam com entusiasmo, ignorando a minha presença.
Repentinamente os meus olhos fixaram a espingarda que já me cativara a atenção de miúdo curioso em outras idas à vinha.
–Seria ali, naquela espécie de paus com uma argola à volta, que se dariam os tiros?
A minha mão esquerda voou direita aos gatilhos e quase em simultâneo soaram dois estampidos, seguidos de grande algazarra provocada pelos gritos do velho Sameiro e de meu avô que, estatelados no chão, ainda não sabiam bem o que tinha acontecido.
O mesmo se passando comigo que fui submetido a alguns “maus tratos físicos”, depois de ter galgado o caminho de regresso a casa a uma distância bem medida de meu avô, proibido de voltar a pôr os pés na vinha, assim como de sair de casa nas horas habituais, beber pirolitos e ter acesso a livros da biblioteca itinerante que nos visitava uma vez por semana. E tudo isto até nova ordem.
Não voltei a saber do velho guarda até uma tarde que desejara ir com meu avô naquele passeio que tanto me agradava, agora anulado pelo severo castigo, e o vi chegar esbaforido a casa, encerrando-se, de imediato, com minha avó e minha mãe no escritório.
As frestas da velha porta permitiram-me observar e ouvir o ritmo e gravidade da conversa: -o ti Sameiro tinha aparecido morto junto à entrada da casa da vinha, de borco sobre um lago de sangue, com dois tiros no peito, dados pela sua própria arma.
Esta frase terrível, apanhada no meio de uma conversa com nervos à flor da pele, fez-me dar voltas ao miolo a imaginar todos os passos de um drama e visionar, num relampejo, o que teria acontecido nessa noite.
Assim…, já quase madrugada, o velho Sameiro fora acordado por um resmalhar insistente nas imediações da casa. Por dedução lógica pensara na raposa manhosa com o velho uso de lhe devastar o galinheiro, vício que os bichos desta espécie transmitem de geração em geração.
Teria mesmo dito, em surdina, para si: -a magana há-de pagá-las com dois tiros no lombo.
De trabuco em punho abrira sorrateiramente a porta de casa e, pé ante pé, fizera menção de se dirigir ao galinheiro, onde lhe parecera ver o rabo da raposa em plena orgia alimentar.
Mas nesse instante sentira-se preso pelo pescoço e pelo ventre, com tal força que não conseguia mexer-se. Depois, à sua frente, vira um vulto maior que o seu, que lhe imobilizara as mãos ao mesmo tempo que lhe arrancava a espingarda com violência.
José Sameiro ainda ouvira os estampidos dos dois tiros que lhe atingiam o peito.
A velha vingança fora cumprida.

 












Tuesday, August 13, 2013


 

O caso do submarino amarelo

 

 

De como Sua Excelência o Vice PM Dantas Paulus deu uma má notícia

AR, ano de 3013, 5ª feira, 23 de Feverónio

 

O senhor ministro de Estado e Vice PM Dantas Paulus foi chamado ao Parlatório para dar explicações à Câmara sobre o desaparecimento da jóia da armada: o submarino amarelo.
Sua Excelência apresentou-se aos deputados da Nação vestido de luto carregado, de ar consternado mas com muita coragem para enfrentar o drama.
Após os cumprimentos de protocolo, com vénias e sub-vénias, a Presidenta da AR decretou cinco minutos de silêncio, durante os quais os deputados do GR (grupo radical) aproveitaram para abandonar o hemi-círculo, pois «não estavam para aturar fantochadas», disse João Sem Medo aos órgãos da comunicação social.

 
«Srs. Deputados da Nação…, percebia-se na voz de Sua Excelência a comoção à flor da pele…,  cumpre-me informá-los da triste notícia que veio até nós do mar de Al-Kêva e que está a deixar desesperado o país…, umh umh umh…,  pigarreou o distinto personagem, enquanto se socorria de um lenço branco para aliviar o suor das frontes, da face e do queixo…, isto é, o ministério da guerra, o das finanças e o tribunal de contados.
O submarino amarelo está em parte incerta, ou não está, ou seja, desaparecido, não dando sinal de vida desde domingo passado…, temendo o governo que o pior cenário possa ter acontecido…
Como V. Exas. Todas sabem, o mar de Al-Kêva é um mar muito agitado, cheio de escolhos e engulhos, tornando a navegação por vezes problemática, com tempestuosidades de grau 9 na escala de Neptuno. Outros perigos por lá espreitam os marinheiros, mesmo de modernas e bem equipadas embarcações como o submarino amarelo…, estou a referir-me muito concretamente ao terrível e medonho monstro de Al-Kêva, também conhecido como monstro do Great Lake, ou monstro de Locsete, e à fossa Barranquenha com uma profundidade que reside no segredo dos deuses que habitam os fundos marinhos, onde qualquer navio que inadvertidamente se aproxime será sugado para nunca mais ser visto.
Com a embalagem que tomara a comunicação do Vice PM Dantas Paulus aos deputados da Nação, ele próprio deitara o olho para a bancada da oposição, questionando para si o estranho ambiente ledo e calmo com que parecia amansado o POR (partido da oposição republicana).
Eis senão quando, o chefe da bancada do dito partido interrompe Sua Excelência com um tremendo “murrásio” (vernáculo de pedir licença para interpelar alguém) na bancada propriamente dita de pau santo, o que desde logo assustou e interrompeu o douto orador, gritando a vivíssima voz: «o senhor Vice PM Dantas Paulus é um aldrabão compulsivo e descarado…, uma excrescência governativa…, o senhor esconde o submarino amarelo para as suas viagens de recreio e utiliza a mentira pérfida do seu afundamento como estratagema para enganar o país…». O senhor deputado Zorzinho estava à beira de uma apoplexia com o alarido que despoletara no Parlatório, ao ponto de a senhora Presidenta o admoestar sobre a linguagem que utilizara para se dirigir ao senhor ministro de Estado e Vice PM Dantas Paulus – «vosssa sssenhoria ressspeite a sssua cassa».
No éter fez-se silêncio…, um silêncio com cheiro a guerrilhas intestinas…, a negociatas chorudas e a CONTRAPARTIDAS pagas pelo Zé povo.
Sua Excelência também precisara daqueles minutos em que fora zurzido pelo deputado Zorzinho para pigarrear de novo, beber dois goles de água com sumo de limão, que lhe cortava o mau hálito do tabaco, e ainda limpar as frontes,  face e queixo com o lencinho branco.
«umh umh umh… O submersível…, continuou com voz de falsete…, era comandado pelo mais alto posto do nosso almirantado, o almirante de mar e guerra Vítor Caspar, profissional com as máximas condecorações do Estado e seu imediato comodoro Álvaro Santinho Parreira, ambos abnegados patriotas. Muito mais do que a perda do sofisticado material em causa, são estes dois camaradas o cerne da nossa preocupação…, não sei mesmo se a Nação suportará a sua perda… embora ainda espere, a todo o momento, uma boa notícia… a esperança, em mim, será a última a morrer.
O deputado Zorzinho não se conteve e balbuciou para o deputado Segura: «tu olha-me bem para este patife… já não o posso ouvir… ainda hoje lhe parto os costados».
Calma homem… no stress… se ele perdeu o submarino amarelo, com aqueles dois pacóvios lá dentro, amanhã também perde as eleições, isso  te (a)Seguro eu… ou não me chame Segura.
Zorzinho abanou a cabeça três vezes e suspirou meia dúzia de palavras que só ele ouviu: contigo também não há pachorra… meu…

 

 AC

(a má notícia tem seguimento com a boa notícia, isto se o Oráculo não for torpedeado e afundado em doca seca, como já esteve mais longe de acontecer).

 


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

DE COMO O BISPO DE PORTUGAL AJUDOU NA CONTENÇÃO DOS TRÊS ESTANDARTES

 
O Senhor Presidente é um homem de muita fé. Só assim se explica porque impôs um acordo aos três Estandartes.

 
Anoitecera com uma trovoada medonha que fustigava, principalmente, a zona do palácio episcopal e D. Emanuel refugiara-se na sua capela privada, pois nessa noite sentia-se mais seguro perto do Senhor.
Ainda assim, o ferrolho da grande porta de madeira exótica fora accionado várias vezes, denotando pressa, ou ansiedade, ou aflição, de quem batera. Pudera, com uma noite como a que se desenvolvia, mais parecia andar o diabo à solta e, quem quer que fosse, estaria completamente encharcado.
D. Emanuel foi interrompido nas suas orações, para que a tormenta se fosse dali tão rápida quanto tinha vindo, pelo seu chefe de sacristia (o equivalente a chefe de gabinete de suas excelências os membros do Estado).
-Sua eminência dá-me licença que interrompa as suas orações… …apre que esta caiu no nosso pára-raios, apressou-se a dizer o chefe de sacristia, ao mesmo tempo que todo o edifício vibrava com o estrondo.
«Ó Salvador… há quantos dias cheguei a esta casa?».
Salvador fez aquela cara de menino apanhado a mexer nos chocolates: -pois é…, sua eminência…
«Deixe de me chamar sua eminência de uma vez por todas…, nas cerimónias litúrgicas e oficiais que seja… mas aqui dentro não… aqui dentro sou Emanuel…, entendeu de vez?!
-Entendi sim… …sua eminência…
«OK…, e o que há a esta hora da noite?…, o dia foi calmo e pacífico…, tirando aquela notícia dos juros a galoparem outras vez, enquanto os trastes brincam à política», perguntou D. Emanuel, denotando enfado e saturação com a casmurrice de Salvador, cónego e seu chefe de sacristia no episcopado.
-Chegou um correio do palácio do Senhor DeBolikeime, com uma mensagem urgente para sua eminênc… …para o Senhor D. Emanuel.
«Dê cá Salvador… … e pode retirar-se… boa noite».
Salvador, um coscuvilheiro nato, como há em todas as instituições…, até na Igreja Católica… … imaginem…, moveu-se em passo de caracol, não tirando os olhos de cima do envelope que entregara a D. Emanuel, na esperança deste o abrir e ele conseguir bispar alguma letra…, uma frase…, que lhe desse uma pista, um elo, para deduzir todo o conteúdo da missiva.
Assim vendia notícias esfrangalhadas o cónego Salvador, um amante de bens imóveis… e do vil metal… …sobretudo, gerando por vezes grande confusão nos media, com a desinformação que enviava para os mesmos umas horas depois.
Mas D. Emanuel não lhe deu chance e repetiu com acento tónico: «boa noite… … Salvador!».

 
A Mensagem

 Assim rezava a mensagem

Sabe-me sua Eminência  profundo cristão, assim como minha mulher Maria DeBolikeime, que muito apreciou a vossa nomeação e vinda para a capital…, em boa hora…, espero ter em vós um conselheiro e aliado fora dos canais políticos.
As trapalhices que o meu governo arranjou nas últimas semanas tiram-me o sono, passo o dia com enxaquecas só de pensar que tenho de continuar a receber o chefe do partido do Centro Social, D. Paulus, discípulo de Maquiavel…, bem pode sua Eminência ajuizar o sofrimento que me atinge o espírito…, isto é…, a alma, ao reunir e estar cara a cara com uma erva daninha.
D. Emanuel ia pensando, para si: «mas o que é que eu tenho a ver com as enxaquecas deste gajo…, … e porque não correu já com essa tropa fandanga…».
Continuava a mensagem: quanto ao mais, diz o ditado, um mal nunca vem só, e acontece que dois aviões de guerra de país desconhecido, sobrevoaram em voos rasantes as Selvagens, ilhas nossas muito amadas, onde me vou imediatamente deslocar, para morrer, caso seja necessário, pela integridade do território nacional e protecção das cagarras. Minha esposa, mulher valente que é, deve acompanhar-me…, como sempre faz para todo o lado onde vou.
Peço, pois, a sua Eminência que me receba ainda esta madrugada tempestuosa…, a partida da missão é muito cedo…, para me ungir com o sacramento da extrema-unção, assim como à restante comitiva, toda ela composta por fervorosos cristãos.
Pedindo a vossa douta atenção, e abnegado patriotismo, ainda ouso ocupar a ilustre e bem pensante cabeça de sua Eminência com outro grave problema que tenho entre mãos e para o qual peço a inestimável ajuda do episcopado, dado que não confio em mais ninguém, que não em sua Eminência. Decorrem as Tercerias da capital entre os estandartes da S. Caetano à Lapa, do Caldas e  do Rato.
«Tercerias…, onde é que eu já ouvi isto» – comentou para si D. Emanuel
Estando o nosso país como está, mais para lá do que para cá…, os rapazes do meu governo andam a brincar ao gato e ao rato, enquanto o povo vai passando ainda mais fome por causa da insensatez e intriga das demissões e das irrevogáveis folhas de papel “à quatro”.
Consegui juntá-los, nessas Tercerias, com os do Largo do Rato, o que eu julgava missão impossível. Mas já percebi que é mais do mesmo, andando todos a ver quem mais engana os seus contrários.
Sobretudo…, deve sua Eminência ter muito cuidado com esse tal D. Paulus que ao pequeno-almoço afirma não gostar de queijo e ao jantar bate meio quilo do Limiano.
D. Emanuel deu uma sonora gargalhada e disse – «chamem-lhe parvo…, só gosta do que é bom!».

 

Epílogo

De manhã veio a bonança e o cónego Salvador ainda tentou tirar nabos da púcara, enquanto tomava o café matinal com D. Emanuel, que lhe respondeu: «senhor cónego…, temos que acertar as contas dos bancos do episcopado…, porque a mim não me batem certas».

AC


 

 
 
De Como O Senhor DeBolikeime Enfrentou Os Três Estandartes

 

 

 
 
 
 
 
 
Quem vai à guerra dá e leva. Tem que ter em conta o ditado quem se mete nelas. Pensar que o adversário tem esquemas tácticos melhores que os nossos…, que as suas armas são mais sofisticadas…, ajuda-nos a pensar em mil e uma maneiras de ultrapassar os seus pontos fortes, descortinando também alguns pontos fracos…, para o levar de vencida.
Se ao contrário procedermos, descurando o opositor que temos pela frente, é avisado tomarmos a extrema-unção (só para os casos em que se é bom cristão) e deixar em ordem as disposições legais, antes de se iniciar a luta.

 
No Palácio está reunido o staff do Senhor DeBolikeime, quer os homens da casa civil, quer os da casa militar, sob a coordenação do chanceler Nuno Libertino.
«A hora é de grande constrangimento, abnegação e patriotismo, pois nunca antes o país esteve tão perto de perder a sua independência, pela mão de um traidor, um vendilhão da Pátria aos interesses dos Merkados…, esse tal D. Paulus». Assim se dirigiu aos seus homens o Senhor DeBolikeime.
E continuou:
«Na grave crise de 1385 foi fácil: cortaram-se as goelas ao Andeiro e a seguir, em Aljubarrota, desbaratou-se o exército de D. João de Castela e queimaram-se os castelhanos apanhados na fuga.
Em 1640 foi o que se viu: fartos da Filipoika, defenestrámos num ápice o Vasconcellos e com porrada da grossa acompanhámos os espanhóis até à fronteira.
Os franceses também tentaram uma françoika  por três vezes e por três vezes regressaram a Paris de França com os fundilhos das calças rasgados por cães raivosos.
Depois têm-se sucedido: vigaristas, vadios, e também jacobinos…,  e cristãos novos…, e cristãos velhos, todos se digladiando num triste espectáculo de se ver quem mais fazia cogulo… enfim… …uns corridos…, outros foragidos…, e apenas um preso – um tal Cesaltino E Morais…, lembram-se…, foi precisa uma grua para o pôr atrás das grades. E…, infelizmente…, gente da nossa…
Mas hoje esse tal D. Paulus, paladino do embuste e da maquiavelice, foi longe de mais ao rebaixar-me diante do país inteiro… e essa não lhe vou perdoar!».
Sua Excelência estava consumido, encharcando lenços e lenços que sua bondosa esposa ia passando ora pelas frontes, ora pelo rosto, ora pelas mãos, para manter o amado esposo confortável.
O seu olhar, encovado pela afronta, procurou o do seu Chanceler: «então diga-me, meu Chanceler, que planos temos para castigar o atrevimento…, atrevimento é pouco…, a traição…, que é o que é…, desse tal D. Paulus?».
O Chanceler do Estado era um homem atarracado (sem pescoço, baixo e largo) e estava mortinho por deitar a mão a D. Paulus para um ajuste de contas que se vinham somando desde os tempos do “Incandescente”, um pasquim de intriga, coscuvilhice e maledicência, que ardera de motu próprio mas que deixara feridas profundas por sarar.
-Assim é Senhor… – respondeu Nuno Libertino – temos…, à cautela com a raposa manhosa, três planos para “suspender” a D. Paulus, a saber: a cavalaria para o esmagar…, os arqueiros para o crivar… e os lanceiros para o trespassar… – o Chanceler marcou cada palavra com um tom de entusiasmado ódio. E dando risadas de hiena com fome de há três quinze dias, rematou – é o que chamam, em linguagem popularucha, “um três em um”.
«Nada disso homem…, nada disso…; o que diria o país inteiro se esquartejássemos a peça…, até o Segurra ia caminho do Caldas chorar lágrimas de crocodilo. Nada disso…, nada disso…» voltou a repetir Sua Excelência já exasperado, dando um valente murro na “mesa redonda” onde estava reunido o estado maior da tropa presidencial.
«Vamos apanhá-lo de ceroilas na mão…, vesti-lo de cima abaixo de um vexame dos grandes…, que dele se há-de lembrar até depois de morto… – ao olhar do Senhor DeBoliKeime assomou um breve sorriso maléfico – … ó Nuno…, foi esse “passarão”…, esse Judas Iscariotes…, que entregou o caso do Elvas aos media, apenas por despeito e ciumeira doentia…, porque era o outro que coordenava a “pasta” política do governo..., como você sabe o nosso PM sem o Elvas é como peixe sem água…  Isto que lhe estou a dizer está debaixo de grande sigilo…, para não agitar mais o mar…, pois a tempestade pode provocar mais náufragos». Sua Excelência falava em surdina, pois, tempos atrás, os seus apertados serviços de segurança (SS) tinham descoberto microfones de escuta em pontos estratégicos do Palácio. «Não é que eu concorde com essas licenciaturas meteoríticas em que alguns dos nossos se montaram…, mas há limites da decência e camaradagem governativa que não devem ser ultrapassados. Concorda comigo…, não concorda… óóó Nuno Libertino!?». Fez-se um breve e profundo silêncio entre Sua Excelência e o seu Chanceler do Estado que valeu mais do que mil palavras ditas a fio durante uma hora.
Depois Nuno Libertino disse: – com certeza Senhor…, certamente Senhor…, que concordo.
«Então se concorda preste bem atenção… porque vamos obrigá-lo a permanecer no governo e a ter que gramar a estucha do Segurra na coligação…, nem que seja no papel de Homem Invisível… ahahahahahahahah!!!
Jamais alguém, naquele palácio, tinha ouvido Sua Excelência rir com tamanha vontade.

 

AC   

(leia o próximo capítulo: De Como O Bispo DE Portugal Ajudou na Contenção Dos Três Estandartes)

Thursday, July 11, 2013





D. Emanuel Terceiro O InClemente

 

Não caro leitor…, não se trata de um rei – como sabe a monarquia deu o estouro com o D. Manuel Segundo – mas do recém-nomeado patriarca de Lisboa. Veio do Porto, o que me deixa alguma perplexidade, este “cara de pão sem sal”, mais bem arreado que o Papa Francisco, bem falante e mania de sabichão.
Hoje fez a primeira predica, já encadeirado, tendo na assistência Os Silvas DeBolikeime, Sua Excelência o PM Pedro Perdido e o chefe do partido Do Centro Social, D. Paulus, por ora sem título ou emprego previsível – ouve-se por aí que está vice PM.
D. Manuel ainda se paramentava quando foi avisado da presença dos três mestres do bas-fond politique, o que lhe deu a vantagem de telefonar para o Santo Pai pedindo aconselhamento teológico para o sermão inaugural.
«Xegalhes una paliza das grandes porqué eles la necessitan» – assim falou Francisco Sólo – «e mis disculpas por la confusión de lenguaje…, como he dito a Barroso, el portugués és un castellano mal hablado… e quizás pior escrito»… bzbzbzbzbzbz…
-Tá lá… tá lá… tá lá – D. Manuel queria mais conversa mas Francisco ficara com os créditos a zero – mais tarde ligo para a casa de Santa Marta para informar o Santo Pai de como correu o meu primeiro sermão aos “gentios”. E quanto ao português…, tenho que dar umas lições a este “Papa Açorda” das línguas.
-Olha que três…, olha que três… da vida airada, Cócó, Ranhito e Facada, pensou para si D. Manuel, en passant, dirigindo um abrangente sorriso à Senhora Silva DeBolikeime que retribuiu o gesto ao bispo com uma elegante genuflexão.
E de imediato ouviu uma reprimenda do esposo: «Nós primeiro que vós!?!...», isto é…, os altos dignatários do Estado só ajoelham perante DeusNossoSenhorJesusCristo…, nunca perante um badameco, acabadinho de chegar da terra dos bimbos».
D. Paulus, ouvindo sem querer o correctivo oral, não conteve uma sonora gargalhada que localizou sobre si os olhinhos indiscretos dos circundantes. E ao confrontar-se com o olhar sisudo do Senhor Silva DeBolikeime, estendeu as mãos na sua direcção com os dois polegares up, no que foi traduzido por uma daquelas frases tão ao gosto dos portugueses, nomeadamente os de DeBolikeime: «fixe meu…, estou contigo meu…, porrada neles meu… etc., etc., etc».
O Senhor Silva DeBolikeime disse qualquer coisa entre dentes que nenhum dos circundantes ouviu mas que um agente dos serviços secretos, colocado no alto do pináculo de uma nave, cometeu a proeza, e imprudência, de ler: «goza, goza meu sacripanta…, troca-tintas…, ainda antes do bater da meia-noite vou mandar-te picar em carne para spaghetti à bolonhesa e distribuir pela sopa dos mendigos».
Pedro Perdido, que estava absorto com a pose, postura e posição (???) do bispo de Portugal, não deu pelas frases entrecortadas…, nem pelos olhares circunspectos…, nem pelo ar embevecido da Senhora DeBolikeime osculando o seu marido…, isto é…, não deu por nada.

 

 

O Sermão propriamente dito

 

Vou começar esta minha primeira homilia, como vosso bispo, abençoando a todos os presentes: «In Nomine Patris Et Filii Et Spiritu Sancti».

A assembleia, em uníssono, respondeu um «Amen», que foi seguido de uma prolongada ovação de palmas e vivas. O entusiasmo da Senhora DeBolikeime era exuberante, pois deu por certo que tamanha ovação só poderia ser para “o meu marido”, palavras que ela soletra com muito cuidado – para não lhe sair “o mê maride”, como dizem as algarvias.
Sem ninguém estar à espera, D. Manuel soprou no microfone e comunicou: «chega minha gente…, isto não é nenhum comício…».
Logo os três da vida airada se perscrutaram mutuamente, com ar de desaprovação mas mantiveram a língua no saco.

«Caríssimas irmãs e caríssimos irmãos,
Estão difíceis os tempos que correm para os portugueses…, muito mais para muitos, por comparação com meia dúzia dos que disfrutam de uma riqueza, por vezes, escandalosa, direi mesmo pecaminosa, aos olhos do Senhor. Isto para não empregar palavras mais acutilantes que possam ferir a susceptibilidade de quem quer que seja.
Como todos sabeis, irmãos, vim do Porto ainda não há quinze dias…, e ao que me é dado assistir nesta cidade de Lisboa? Uma trama sórdida entre politiqueiros…, sim…, repito…, politiqueiros e manhosos, que, para o seu bem e vaidade pessoais, esquecem o bem do povo e atiram com o país para a sarjeta.
D. Manuel não se conteve…, enquanto predicava as últimas frases apontava, sem qualquer equívoco, na direcção dos senhores membros do Estado.
O casal DeBolikeime entrecruzou esgares de afronta, aliviando um pouco os colarinhos engomados, pelo forte calor que se começara a sentir.
De D. Paulus nem a sombra. Ausentara-se, adivinhando o conteúdo literário da homilia, para se encontrar, ali bem perto, com um desconhecido, encarregue da preparação da próxima golpada.
Assunção Estevas, mulher descarnada e sem qualquer sentido de humor, presidenta da AN, que até então passara despercebida, disse para o PM que se encontrava a seu lado: «ressspeitai a vosssa cazza!!!».
Ao que Pedro Perdido, a rezar Pai Nossos e Avé Marias, sem fim, pelo êxito do governo no cumprimento do deficit, respondeu perguntando: «mas qual casa…, mas qual casa?…, se for a minha é em Massamá de Cima».

 

AC   

Thursday, August 02, 2012




















O Bispo Negro

Caro leitor, o título desta crónica certamente o fez pensar em Dom Çoleima, cónego negro que Dom Afonso Henriques repescou à última hora, entre os cónegos da Sé de Coimbra, para fazer dele bispo e substituir a Dom Bernardo, o anterior, que fugira da ira do Príncipe, a propósito do anúncio de uma excomunhão papal. Tendo como opções a aceitação da mitra ou a da espada, Dom Çoleima escolheu, obviamente, a primeira (O Bispo Negro – Alexandre Herculano).
Pois dos fracos não reza a História…, …e aqui a história é outra.

Dom Santuário, homem sóbrio e discreto, como mandava a sua condição de eclesiástico, regressava a casa já noite cerrada, após uma vigília de rotina por outra paróquia, não suspeitando que dois matulões, a mando, lhe faziam uma espera, emboscados pela penumbra daquela noite de  lua nova. E foi quando abriu a cancela do pequeno jardim fronteiro à casa, ao ouvir passos apressados em aproximação, então percebeu que estava a ser vítima de um cobarde e diabólico ataque. Nada que Dom Santuário não tivesse já conjeturado para si, pois uma manobrável moca saída debaixo da capa que o protegia do frio, associada aos seus conhecimentos e prática de artes marciais, puseram em fuga os dois tratantes que, vindos ao que vinham, foram aviados com uma tareia à antiga portuguesa.
Conseguindo arrancar a carapuça ao que deu primeiro o corpo ao manifesto, levando uma bem puxada mocada que lhe abriu a testa a meio, nele reconheceu um lacaio do senhor ministro da guerra, P.  Aviar-Branquinho, que desde há algum tempo dirigia a sua intervenção nos media para atacar a prelatura castrense, descontente que andava com os sermões de Dom Santuário, a quem alcunhara de “bispo vermelho”.
O senhor capelão mor das forças armadas não se deixava conter pela hierarquia a que estava subordinado, aproveitando as homilias ou palestras militares para zurzir num governo…, ou desgoverno…, – acentuava ele – de corruptios e diabinhos negros.
O senhor ministro da guerra ficara com todos os cabelos em pé, e se tem muitos a sua farta cabeleira grisalha, ao ouvir as palavras agressivas…, ofensivas…, subversivas…, conspirativas…, explosivas…, do que era também general major das FA, estando assim sob a alçada do ministério.
Para Roma seguiu uma carta por correio diplomático, entregue em mão na Nunciatura Apostólica por Dom Paulus, MNE, sublinhando que todo o governo estava uno na condenação das diatribes desconchavadas do bispo que o senhor ministro dos NE considerava mais negro que vermelho: bastava apreciar-lhe o perfil…, de tez morenaça, olhinhos penetrantes e nariz arrebitado, para lhe vestir a pele de personagem em vías de ser esturricado no “fogo do inferno”. Dom Paulus manteve a sua pose solene de estadista enquanto dissecava o assunto com o senhor Núncio: “muito apreciaria o governo ouvir uma reprimenda sobre a desnorteada…, para não ser mais duro no verbo…, cabeça mitrada”. Sua eminência, como é usual, mostrou-se de muita compreensão e prometeu resposta rápida na próxima mala diplomática.

O Santo Pai tomara conhecimento nessa manhã dos desacatos linguísticos dirigidos ao governo pelo bispo das FA. E não ficara nada agradado com o conteúdo do correio diplomático. Um qualquer pastor de almas não devia intrometer-se nos desígnios e matérias reservadas à organização política laica, fosse em que terra ou país fosse. “A Deus o que é de Deus e aos homens o que é dos homens”, assim estava gravado nas escrituras sagradas desde sempre. E “desde sempre” tem muito peso porque é matéria de fé… …e matéria de fé é matéria de fé… … não há volta a dar-lhe…
Depois de consultada a comissão para a doutrina e matérias de fé, vulgo comissão inquisitorial de inquérito, o Santo Pai decidiu ouvir telefonicamente o seu bispo desordeiro, dando-lhe o sagrado direito de defesa, muito respeitado na Instituição Universal.
Em casa de Dom Santuário  o trim trim do telefone repetiu-se sonoramente até ser atendido pela zelosa mulher a dias do prelado.

-Estou sim…, está lá…, estou sim…, …é do aroma?!

«Não senhora… …daqui é de Roma… é o Santo Pai… quero falar com o meu filho Santuário». Dona Bertita ficou em pânico ao ouvir a voz esganiçada que estava ao telefone: -Jesus…, …credo…, o pai do D. Santuário já está a fazer tijolo há muitos anos!!!... … e o patrão está no jacusi…

«Pois chama ele por favor… minha filha…», insistiu a voz esganiçada.

-AhAhAh… agora também sou filha?! – a mal humorada Bertita não esteve para mais conversas e deu o recado ao bispo, que adormecera no conforto do jacusi: -Dom Santuário…, está ali um tipo ao telefone que diz que é seu pai… …e meu também… …vá lá que eu não o entendo!

Um Dom Santuário resmungão saiu da casa de banho em roupão turco, indo atender o telefone num pequeno compartimento que existia junto à sala da casa, e servia para o efeito: -tá lá…, tá lá…, ó amigo… podia ter telefonado mais tarde para não me interromper o jacusi!

«Ó meu filho… …é o Santo Pai que está no telefono… …Deus te abençoe… …in nomine Patris et filii et spiritu sancti…» – Dom Santuário reconhece de imediato a voz esganiçada e cai de joelhos, persignando-se ao mesmo tempo que recebia a santa bênção.

-Ó meu Santo Paizinho desculpai o atrevimento pelo modo brusco com que atendi o telefono… é que a Ilda…, a governanta cá da casa…, é estúpida que nem uma porta e não consegue dar um recadinho direito – o bispo mantinha-se de joelhos, batendo com a mão no peito, estava emocionado com a bênção daquele santo telefonema.

«Podes levantar-te meu filho, para falarmos de homem para homem». A voz esganiçada vinha agora com entoação de severidade que alarmou D. Santuário.

-Mas como soube o meu Santo Paizinho que eu estava de joelhos? – perguntou ainda mais alarmado o bispo.

«Ora, ora… meu filius, então já esqueceste que sou o representante de Deus na Terra?! Pois Deus sabe tudo…».

-Isso é verdade…, se o meu Santo Paizinho sabe mesmo tudo… tudo…, esta semana podíamos jogar no euromilhões e dividíamos a meias… … sempre são 189$ milhas dele! Os olhinhos do vigário castrense exprimiam uma espécie de êxtase, enquanto anunciava o numerário.

«Ó meu pobre filius que andas transviado do rebanho do Senhor…, …percebo agora que trocaste o amor a Deus pelo amor ao vil metal. Jesu escorraçou os vendilhões do Templo e tu estás a escorraçar Deus do teu coração!».

-Não…, não meu Santo Paizinho…, tenho apenas um pequeno pé de meia para a velhice…, um seguro de saúde para Tranquilidade minha – respondeu pronto Dom Santuário, logo interiorizando que o Santo Paizinho “sabe tudo e mais alguma coisa”.

«E também recordo meu filius que nos últimos anos não tens contribuído, que fosse com uma moedinha de ouro, para a nossa sagrada Instituição!!!».

Respondeu Dom Santuário, arregalando os penetrantes olhinhos: -é a crise meu Santo Paizinho…, é a crise…

«OhOh…, as crises são um bom momento de reflexão…, …podemos considerá-las uma dádiva do Senhor que nos indica o caminho a seguir».

Dom Santuário, tapando o bucal do telefone, comentou para o lado: -este gajo tem resposta para tudo…, estou lixado…, não consigo dar-lhe a volta…, é pior que o Aviar-Branquinho e o Dom Paulus juntos.

E nem a propósito…

«Meu filius…, recebi na Santa Instituição Universal… a Dom Paulus…, com queixas relativas ao teu mau comportamento…,  te serves da mitra para ofender o governo do país».

-AhAh meu Santo Paizinho…, desconfiai desses tipos, que são falsos cristãos…, …intriguistas… …manipuladores políticos…, esses conheço eu de ginjeira…, …querem roubar aos pobres para dar aos ricos!!!

«Filius…, são eles que te pagam o pré…, …tem tento na língua…, porque se ficas sem emprego, a Santa Instituição, falida como está, não te pode dar mesada».

-Homessa…, peço perdão meu Santo Paizinho…, por essa é que eu não estava à espera…, a Instituição Universal falida?! Quer dizer que a minha reformazinha, com complementos, diuturnidades e serviços de desgaste rápido… … népias!!! E o que fizeram a tanta massa… …macarrão… …massa de cotovelo… …enfim, toda a gente sabe que havia massa por todos os lados, pois a recolha tem sido global…, …até  foi a InstituiçãoUniversal que inventou a globalização… …ou não foi?!
Dom Santuário teve uma brutal descarga de adrenalina, mas ainda ouviu o Santo Pai responder: «é a crise… ….é a crise  meu filius…,  tu o dizes!.. ».

Entretanto, depois de findo o telefonema vindo de longe, e que deixou Dom Santuário, se não perplexo, pelo menos pensativo, tocou a rebate a sineta da casa, anunciando a chegada do senhor ministro da guerra em pessoa, Aviar-Branquinho.
Dom Santuário ainda estava nos preparativos da sua higiene matinal, quando lhe foi anunciado o visitante, ora que estava introduzido na sala das visitas pela governanta Bertita. O prelado enfatizou do outro lado da porta das águas-limpas: - Bertita…, ofereça-lhe um copo da Casa do Mouro…, pode ser que lhe faça mal aos intestinos (tal era o apreço que Dom Santuário tinha pelo senhor ministro).
E assim, Bertita, que já se tinha arriado a preceito com a farda domingueira, foi com a bandeja de prata da casa oferecer um copo do tal vinho da Casa do Mouro ao senhor ministro da guerra. Este, só de ver o líquido purpúreo ficou mal disposto e recusou a oferta, cogitando para si: «o padreca quer ver se caio na esparrela…, isto é…, envenenado».
Depois de uma seca de espera no sofá, já dormitando o senhor ministro da guerra, Dom Santuário entra “triunfante” na sala.
-Como está o meu caríssimo amigo do coração, senhor ministro! E logo sua excelência, que saltara do sofá com o susto, foi abençoado pelo bispo, que era matreiro como a raposa e rápido de pensamento como o raio. E continuou, sem dar tréguas: -a que devo a honra desta visita matinal de vossa senhoria?
O ministro ia abrir a boca mas o prelado não lhe deu, novamente, hipótese: -nada pior que os media para criar factos que não existem e arranjar a confusão quando tudo é límpido e transparente. Refiro-me a umas declarações minhas, em entrevista televisiva, que muito incomodaram o senhor ministro, e o governo em geral, como me foi dada nota, posteriormente, pelo nosso Santo Pai.
Finalmente Aviar-Branquinho conseguiu abrir a boca: «Sim…Sim… estamos todos muito incomodados e consternados pela incompreensão de um membro do alto clero da Instituição Universal e também das nossas FA… senhor bispo em general major…, … as suas declarações, que me escuso repetir, puseram o governo em pé  de guerra».
D. Santuário não deixou escapar a ocasião para espetar mais uma farpa no senhor ministro: -ora aí tem uma excelente ocasião para testar os novos submarinos Tripente e Arcona… … vossa excelência aproveite o “pé de guerra” e veja o lado positivo das coisas…
O ministro salivava abundantemente e deitava gafanhotos, como se fossem projeteis contra o bispo das FA, que, em defesa, já se tinha afastado convenientemente.
Por alguma razão os prelados estudam com empenho os clássicos, o latim, a dialética e a filosofia. Dom Santuário sabe que, nestes casos, a arma mortífera é interromper o adversário…, não o deixar prosseguir o raciocínio lógico.
-Quer dizer que o senhor ministro não percebeu que as minhas palavras foram interpretadas fora do contexto…, e quando se interpretam palavras fora do contexto gera-se uma confusão dos demónios!
O ministro estava embasbacado e Dom Santuário ofereceu mais um copo do tal vinho da Casa do Mouro, com brinde: -à saúde do ministério…, do governo em geral…, e da prelatura castrense em particular.
O certo é que este copo o senhor ministro bebeu de um só gole, mostrando um facies de amargura que deixou Dom Santuário preocupado. E saiu porta fora.
Da janela fronteira à rua, o bispo pôde observar o senhor ministro da guerra, junto ao seu automóvel, a meter os dedos na boca para vomitar.
Com um sorriso de orelha a orelha, Dom Santuário comentou a cena: -governo de corruptios, diabinhos negros… …e enjoados… ou antes, enjoativos!


AC (a continuar conforme as cenas dos próximos capítulos)

 

Sunday, July 22, 2012

















No Pico da Fama – Col du Tourmalet



Como o mundo é pequeno! Até na volta à França o Dr. Elvas tem admiradores que aproveitam o calvário dos ciclistas para lhe manifestarem o seu apreço e apoio (ao Dr. Elvas). Também eu não pude deixar de lhe  dedicar estas  breves linhas, emocionado que sou com a diáspora lusa em terras gaulesas.

Foi um alvoroço aquela manhã no palácio de S. Bendito, com a chamada telefónica vinda do palácio de Bérrém, traduzida pelo assessor de línguas estrangeiras ou estrangeiradas, já que em S. Bendito está em uso o português do acordo Luso Brasileiro e em Bérrém o costume ainda é o português sem acordo ou seja, como dizem alguns gozões da nossa praça literária, macarrónico.
De Bérrém estava em linha o assessor do Presidente Cavaquinho, Nuno Libertino, que insistia em falar com sua excelência o Senhor PM Dr. Passos Perdido, que não se encontrava na residência oficial, repetia o assessor para os assuntos com a Presidência.
-«Nada para fazer???... …bela vida a vossa!!!... … e a economia?..., bem!... com o trapalhão do “Ovo Estrelado” é realmente difícil desemperrá-la…; e as finanças…, daí são só más notícias dadas em onda lenta pelo Vigor Gasparão…».
-Ó Nuno…, o patrão anda por  aí a cumprir agenda…, já que não há mais nada para fazer…
-Mas ó Libertino…,  tens que concordar que o vosso patrão tem arranjado boas trapalhadas… …como assim?... …olha, a da reforma miserável que recebe… parece não dar para pagar os vestidos da dona 1ª dama na Fátima Flopes… e a intriga das escutas aí em Bérrém, um desajustado fait divers com alcance eleitoralista… e mais umas quantas mesquinhices só de manga de alpaca…
Assim ia animada a conversa entre os dois assessores quando foi anunciada a chegada, ao palácio de S. Bendito, do senhor ministro de Estado nº 1 Dr. Gabriel Elvas.
-Bem…, não disse Bérrém…, disse bem!..., chegou o nosso 2º patrão que entrou pela porta do padeiro para não ser apanhado pelos jornalistas…, …emagreceu dez quilos nestes poucos dias e anda num frenesim que não sabemos quando vai ter fim.  Queres falar com ele? – perguntou o assessor de S. Bendito, com uma vozinha que levava o timbre de puro gozo.
«Nãooooo…, nãoooooo…, esse é o nosso grande problema… todas as conversas aqui vão bater no mesmo… é dia e noite: o curriculum vitae do Dr. Elvas…, o curso do Dr. Elvas…, a maldita Lusófila que não devia existir…, …pois com as “outras duas” foi o que foi, nada disto aconteceria…, uma vergonha…, uma vergonha…, grita a professora Cavaquinho pelos corredores do palácio…, já não suporto mais ouvi-la».
-Sendo assim…, Nuno… como queres que faça… ou não faça?...  …ele deve vir almoçar, pois sem os subsídios, e com o controle dos cartões mais apertado, vem sempre.
«OK… liga-me logo que dê à costa…, …podes prepará-lo sobre o assunto: o Presidente quer uma reunião urgentíssima ainda hoje… sem agenda» – Libertino abriu assim a janela indiscreta do suspense.
F…, …trif… só faltava mais esta para nos encanzinar a tarde…, …desabafou em voz alta o assessor oficial para os assuntos com a Presidência, ao mesmo tempo que entrava no gabinete o senhor ministro de Estado nº 1.
«Mais algum sacana dos jornais a fazer perguntas sobre o meu currículo?... olhe que vocês têm ordens para não abrir mais o bico… e o Passos ainda não chegou para o almoço?...». 
Foi com agrado que o assessor viu o senhor ministro de Estado nº 1 dar meia volta e sair, batendo estrondosamente com a porta. O assessor adivinhou que o senhor ministro de Estado nº 1 estava à beira de um ataque de nervos…, quem não estaria…, isto é…, quem não adivinharia!?
Às 13 horas em ponto o senhor PM chegou a S. Bendito, cumprindo ao segundo cronometrado os compromissos da sua preenchida agenda: almoço frugal com o seu ministro de Estado nº 1, para avaliar os danos causados na esquadra do governo pelo submarino da Lusófila. “Esta perigosa situação é preciso encará-la de frente, admitindo que o pilar central da condução política de S. Bendito, o seu super-ministro, foi abalroado!”
Estava a ser servida a sopa quando o assessor oficial para os assuntos com a Presidência pediu licença para entrar e anunciou a sua excelência o PM o contacto feito pela Presidência, a convocá-lo para uma reunião urgente sem agenda, às 16 horas da tarde. O senhor PM e o seu ministro de Estado nº 1 perderam o apetite e ficaram a olhar um para o outro, com a sopa no prato e sem terem nada para dizer .
Felizmente o ambiente foi desanuviado por uma canção, vinda dos lados dos jardins do palácio, entoada por grupo de crianças que ali viera em visita de estudo: indo eu, indo eu, a caminho de Viseu…, ai Jesus que lá vou eu.
O chefe do governo levantou-se da mesa e, com ar decidido, declarou ao seu ministro de Estado nº 1: –vou andando… a caminho de Viseu…, isto é..., a caminho de Bérrém… *bzzbzzbzz*!
O Presidente que às 16 horas batidas aguardava o PM, começou a mostrar sinais de impaciência, como sejam secura de boca, humidificação das “fontes” e um tique de deglutição em seco, constante, pelo já prolongado atraso, que não era habitual. Para se descontrair decidiu desentorpecer as pernas andando um pouco pelo corredor do palácio por onde devia passar o PM. Ouviu vozes e depois no fundo oposto eis que surge a dona 1ª dama que em andamento agitado e suspirado exclamava: “que vergonha… que vergonha… que vergonha!” Mas logo desapareceu por uma porta corta fogo quando o seu marido Presidente a advertiu: “ó mulherzinha…, deixe-me trabalhar…, deixe-me trabalhar”. «Hoje andam todos com os nervos em franja», desabafou para si o Presidente, já farto de esperar pelo atrasado PM.
Lá de fora chega-lhe o pinóni…, pinóni de sirenes e uma chiadeira de pneus a rapar a calçada do pátio do palácio.
“Ei-lo que chega”, pensou em voz alta o Presidente, ao mesmo tempo que instintivamente olhou para o relógio. «17:15!!!, exclamou irritado, uma hora e um quarto de atraso… parece impossível… eu, no tempo do Maurio, vinha sempre com tempo por minha conta. O comilão é que fazia grandes lancheradas… e eu tinha que estar à seca enquanto sua excelência enchia o bandulho». Com esta divagação por outros tempos, entrou na sala habitual de entrevistas com o PM, onde este já se encontrava hirto e mais pálido do que um defunto com doze horas de morto.
«O trânsito infernal…, como de costume…» – disse o Presidente, passando a mensagem de que não iria criticar o atraso intolerável do PM, que se desloca à Presidência a pedido desta.
-Senhor Presidente…, saiba que tive de me deslocar, in extremis, ao Hospital Júlio de Matos, para onde o meu ministro de Estado nº1 foi levado, acometido por um perigoso ataque de pânico.
«Ó diabo…, isto está a ficar feio…» - balbuciou o Presidente para o seu lado direito, onde se encontrava o assessor Nuno Libertino.
« O senhor PM não me levará a mal… …mas no meu estado de 1ª Magistratura da Nação, tenho que lhe perguntar se acha bem manter no governo um colecionador de trapalhadas como o seu ministro de Estado nº 1? Eu sei que é uma situação difícil e delicada… … mas mais delicada e difícil é a situação do país que o governo tem que levar a bom porto…» – pressentia-se que o Dr. Passos Perdido não tinha sequer um trunfo na manga, um ás de espadas que pudesse bater em cima da mesa para resolver a jogada, enfim estava mesmo perdido naquele que agora lhe parecia um grande e inóspito palácio…, …habitado por vampiros! E o Presidente continuou a falar, como se fosse só para ele, com uma frieza draculiana.
«…ora com um “braço direito” a esta hora deitado numa enxerga do Júlio de Matos, metido numa camisa de forças por causa de um ataque de pânico…, deixe-me que lhe diga senhor PM, na Feira da Ladra vai encontrar melhor estampa…» – e o calvário do senhor PM continuou, em direcção ao seu “gólgota”…, no Col du Tourmalet
«…como sabe não perco uma etapa da volta à França, ou não fosse eu um amante da modalidade…; …e hoje reservei um tempinho para ver a subida ao Col du Tourmalet, aqui com o Nuno Libertino, um ás do pedal em BTT…, …mas qual não foi o nosso espanto…, direi melhor…, o nosso choque, quando aparece no ecrã da televisão um português, certamente, com um grande cartaz amarelo que tinha escrito a letras garrafais: “vai estudar Elvas”!».
Percebendo  que o PM também estava  à beira de um colapso…, e para quebrar o ambiente tenso que toldara o éter da sala, o Presidente aconselhou o PM do modo seguinte: «mande esse tal… … seu ministro de Estado nº 1 para Angola… vai ver que ele se vai dar bem com os Dos Santos…, …mais depressa do que pensa arranjará outro “seu ministro de Estado nº 1”».

E há quem diga que o Presidente não tem sentido de humor!



AC