Sunday, July 15, 2012
Sunday, May 27, 2012
O massacre de Houla
Entre muitos mortos contam-se trinta e duas crianças, provavelmente de
uma escola onde aprendiam a arte inofensiva de ler e de brincar.
Esta fotografia, um testemunho arrepiante, é das "menos"
chocantes de uma série delas que vi. Agora discutem quem puxou o gatilho!
Nós nada podemos fazer e amanhã as imagens apagam-se..., como sempre.
Encontro em zona de guerra, ou
outra história de David e Golias
Ele é real…, o nossos caminhos cruzaram-se numa viagem que me levou a
uma cidade síria, algures no centro do país, chamada AL - Houla. O seu nome é
Mohamed, descobri o seu par de olhos expressivos entre outros caminhantes
vagueando numa estrada de pó com destino incerto. O rapaz aparenta mais idade
devido ao seu corpo franzino, tez escura e à desenvoltura com que se atravessa
no caminho suado, tentando impingir a mercadoria por uma moeda. Certifiquei-me que tem dez anos e o mesmo
número de elementos da família à sua responsabilidade para alimentar. O pai foi
morto por um míssil lançado de um MIG 29, tal e qual como um elefante esmaga
uma formiga, sem um ai, com pedaços de corpo irreconhecíveis que puseram
perante o seu par de olhos vivos e tristes, para reconhecer. Hesito em
continuar a escrever este relato…, ou paro agora, ignorando a bebida amarga que
comprei por uma moeda…, ou vou ter que negociar forças para percorrer o trilho
extenuante e sem sentido que me levou a Mohamed.
Em Houla a palavra Alá é dita mais de mil vezes por dia pelas bocas esfomeadas
de dignidade dos seus habitantes. Mas Deus partiu há muito para o seu refúgio
eterno no paraíso, longe das ruas mal cheirosas com casas esventradas, onde
agora jazem famílias por completo.
O que faria Deus se continuasse por estas paragens?..., boa pergunta
para colocar a quem fez daquela terra a sua, e à qual eu, como homem e ser
pensante que sou, não consigo responder, duvidando mesmo que alguém o consiga
fazer.
Ao observar a longa fila de trinta crianças mortas por uma bomba que
explodiu em cima da sua sala de aulas fico petrificado, olho o rosto das que
ainda o têm, lendo em todos a mesma pergunta para a qual, mais que certo, Deus
não tem resposta: porque nos mataram quando estávamos apenas a brincar ao nosso
jogo favorito?
Mohamed devia estar na escola… mas não estava… porque anda angariando
o sustento para a mãe, duas avós e os sete irmãos mais novos, por caminhos e ruas sinuosas, onde o cheiro a
pólvora e a carne queimada, pelas explosões, se entranha teimosamente pelas
gargantas. Ele aprendeu o segredo de um chá, não descobri ainda se transmitido
pelo pai ou outro parente mais próximo, que alivia essa penosa secura das gargantas,
ainda mais tormentosa depois do corte de todo o tipo de abastecimento à cidade…,
e faz dele o seu negócio.
Mohamed pisca-me o olho e acena-me com a chaleira do outro lado da
estrada. Aproxima-se do carro atravessando a via e encosta-se à janela que está
aberta. Apesar de me saber estrangeiro, fala-me com um sorriso aberto de bom
vendedor. Não entendo uma palavra de árabe mas gestualmente traduzo que é um
copo de chá por uma moeda. Aceno que sim e ele saca do bolso um copo universal,
o que me arrepia… seja o que Deus quiser… por estas bandas é mais certo morrer
como alvo de qualquer arma mortífera, do que pelo efeito patológico de uma disenteria.
Ao longe anunciam-se sirenes em grande azáfama, pouco antes uma explosão
tremenda fora a origem de um sopro que me atordoara os tímpanos. Faço-lhe sinal
para entrar no carro e sairmos rapidamente daquela zona de perigo. Mohamed
aceita a boleia sorridente, leio nos seus olhos que para onde quer que nos
desloquemos o perigo irá ou virá ter connosco. Traduzo os seus gestos: «Alá é
grande… morte à “shabiha”».
A terra solta constantemente um cheiro intenso a ódio que se entranha
nas almas que andam por este mundo, para não mais as largar. Em Houla, onde o
caos reina a seu belo prazer, as necessidades mais básicas, quanto vitais, não
existem por aqui. Deslocamo-nos na periferia da cidade, onde uma janela com
vidros ou uma parede de pé são excepção. Subitamente somos engolidos por um rio
humano em clamor. É o funeral dos mártires de um bombardeamento a um bairro do
centro da cidade, diz Mohamed. Passam seis caixões por cima do carro, levitando
sobre as cabeças da multidão enfurecida. Como surgiu, num ápice, assim
desaparece.
Mohamed faz-me sinal para parar… e sairmos rapidamente do carro. Ele
ouviu antecipadamente, com certeza por hábito adquirido em muitos e longos
meses de guerra, o roncar sibilante de uma patrulha de caças MIG 29. Abrigamo-nos
numas ruínas onde Mohamed entra sem hesitação.
A chaleira, apesar da correria, mantém-se firme, sem perda de uma gota do
negócio. Alguns segundos depois o ruído ensurdecedor dos aviões e uma explosão
avassaladora fazem-me pensar que o tecto do firmamento vai desabar. Uma onda de
fumo negro ergue-se da amálgama de ferros retorcidos esculpidos pela precisão de
um míssil. Dou graças a Mohamed pela sua perspicácia e ouvido apurado.
É muito arriscado para um jornalista estrangeiro andar por estas
bandas. No automóvel, agora transformado num monte de destroços enegrecidos
pelo fogo, pereceu material de reportagem valioso. Ao pescoço tenho pendurada
uma das máquinas fotográficas que, por sorte, arrastei comigo. Mohamed faz-me
perceber com um gesto do polegar esquerdo para cima que é muito fixe a Olimpus
estar intacta. Dá-me espaço e pousa para um disparo com a chaleira em grande
plano… e o seu sorriso…, o seu sorriso inocente atirado para o campo de
batalha.
Sigo o pequeno herói chefe de família por um labirinto de ruelas
atafulhadas de destroços de casas, ainda há bem pouco tempo habitadas, mas às
quais foi lançado o anátema de albergarem terroristas. Cruzamo-nos com mulheres
que choram a destruição de todos os seus haveres. Procuram nos escombros
calcinados algum objecto mais valioso…, uma recordação de família.
“Indiferente” ao sofrimento dos seus compatriotas, Mohamed a todos oferece chá
com um sorriso nos lábios, a troco de uma moeda… obviamente. Faz-me compreender
que à noite, quando chegar a casa, ou ao que resta dela, quer ter o suficiente
para alimentar a família. Vou batendo fotografias, como esta que acabo de
fixar, da recolha dos cadáveres de uma mãe e dos seus dois filhos. Mohamed
salta de espaço em espaço, sobre todas as desgraças que se atravessam no
caminho…, e eu dou comigo a pensar que não deve ser muito diferente viver no
“inferno”.
Vemos uma bola de fogo ao longe, seguida de um estampido violento, que
nos quebra por segundos a audição. Uma nuvem de fumo negro desenha um
cogumelo…, Mohamed fica agitado, gesticula e acelera o passo, a ponto que tenho
dificuldade em segui-lo. Fico a saber que o fogo atingiu a zona da sua casa.
Ele teme pela mãe e pelos irmãos.
Felizmente, hoje, todos estão bem.
Mohamed dá-me autorização para fotografar a família reunida…, uma
recordação deste nosso breve encontro em zona de guerra.
AC
Thursday, September 22, 2011
A matança
«Vamos a eles patrão Manuel…, vamos a eles que já estão a adivinhar para que é a banca».
António acabara de afiar as facas e o facalhão com que traçaria o destino dos porcos, em direcção ao seu mundo peculiar na salgadeira ou no fumeiro da casa.
Os condenados estavam mal encarados e de mau humor, pois tinham pressentido, de véspera, o arrumar da banca e das cordas, da balança e dos ganchos de pendura, dos utensílios de corte e de desmancho, dos alguidares, enfim…, até do horrível tijolo vermelho que lhes seria metido nos interiores do focinho, anulando uma mais que certa defesa do bácoro e abafando os seus últimos grunhidos de desespero.
«Primeiro este que já se pôs a jeito da banca», sentenciou o patrão.
O porco assustado por ver tanta gente à sua volta, com cara de poucos amigos, tinha-se posto em guarda junto à mesa do sacrifício.
“Pensou o pobre porco: –o primeiro que se adiantar leva com as burras numa perna…, que lha furo de lado a lado”.
Como é sabido, a luta entre homens e porcos sempre foi desigual, com vantagem para os primeiros: uma questão de cérebro, de membros superiores e de patas. Se bem que, nos interiores homens e porcos são tão semelhantes que daí nasceu o aforismo popular «se queres ver o teu corpo abre um porco».
E da curiosidade humana pelos porcos aconteceu o inevitável gosto por comê-los, tudo o “malvado” ser humano degustou nos porcos…, até os ossos!
Mais célere que o “pensamento” do porco, o António já lhe tinha laçado o pescoço, depois as patas dianteiras, o que o fez tombar, e de seguida as traseiras…, tudo tão rápido que o desgraçado porco foi içado para cima da banca, fria como uma tumba, quase sem dar por isso.
Vendo-se manietado naquele cadafalso tenebroso, deu umas grunhidelas valentes e uns safanões corajosos, na tentativa de se libertar. O tijolo vermelho, com sabor ácido e amargo, foi-lhe metido pela boca adentro, até às goelas, e depois bem atado e apertado o focinho, sua última arma defensiva, prontamente posta fora de combate.
Um dos homens aproximou-se do porco com um enorme facalhão, em direcção da barbela. É o carrasco, disso tem a certeza o infeliz suíno. E sabe que, num tudo de nada, o céu deixará de ser azul para se pintar de escuro negro como o breu.
O outro porco, vendo a tragédia à sua frente, quis pôr-se a milhas, mas seguiu o mesmo caminho: chouriços, linguiças, toucinho, presuntos…, mesmo as orelhas se comem como grande petisco.
É o destino dos porcos, de há milénios… por estas bandas.
AC
Sunday, September 11, 2011
In memoriam
O dia em que o inferno aterrou na City
Naquele dia 11 de Setembro soltaram-se as feras e invadiram a baixa da cidade. Muitos transeuntes, habituados à confusão de gentes e ocorrência de acontecimentos insólitos, pensaram tratar-se da rodagem de mais um filme da série “Assalto ao Arranha-Céus”, com efeitos especiais indelevelmente reais.
Foi quando o roncar ensurdecedor de um avião, muito perto do chão da “down Town”, atraiu a minha atenção para aquela parte do céu (inferno) onde se deslocava. Antevi que aquele avião de fuselagem negra, pintado pelo efeito de contra luz do início da manhã, apesar de continuar a julgar ser uma simulação para efeitos especiais, ia chocar com uma das Torres gémeas do World Trade Center, símbolo do poder e do cosmopolitismo da City.
O avião entrou pela Torre norte adentro, libertando para trás o ribombar de um descomunal trovão e expelindo um cogumelo imenso de chamas. Tudo à minha volta tremeu… gritos de pânico dão agora um aspecto mais condizente com a realidade, que eu confirmo quando vejo uma miríade de objectos, uns maiores, outros mais pequenos, que se libertam da nuvem densa de pó e caiem por todo o lado. Procuro irrisoriamente abrigo debaixo de um toldo de um café de esquina, onde penso estar sob protecção. Um turbilhão de papéis esvoaçam entre manchas multiformes de pó que vai uniformizando o colorido desta parte da cidade, sempre muito matizado. Do meu abrigo tenho ângulo para ver as duas Torres, como que encostadas uma à outra, da mais afastada saindo labaredas da parede metálica esventrada do edifício, lá bem alto. De súbito outra vez o roncar, agora medonho, de um motor… e a sombra enorme de outro avião parece que também nos transporta, a nós visitantes incógnitos da baixa da cidade…
A cena repete-se na Torre sul, de onde é expelido outro cogumelo monstruoso de chamas e denso fumo negro.
Colado ao chão pelo irreal do que está a acontecer, sou arrastado por uma multidão que foge desordenadamente do ponto da catástrofe. Tento ultrapassar o pânico que tomou conta de tudo e de todos. Uma miríade de pequenos pedaços de metal, ainda incandescentes, atinge o solo como pequenas “estrelas cadentes”. Olho incrédulo para as duas Torres gémeas, brutalmente esventradas pelo impacto das aeronaves. Vejo que as chamas tomaram conta de vários andares na zona superior das Torres.
Mas… há gente pendurada para o exterior dos edifícios… ó meu Deus… adivinha-se que alguém acena com um objecto branco, talvez um lenço, sinalizando a sua presença no desespero de um socorro, uma ajuda, para sair do inferno que aterrou bem cedo de manhã no World Trade Center.
Dou comigo a gritar: -não posso crer…, não posso crer no que os meus olhos vêem… é um filme de terror inimaginável!... …dois vultos humanos caiem no vazio de mãos dadas… quero desviar o meu olhar do seu drama, em respeito pela coragem dos seus últimos momentos de união… …mas não consigo… …acompanho-os até que deixo de vê-los quase a tocar o fim. Oiço nitidamente o som arrepiante do embate no solo.
Alguém grita: «a Torre sul vem abaixo». Instantaneamente todos param para ver a Torre sul desmoronar-se… cair a pique e afundar-se numa massa fantasmagórica de cimento derretido. Ouve-se um rugido diabólico e uma gigantesca onda de pó, escombros e detritos atira-se em todas as direcções. O movimento volta a iniciar-se descoordenadamente…, alguém fica sentado no chão coberto de pó, sem forças, ou simplesmente encostado a um candeeiro de rua, preso à angústia do que parece ser o fim do mundo. Gritos e lamentos ecoam por todo o lado, imperceptíveis mas traduzidos todos do mesmo modo, misturados com o soar de sirenes.
Afasto-me em direcção ao rio Hudson, envolto em pó e por uma multidão que fala sem nexo…, grita…, chora…, gesticula…, com a marca do terror desenhada nos rostos.
A meio da ponte aonde chego, apinhada de gente, todos olham em silêncio para a enorme cortina de pó que cobre a baixa da cidade, vendo o espectáculo dantesco da queda da Torre norte: a enorme antena de telecomunicações inicia a sua queda, fazendo lembrar o mastro de um navio que se afunda…
…as feras devoram o coração da City!
AC
publicado também em Al Tejo - www.alandroal.blogspot.com
Sunday, August 28, 2011
A ÚLTIMA MÓ E SAÍDA DAS ÁGUAS,
devolvidas ao rio Lucefecit
…
Durante os meses de Julho e Agosto de 2011 decorreu uma intervenção arqueológica no sítio da Rocha da Mina, concelho de Alandroal.
Posteriormente foi-nos proporcionada uma visita guiada ao local, acompanhados pela arqueóloga Dr.ª Conceição Roque, que integrou a referida intervenção.
De tudo o que ouvimos falar nada diremos, dada a falta de formação científica para o assunto e também porque a intervenção irá, certamente, ter continuidade, sendo prematuro apresentar ideias.
Mas…, há sempre um mas, que neste caso é um moinho de água, dos muitos que existem ao longo do rio Lucefecit, e que nos deixou impressionados com a destreza, tenacidade e acção dos homens que por aqui fizeram e vão fazendo a sua vida.
Fixámos algumas imagens, onde procuramos mostrar um resumo da intervenção arqueológica e também do referido moinho. Estando este construído num desnível considerável, afastado do leito do rio algumas dezenas de metros, teve que ser levantado um açude para reter a água, obrigando-a a passar por estreita comporta e respectivo desvio em direcção ao moinho.
Isto é, desviaram o leito do rio Lucefecit em cerca de trezentos metros, uma obra de engenharia perfeita.
Numa das encostas por perto, ainda está visível o caminho do moleiro, nas suas andanças para governo de vida.
AC
Saturday, August 27, 2011

Deixa passar este lindo pantomimeiro…
Um sem vergonha de gente
Um salafrário manhoso
Abre a bocarra e só mente
Você é um pedinchão
E diz mal do ContnenteMude de teta seu mamão
Sobrinho da prima Insolente
Você é pior “cu” Salazar
Um cacique confrangenteQue tem esse tolo ar
E bafo de aguardente
Você quer ser independente
É tudo fingimentoAssim é infelizmente
Que vos ouvir é tormento
Você está grudado ao poder
Como o António na cadeiraAté quando se irá ver
Que parta bem a “chifreneira”
poeta popular
Friday, August 19, 2011
Ermida de Nossa Senhora da Conceição da Fonte Santa
À água da fonte são atribuídos poderes curativos, pelo que ainda há bem poucos anos era sede de concorrida romaria.
Em determinada data do ano, um grupo de redondenses (só homens) ali se desloca para um dia de "devoção e paródia".
Quer a ermida, quer o espaço envolvente, estão votados ao mais completo abandono.
Os "ex votum" que lhe preenchiam as paredes, em agradecimento de curas milagrosas, terão sido recolhidos, a maior parte, pela paróquia do Alandroal.
Friday, August 05, 2011
Marylin Monroe
Em 5 de Agosto de 1962 morreu uma mulher cuja fragilidade estava bem patente na sua agitada vida como estrela de Hollywood. Dois membros do clã Kennedy, e outros mafiosos, ficaram de mãos sujas com o seu presumido suicídio. Nesse mesmo dia, simultaneamente, nasce o mito chamado Marylin Monroe.
Dos outros quem se lembra?...
Marylin é eterna...
As lágrimas que por ti choro...
aos deuses imploro
que te conservem bela
encantadoramente!
Resta a tão triste o consolo
de saber amar-te: eternamente.
AC
As lágrimas que por ti choro...
aos deuses imploro
que te conservem bela
encantadoramente!
Resta a tão triste o consolo
de saber amar-te: eternamente.
AC
Sunday, July 24, 2011
Amy Winehouse
(1983 - 2011)
Alma…
espécie de ser
meio homem
meio mulher
vida por aluguer
sofrer o que puder
um híbrido rasurado
de membros mutilado
na voz amordaçado
perdido nunca encontrado
virado do avesso
no olhar estremeço
se me vejo não pareço
pedir nunca peço
não estou onde aconteço
minha dualidade
na penumbra
na claridade
na mentira
na verdade
o caminho
na eternidade
AC
Sunday, July 17, 2011
Sunday, July 10, 2011
Trechos de uma BD



Trechos de uma BD...
por JP
Pincéis e Lápis
A pintura…é como a escrita…
… como a poesia:
é preciso ter doçura,
ser profunda, mesmo que estrita,
e leve como a maresia.
Saturday, July 09, 2011
Pela calada da noite...
A propósito da requalificação do castelo de Alandroal, aqui fica um aviso para todos os que entrarem ou permanecerem no local depois do Sol posto. A esses, mais foitos, ainda assim aconselhamos o uso de uma fraldinha de contenção. Vão lá... vão, quem vos avisa vosso amigo é!
A rapaziada andava em alvoroço e desde o começo do tempo quente não se aproximava do castelo da vila. Local de brincadeiras e jogos de guerra inofensivos, com mil recantos para esconderijos, ninguém ousava ir até às suas imediações, quanto mais transpor a bonita porta medieval.
A notícia correra célere: desde que as noites tinham aquecido, um fantasma espreitava, a horas incertas, por entre as ameias da muralha.
Ouvi a fantástica ocorrência com a respiração contida, ao mesmo tempo que um palpitar incomodativo me levou a procurar um banco próximo.
Do jardim da praça enxergava-se grande parte do velho monumento pelo que, instintivamente, me posicionei de modo a evitar a sua visão.
Fora o Tricas que me informara de tudo: «que sim…, que era mesmo verdade…, fora visto duas ou três noites atrás um grande lençol branco esvoaçando tenebrosamente entre dois torreões».
Corria também já de boca em boca que se tratava da alma penada de um castelhano de outros tempos, enforcado por se atrever a roubar um cavalo pela calada da noite.
Impressionou-me o relato do acontecimento mas ainda mais o ar foito com que o Tricas disse de sua justiça: «não é que não acredite em fantasmas... ...e não lhes tenha até algum respeito...» – vi que sondava o castelo com ar enigmático – «...mas tenho cá umas dúvidas para tirar a limpo».
Consegui então encarar o enorme vulto de pedra, ainda há dias sítio de grandes paródias, tomando agora forma monstruosa que parecia pronta a engolir-nos. Ao Tricas nada disse, pois não queria dar parte de fraco.
Era quase noite. Os contornos de minha casa avistavam-se no extremo sul da praça, esbatidos pelos últimos raios de sol. Tomei fôlego para percorrer a calçada em passo acelerado e chegar rapidamente. Quando me senti em segurança contemplei, emboscado numa pequena fresta do postigo, o trecho visível da fortaleza, àquela hora uma massa compacta escura parecendo, por um instante, toda ela envolta em gigantesco lençol branco.
Uma leve pressão no meu ombro direito fez emergir em mim um arrepio enérgico e motivar que fechasse o postigo com violência, o que provocou um desfiar de argumentos acusatórios pelas vidraças que aqui e ali apareciam estilhaçadas. Com a desculpa de uma necessidade imperiosa, que era genuína, subi num ápice a escadaria de mármore e passados uns minutos refugiei-me, apreensivo, no meu quarto de dormir, felizmente com janela para o jardim e pomar que se estendiam nas traseiras da casa. Toda a fachada desta se encontrava escancarada à medonha aparição e o receio de entrar naqueles aposentos passou a ser tanto quanto o desejo de ali fazer base de observação.
Absorto por estes pensamentos, lembrei-me então que tinha deixado o Tricas pregado ao banco do jardim a falar sozinho sobre o terrível assunto que ocupava agora todo o espaço das nossas mentes. Tivesse dito, ao menos, que eram horas de jantar, que não levantaria qualquer suspeita no meu amigo sobre o débil estado de espírito que a conversa do fantasma suscitara em mim. Nestas conjecturas passei o serão sentado a um canto da grande chaminé da cozinha, agora sem a chama habitual dos dias frios, na companhia da velha cozinheira que dormitava.
Fui quase empurrado para a cama, pois no dia seguinte tinha aulas.
Deitado, provavelmente, era eu que tinha aspecto fantasmagórico, de tal modo estava coberto pelo lençol. Como era de esperar tive grande dificuldade em adormecer, não encontrando posição que me acalmasse, entre as mil e uma que experimentei. Ainda ouvi as três horas da manhã e o piar arrepiante da coruja branca fez-me dar, involuntariamente, um salto que despertou um sono quase estabelecido. Mesmo debaixo dos lençóis vislumbrei a “alma do outro mundo” deslizando com agilidade entre ameias e torreões. Depois adormeci morto de cansaço por um final de dia tão próximo do “fantástico”.
Manhã cedo acordei com pressa, pouco usual em mim, de ir para a escola. Uma caneca de leite foi bebida de um só gole e a metade de um papo-seco voou para cima da velha palmeira do quintal, pondo a passarada numa algazarra delirante. A sessão de avisos e recomendações diárias também ficou a meio: –vai direitinho à escola, não te quero com o Tricas que não é boa companhia, se vais para o moinho de vento levas uma sova...
Larguei porta fora em passo de corrida, escapulindo-me furtivamente das redondezas do castelo.
O meu amigo Tricas todos os dias me esperava no cimo da ladeira da escola e logo aí traçávamos o nosso destino para depois da saída das aulas. Nessa manhã lá estava ele, encostado à parede do armazém de ferragens, com o sorriso que punha invariavelmente nos lábios quando tinha segredos que partilhava após negociata favorável. Quando lhe disse bom dia foi direito ao assunto, sem tentativa de extorsão inofensiva do que quer que fosse – trocava sítios de ninhos e de outra bicharada, por rebuçados, bombons ou, raramente, uma moeda de cinco tostões.
«Ontem deixaste-me a falar com o banco do jardim...» – adiantou – «...quando te ia desafiar para irmos ao castelo... ...tentar ver o fantasma» – ao ouvir a palavra fantasma senti as pernas tremerem como no dia anterior. «Pois fica sabendo que fui mesmo sem a tua companhia... ...sozinhito...» – deu ênfase à palavra – «...tirar a prova dos nove ao “medo” que anda a dar cabo das nossas brincadeiras».
«Ali não há fantasma nenhum...» – ficou com a voz suspensa por um instante – depois concluiu: – «...já sei quem se entretém a estragar-nos as noites!».
«Hoje, quando aparecer a Lua podemos ver como se fosse dia... ...se não tiveres cagunfa» – o Tricas olhou para a mim com um sorriso provocador – «vou contigo para que acredites que falo verdade».
Passei esse dia na escola com grande dificuldade em prestar atenção às lições, apesar das ameaças do ponteiro então muito usado para manter a ordem na sala – hoje, felizmente, método impensável – e à quinta vez que o excesso de produção de adrenalina me obrigou a pedir para ir à casa de banho, fui colocado de castigo na parede do fundo até tocar para a saída – ainda recordo o enorme esforço que fiz para não urinar pelas pernas abaixo. Aproveitei o tempo para engendrar o processo de me raspar de casa à noite e ir ao castelo com o Tricas. Se pedisse para sair depois do jantar seria posto imediatamente a ferros no quarto, castigo que poderia alargar-se a não ver televisão durante o fim-de-semana; se recusasse o desafio do Tricas jamais seria capaz de olhar de frente a cara do meu amigo. Optei por não regressar a casa e fosse o que Deus quisesse.
Ao lusco-fusco segui os passos do Tricas com precisão, sempre colado a ele, e embrenhámo-nos no reino do imaginário. Tinha sido prevenido que convinha andarmos sempre arrimados à parede da muralha para que o luar não denunciasse a nossa presença. Era evidente o enorme esforço que fazia para conseguir movimentar-me – as pernas, a pouco e pouco, mais pareciam pesados madeiros. Apesar da frescura da aragem nocturna o suor brotava por tudo quanto era poro e o coração batia a um ritmo alucinante. O Tricas levava amiudadas vezes o dedo ao nariz, sinal para que fizesse o menos ruído possível e com gestos discretos mandava-me avançar ou deter conforme as suas desconfianças. A coruja branca piou do alto de uma torre próxima, fazendo um eco assustador e lançou-se a voar mesmo por cima das nossas cabeças com um bater de asas calafriante. Tive que agarrar a camisola do meu companheiro com unhas e dentes para não me estatelar com o susto. Por fim o Tricas segredou que estávamos no nosso posto de vigilância, nem mais nem menos que o grande torreão com dois salientes ganchos talhados em mármore, onde antigamente penduravam toda a espécie de malfeitores. O meu espírito não conseguia sossegar, porque de imediato pensei no fantasma do castelhano, ladrão de cavalos, que ali tinha sido pendurado há muitos anos. Investiguei entre duas ameias se havia gente nas imediações do castelo, esperança de algum socorro se fosse necessário. Vi a frontaria de minha casa e adivinhei o que me iria acontecer quando chegasse muito depois da hora do jantar.
Subitamente uma mão do Tricas colou-se à minha boca, ao mesmo tempo que a outra me sustinha pelo braço esquerdo, interrompendo a minha divagação. Logo fez sinal na direcção do torreão que se erguia à nossa direita, a uma distância de cinquenta passos. Senti o bafo quente da sua respiração enquanto me cochichava para dentro do ouvido: «são dois... ...estão dentro do torreão... ...subiram pelas escadas da torre do relógio quando espiolhavas lá para baixo».
O Tricas deve ter pressentido que eu estava à beira de desfalecer porque as minhas pernas começaram a fraquejar. Apressou-se a dizer: «não tenhas medo que não são fantasmas...» – e repetiu – «...juro-te que não são fantasmas... ...são pessoas de carne e osso como nós... ...assim eu não me chame Tricas».
Meti ar nos pulmões, recuperei ânimo e continuámos os dois escondidos, aguardando o que se iria passar.
O tempo parecia estar suspenso – certamente uns minutos bem esticados – mas depois a Lua cheia permitiu-nos ver um vulto de homem e outro de mulher que no cimo das escadas da torre do relógio davam um prolongado beijo de namorados.
Ao fixar o rosto do Tricas apercebi-me que tinha um sorriso velhaco de orelha a orelha quando me perguntou: «sabias que os fantasmas também dão beijos?».
Pudemos vê-los desaparecer na penumbra de uma arcada do terreiro medieval.
Voltei a encher o peito de ar, desta vez ufano por ter acompanhado o Tricas naquela odisseia nocturna. Disse mesmo ao meu amigo: –não vou esquecer o que vi esta noite…, aconteça o que acontecer quando chegar a casa.
Dito isto, eis que nos preparávamos para abandonar a torre da forca, como era conhecida: simultaneamente sentimos um frio gélido percorrer-nos o corpo, ao mesmo tempo que um som pavoroso de relinchar e trotear, vindo do lado dos ganchos dos condenados, nos fazia vibrar os tímpanos e olhar naquela direcção.
Aterrorizados…, sem nada dizer um ao outro…, o que vimos a seguir desencadeou precipitada fuga, seguramente mais rápida que o voo da coruja branca.
Ainda hoje recordo com incómodo aquela aparição – uma silhueta humana…, mais brilhante que a claridade do astro…, permanecia pendurada num dos ganchos de mármore da secular torre dos enforcados.
AC
Saturday, June 25, 2011
( desenhos de João Paulo)
2ª EDIÇÃO «POR TERRAS DO ENDOVÉLICO»
a decorrer em Alandroal, entre 25 de Junho e 3 de Julho 2011
Thursday, June 23, 2011
Supernova
Quando nasce um poeta
no firmamento aparece
uma estrela, ou um cometa,
que brilha e nos aquece.
Seus poemas são canções
de embalar o Universo,
e deixa nos corações
essa luz, num simples verso.
AC
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