Saturday, July 09, 2011













Pela calada da noite...
A propósito da requalificação do castelo de Alandroal, aqui fica um aviso para todos os que entrarem ou permanecerem no local depois do Sol posto. A esses, mais foitos, ainda assim aconselhamos o uso de uma fraldinha de contenção. Vão lá... vão, quem vos avisa vosso amigo é!

A rapaziada andava em alvoroço e desde o começo do tempo quente não se aproximava do castelo da vila. Local de brincadeiras e jogos de guerra inofensivos, com mil recantos para esconderijos, ninguém ousava ir até às suas imediações, quanto mais transpor a bonita porta medieval.
A notícia correra célere: desde que as noites tinham aquecido, um fantasma espreitava, a horas incertas, por entre as ameias da muralha.
Ouvi a fantástica ocorrência com a respiração contida, ao mesmo tempo que um palpitar incomodativo me levou a procurar um banco próximo.
Do jardim da praça enxergava-se grande parte do velho monumento pelo que, instintivamente, me posicionei de modo a evitar a sua visão.
Fora o Tricas que me informara de tudo: «que sim…, que era mesmo verdade…, fora visto duas ou três noites atrás um grande lençol branco esvoaçando tenebrosamente entre dois torreões».
Corria também já de boca em boca que se tratava da alma penada de um castelhano de outros tempos, enforcado por se atrever a roubar um cavalo pela calada da noite.
Impressionou-me o relato do acontecimento mas ainda mais o ar foito com que o Tricas disse de sua justiça: «não é que não acredite em fantasmas... ...e não lhes tenha até algum respeito...» – vi que sondava o castelo com ar enigmático – «...mas tenho cá umas dúvidas para tirar a limpo».
Consegui então encarar o enorme vulto de pedra, ainda há dias sítio de grandes paródias, tomando agora forma monstruosa que parecia pronta a engolir-nos. Ao Tricas nada disse, pois não queria dar parte de fraco.
Era quase noite. Os contornos de minha casa avistavam-se no extremo sul da praça, esbatidos pelos últimos raios de sol. Tomei fôlego para percorrer a calçada em passo acelerado e chegar rapidamente. Quando me senti em segurança contemplei, emboscado numa pequena fresta do postigo, o trecho visível da fortaleza, àquela hora uma massa compacta escura parecendo, por um instante, toda ela envolta em gigantesco lençol branco.
Uma leve pressão no meu ombro direito fez emergir em mim um arrepio enérgico e motivar que fechasse o postigo com violência, o que provocou um desfiar de argumentos acusatórios pelas vidraças que aqui e ali apareciam estilhaçadas. Com a desculpa de uma necessidade imperiosa, que era genuína, subi num ápice a escadaria de mármore e passados uns minutos refugiei-me, apreensivo, no meu quarto de dormir, felizmente com janela para o jardim e pomar que se estendiam nas traseiras da casa. Toda a fachada desta se encontrava escancarada à medonha aparição e o receio de entrar naqueles aposentos passou a ser tanto quanto o desejo de ali fazer base de observação.
Absorto por estes pensamentos, lembrei-me então que tinha deixado o Tricas pregado ao banco do jardim a falar sozinho sobre o terrível assunto que ocupava agora todo o espaço das nossas mentes. Tivesse dito, ao menos, que eram horas de jantar, que não levantaria qualquer suspeita no meu amigo sobre o débil estado de espírito que a conversa do fantasma suscitara em mim. Nestas conjecturas passei o serão sentado a um canto da grande chaminé da cozinha, agora sem a chama habitual dos dias frios, na companhia da velha cozinheira que dormitava.
Fui quase empurrado para a cama, pois no dia seguinte tinha aulas.
Deitado, provavelmente, era eu que tinha aspecto fantasmagórico, de tal modo estava coberto pelo lençol. Como era de esperar tive grande dificuldade em adormecer, não encontrando posição que me acalmasse, entre as mil e uma que experimentei. Ainda ouvi as três horas da manhã e o piar arrepiante da coruja branca fez-me dar, involuntariamente, um salto que despertou um sono quase estabelecido. Mesmo debaixo dos lençóis vislumbrei a “alma do outro mundo” deslizando com agilidade entre ameias e torreões. Depois adormeci morto de cansaço por um final de dia tão próximo do “fantástico”.
Manhã cedo acordei com pressa, pouco usual em mim, de ir para a escola. Uma caneca de leite foi bebida de um só gole e a metade de um papo-seco voou para cima da velha palmeira do quintal, pondo a passarada numa algazarra delirante. A sessão de avisos e recomendações diárias também ficou a meio: –vai direitinho à escola, não te quero com o Tricas que não é boa companhia, se vais para o moinho de vento levas uma sova...
Larguei porta fora em passo de corrida, escapulindo-me furtivamente das redondezas do castelo.
O meu amigo Tricas todos os dias me esperava no cimo da ladeira da escola e logo aí traçávamos o nosso destino para depois da saída das aulas. Nessa manhã lá estava ele, encostado à parede do armazém de ferragens, com o sorriso que punha invariavelmente nos lábios quando tinha segredos que partilhava após negociata favorável. Quando lhe disse bom dia foi direito ao assunto, sem tentativa de extorsão inofensiva do que quer que fosse – trocava sítios de ninhos e de outra bicharada, por rebuçados, bombons ou, raramente, uma moeda de cinco tostões.
«Ontem deixaste-me a falar com o banco do jardim...» – adiantou – «...quando te ia desafiar para irmos ao castelo...  ...tentar ver o fantasma» – ao ouvir a palavra fantasma senti as pernas tremerem como no dia anterior. «Pois fica sabendo que fui mesmo sem a tua companhia...  ...sozinhito...» – deu ênfase à palavra –  «...tirar a prova dos nove ao “medo” que anda a dar cabo das nossas brincadeiras».
«Ali não há fantasma nenhum...» – ficou com a voz suspensa por um instante – depois concluiu: – «...já sei quem se entretém a estragar-nos as noites!».
«Hoje, quando aparecer a Lua podemos ver como se fosse dia...  ...se não tiveres cagunfa» – o Tricas olhou para a mim com um sorriso provocador – «vou contigo para que acredites que falo verdade».
Passei esse dia na escola com grande dificuldade em prestar atenção às lições, apesar das ameaças do ponteiro então muito usado para manter a ordem na sala – hoje, felizmente, método impensável – e à quinta vez que o excesso de produção de adrenalina me obrigou a pedir para ir à casa de banho, fui colocado de castigo na parede do fundo até tocar para a saída – ainda recordo o enorme esforço que fiz para não urinar pelas pernas abaixo. Aproveitei o tempo para engendrar o processo de me raspar de casa à noite e ir ao castelo com o Tricas. Se pedisse para sair depois do jantar seria posto imediatamente a ferros no quarto, castigo que poderia alargar-se a não ver televisão durante o fim-de-semana; se recusasse o desafio do Tricas jamais seria capaz de olhar de frente a cara do meu amigo. Optei por não regressar a casa e fosse o que Deus quisesse.
Ao lusco-fusco segui os passos do Tricas com precisão, sempre colado a ele, e embrenhámo-nos no reino do imaginário. Tinha sido prevenido que convinha andarmos sempre arrimados à parede da muralha para que o luar não denunciasse a nossa presença. Era evidente o enorme esforço que fazia para conseguir movimentar-me – as pernas, a pouco e pouco, mais pareciam pesados madeiros. Apesar da frescura da aragem nocturna o suor brotava por tudo quanto era poro e o coração batia a um ritmo alucinante. O Tricas levava amiudadas vezes o dedo ao nariz, sinal para que fizesse o menos ruído possível e com gestos discretos mandava-me avançar ou deter conforme as suas desconfianças.  A coruja branca piou do alto de uma torre próxima, fazendo um eco assustador e lançou-se a voar mesmo por cima das nossas cabeças com um bater de asas calafriante. Tive que agarrar a camisola do meu companheiro com unhas e dentes para não me estatelar com o susto. Por fim o Tricas segredou que estávamos no nosso posto de vigilância, nem mais nem menos que o grande torreão com dois salientes ganchos talhados em mármore, onde antigamente penduravam toda a espécie de malfeitores. O meu espírito não conseguia sossegar, porque de imediato pensei no fantasma do castelhano, ladrão de cavalos, que ali tinha sido pendurado há muitos anos. Investiguei entre duas ameias se havia gente nas imediações do castelo, esperança de algum socorro se fosse necessário. Vi a frontaria de minha casa e adivinhei o que me iria acontecer quando chegasse muito depois da hora do jantar.
Subitamente uma mão do Tricas colou-se à minha boca, ao mesmo tempo que a outra me sustinha pelo braço esquerdo, interrompendo a minha divagação. Logo fez sinal na direcção do torreão que se erguia à nossa direita, a uma distância de cinquenta passos. Senti o bafo quente da sua respiração enquanto me cochichava para dentro do ouvido: «são dois...  ...estão dentro do torreão... ...subiram pelas escadas da torre do relógio quando espiolhavas lá para baixo».
O Tricas deve ter pressentido que eu estava à beira de desfalecer porque as minhas pernas começaram a fraquejar. Apressou-se a dizer: «não tenhas medo que não são fantasmas...» – e repetiu – «...juro-te que não são fantasmas... ...são pessoas de carne e osso como nós...  ...assim eu não me chame Tricas».
Meti ar nos pulmões, recuperei ânimo e continuámos os dois escondidos, aguardando o que se iria passar.
O tempo parecia estar suspenso – certamente uns minutos bem esticados – mas depois a Lua cheia permitiu-nos ver um vulto de homem e outro de mulher que no cimo das escadas da torre do relógio davam um prolongado beijo de namorados.
Ao fixar o rosto do Tricas apercebi-me que tinha um sorriso velhaco de orelha a orelha quando me perguntou: «sabias que os fantasmas também dão beijos?».
Pudemos vê-los desaparecer na penumbra de uma arcada do terreiro medieval.
Voltei a encher o peito de ar, desta vez ufano por ter acompanhado o Tricas naquela odisseia nocturna. Disse mesmo ao meu amigo: –não vou esquecer o que vi esta noite…, aconteça o que acontecer quando chegar a casa.
Dito isto, eis que nos preparávamos para abandonar a torre da forca, como era conhecida: simultaneamente sentimos um frio gélido percorrer-nos o corpo, ao mesmo tempo que um som pavoroso de relinchar e trotear, vindo do lado dos ganchos dos condenados, nos fazia vibrar os tímpanos e olhar naquela direcção.
Aterrorizados…, sem nada dizer um ao outro…, o que vimos a seguir desencadeou precipitada fuga, seguramente mais rápida que o voo da coruja branca.
Ainda hoje recordo com incómodo aquela aparição – uma silhueta humana…, mais brilhante que a claridade do astro…, permanecia pendurada num dos ganchos de mármore da secular torre dos enforcados.
AC


Saturday, June 25, 2011

















( desenhos de João Paulo)

2ª EDIÇÃO «POR TERRAS DO ENDOVÉLICO»
a decorrer em Alandroal, entre 25 de Junho e 3 de Julho 2011

Thursday, June 23, 2011













Supernova


Quando nasce um poeta
no firmamento aparece
uma estrela, ou um cometa,
que brilha e nos aquece.


Seus poemas são canções
de embalar o Universo,
e deixa nos corações
essa luz, num simples verso.

AC

Saturday, May 07, 2011



















A luz que trago ao dia
a procuro noite fora;
é a escuridão que me guia
até ao "outro", sem demora.

AC

Thursday, April 21, 2011






















Água mole em pedra dura

É uma antiga extracção de granito, algures nos arredores da cidade; nas cavidades, já perfeitamente delineadas, eram colocados entalhes de madeira, depois preenchidos com água; na foto inferior é perceptível um corte anterior na rocha, e in loco observam-se os veios onde madeira e água trabalharam.
Um exemplo de perseverança e determinação que tanto faltam por estes dias...

Wednesday, April 20, 2011
















Fonte da Ajuda,
de água tão fresquinha,
um outro predicado conjuga
pla água ser tão clarinha!

É fonte bem bonita,
com dois arcos enfrentados,
ainda hoje tem a dita
de refrescar os namorados.

AC

Chamo-lhe Fonte da Ajuda porque se encontra numa quinta com o mesmo nome. A estrutura propriamente dita, com pequena arcaria ao estilo neogótico, é precedida de um pequeno átrio com bancada lateral, para repouso e refresco dos sequiosos.

Monday, April 04, 2011











Marcus Anabasius* Miscix**


Andou o “pobre” do Marcus
oito anos na instrução;
com esforços em nada parcos
fez: 30 cadeiras e 1 cadeirão!


Pois surgiu oportunidade:
o amigo em estado de secretário,
e colega de facilidade,
lhe prometeu um numerário.


Muito obrigado Paulinho
esse lugar na Administração
dos CTT: tratarei com jeitinho
por “modesta” remuneração!


Tenho curriculum “bolonhado”,
que muito queimei as pestanas
até ficar transtornado
por de trás das persianas.


O canudo, dou de barato,
para que serve no Correio?
Para carimbar qualquer chato
e uns selos de permeio!


O rapaz é fotogénico,
tem um sorriso baril:
pela pose de halogénico
abotoa-se com 257 mil!

poeta popular

*Anabasius=correio
**Miscix=trapalhão

Saturday, March 19, 2011















"Felizmente há luar..."

...outro igual só em 2029. Hoje é Lua cheia e a nossa companheira astral está no ponto da sua órbita mais próximo da Terra (perigeu)... Felizmente temos direito a um luar intenso e Nobre..., embora seja Março!

Saturday, March 12, 2011

Pêésse no cavaquistão




Indo eu…, indo eu… a caminho de Viseu

Estava o “nosso tribuno” (deles)
apresentando uma moção:
de como seria oportuno
transformar um cagalhão
em algo menos taciturno!

Aplaudiam os “vitalinos”
satisfeitos e honrados,
cantando louvores e hinos,
em coro, mui desafinados,
pelos próprios intestinos…

Chorava sua Excelência,
tão comovido que estava,
por lhe botarem jurisprudência
sobre assunto que empestava
a moção da sapiência! (pestilência)

Eis que entra em cena
a geração dos “enrascados”.
Sua Excelência, qual hiena,
uma risada vira numa cantilena:
nós do Pêésse estamos instalados!

Que divertido… …é o Carnaval!
Estão dez bem mascarados
de "meninos ressabiados"…
E se não se portarem mal
serão nossos convidados (dos “vitalinos”)!

A tropa do Pêésse investiu: (todos do FCP)
“fora… fora… carago… foda-se…
vão prá puta que os pariu…
Chega-se aqui e rouba-se
a atenção ao nosso piupiu”!

O jantar será servido
com a ementa que se segue:
cacete de Viseu endurecido,
molho de vinagrete que chegue
e trombil à chef guarnecido…

…por não pagarem o contributo
para assistir à encenação,
de converter pão e conduto
em sorridente cagalhão.
Assim reza a dita moção!

poeta popular

Wednesday, March 09, 2011

(Des)Protegidos











(No português vejo um homem sério… …até sentir o cheiro do vil metal. Aí perde a cabeça para “proteger“ o que não lhe pertence. O corrupto… ou corruto, segundo o novo acordo para a corrupção da LP)

Estava o povo descansado
por ter na protecção
um homem civilizado
e mui amante da Nação!


De grande bigodaças
e feio que nem um trovão,
disse: tenho cara de trapaças
mas não mexo num tostão!


Acreditou o bom do povo,
isto é, o ministério:
se a galinha pôs o ovo,
o Gil inventou o sério!


Com tanta desgraça a cair
no cantinho Lusitano
fazia-nos falta sentir
a protecção dum bacano.


E se houver um furacão
pode dormir descansado:
o Gil deita-lhe a mão
e faz-lhe um mini-tornado!


Essas notícias do dciap,
sobre o bom do nosso Gil,
não passam de disparate
contra a protecção civil!


São as teorias da conspiração!
Se um homem protege cem mil
vai daí que é ladrão?
Deixem trabalhar o Gil!

Conclusão:

Se os outros a mão metem
porque não hei-de meter?!
Só os outros enriquecem
e eu sempre pobre vou ser?!

AC
(também publicado em www.alandroal.blogspot.com)

Monday, January 17, 2011


O Natal de S. Bendito
By Sir Anthony Clayton


Sua Excelência

Só Traste isolara-se na residência oficial para enfrentar o Natal.
Um ou outro ministro ainda quisera convencê-lo a passar a noite da consoada com a família ministerial mas a resposta fora lacónica: «a solidão do poder é a melhor companhia que posso ter». O Teixoeira dos Prantos, ministro do assalto aos pobres, disse entre dentes: -o raio que te parta…, mais ao poder…, daqui por uns dias, quando o Cabaço te tirar o tapete debaixo dos pés, vais ver como elas te mordem…
Sua Excelência apenas convidara uma ministerial cabeça para passar essa noite no palácio de S. Bendito: o seu ministro da propaganda, e convertido à ideologia do chefe, Dr. César Augusto SSilvão, mais conhecido nos meandros da política por Augusto “contratropedeiro”… ….mas o agora ministro dos quartéis tinha partido de véspera no submarino Tripente, para Trás-os-Montes. Só Traste ficara curioso e alarmado: «como pode este “pássaro” (neste caso peixe de água-doce) chegar de submersível a Bragança… … terá mandado construir uma ligação entre o Tejo, o Mondego e o Douro, sem meu conhecimento… era só o que faltava… lá se vão os ratatingues da República…».
A tropa do PS (Partido Só Trastes) também desafiara o chefe para ir meter o sapatinho na chaminé do palácio Ratão, por onde nos últimos anos tinham caído mais brindes do que estrelas há no céu (há anos de sorte). Mas o SG mostrara-se enfadado…: «ir aturar o Bicefalino… ou o Francisco Bexigoso… ou o manteigueiro do Lambão… ou o Silva Pederneira, grande macaquinho de imitação na moda de se pintar de grisalho… que maçada, não há pachorra…
Não…, vamos ficar em casa, gozando como manda a cartilha dos fortes…, dos génios da política…, dos com lugar marcado na História…, gozando o Poder pelo Poder: o poder de acabar com os pobres matando-os à fome…; o poder de terminar com essa invenção antiquada e retrógrada do abono de família e de desmamar as criancinhas dos leites achocolatados, provado está que fazem mal à saúde…; imposto para nascer é o que cada um deve passar a pagar para ocupar um lugar no país (como dizia um grande estadista: “não perguntes o que o país pode fazer por ti mas diz antes o que tu podes fazer pelo país”)…; o poder de acabar com esse vício mensal que são os salários…; o poder de acabar com o emprego de norte a sul, acabando de vez com sindicatos e manifestações de malandros que não querem é fazer nenhum e só perturbam a ordem e tranquilidade públicas; o poder de cortar com os orçamentos dos hospitais e dos centros de saúde, para não falar do famigerado medicamento, onde o desperdício é tamanho que acabar com ele é não só um balanço positivo na conta da despesa pública, mas também ir à raiz quadrada do problema, isto é, acabar de vez com a doença – sem medicamento não há doença…, acabam-se os doentes…, passamos a viver num Estado cem por cento saudável…; enfim…, o poder de pôr um ponto final no fartar vilanagem que é o ensino… …acabando com os professores acaba-se com o imbróglio das avaliações… …e com as manifes de 120 mil a desfilar na nossa Avenida da Liberdade… …e com a tempestade à volta do estatuto do aluno… …façam como eu que tirei um cursilho por correspondência aos domingos de manhã que me dá para assinar projectos!».

A noite adivinhava-se gélida…, chuvia…, lá fora o vento investia contra as vidraças das janelas a um ritmo alucinante, dando por vezes a sensação de alguém a deambular pelo soalho do andar superior da mansão.
Só Traste estava só, mandara desligar os telefones internacionais não fosse a Merccel ou o Sarkobruni lembrarem-se de lhe interromper a ceia com o Poder, gritando-lhe do lado de lá da ligação, com modos de mandões que tanto irritam sua Excelência: -é pá não há meio de acertares as “contas de diminuir” para convenceres os ratatingues…; e pusera no silêncio todos os seus telemóveis, pois o doido do tio de Cacais teimava numa visitinha com o primo pródigo, acabadinho de chegar da Chinatown… A família é o nosso pior inimigo…
Dispensara também assessores e adjuntos (superboys), entre eles o Ruy Pedra Sujares que partiu com a lágriminha ao canto do olho por não poder ficar ao lado do chefe em tão solene ocasião. Mas deixara-lhe de prendinha de Natal um contrato apalavrado com os castelhanos da Asirp, detentores da TVINVISTA, o que tornava bastante mais fácil correr com o incómodo “Casal”… -Como o chefe vai delirar… quem não delirava ao ver-se livre do dueto de línguas viperinas!
Até os assessores de limpeza e catering (vulgo serviçais/criados), brigada que assegura a rotina do dia a dia no Palácio de S. Bendito, sua Excelência quis vê-los sair antes da sete da tarde. Apenas pedira a um destes que lhe deixasse, em cima da secretária de trabalho, uma manta da serra e um candeeiro a petróleo, «POIS ERA NECESSÁRIO POUPAR ENERGIA PARA CONTROLAR O DÉFICE».
Também lhe tinham deixado, os fiéis serviçais, uns pastelinhos de bacalhau sobrados do jantar de há três dias e um bule de chá de ortigas que sua Excelência tanto apreciava.
Só Traste semi-riu, pois, dada a seriedade do cargo que ocupava, perdera o jeito de dar uma gargalhada franca e aberta, e sorrir era uma expressão humana de bom gosto que nunca assomara à sua moldura facial…; naquela hora de dificuldades acrescidas e desespero nas famílias, semi-riu dessa devoção, que sabia forçada, dos colaboradores que logo no primeiro indício de mudança de rumo seriam os primeiros a atirar-se borda fora.
«Finalmente…, orgulhosamente sóóóóóóóóóóóó…» ecoou o seu grito tarzânico, inesperado, por todo o palácio de S. Bendito. As vidraças das janelas tremeram com uma forte corrente de ar que se gerou e tomou conta dos interiores…, e outro eco medonho foi devolvido para as entranhas da terra.

A Criatura

O eco medonho, que penetrou as entranhas da terra, percorreu todos os recantos de uma cripta subterrânea do palácio de S. Bendito, até então desconhecida dos sucessivos ocupantes, com uma energia tal que perturbou o sono profundo de uma intrigante Criatura já de todos esquecida. Sacudindo o pó de tantos anos com umas enormes asas de morcego, revelou, no meio do breu que pintava as imediações, o seu traço e fisionomia particulares: cabelo branco como a neve que nem a lonjura do tempo desalinhara, fácies pálida, tal e qual como a palidez da morte, olhos encovados de olhar fixo e pálpebras ressequidas, injectadas de vermelho sangue, nariz adunco e afilado, lábios finos como a lâmina de uma adaga florentina, saindo da boca dois dentes caninos quase a tocar o contorno inferior da mandíbula…, e quanto ao mais…, de traje preto, com casaca coçada do tempo, calças de cerimónia fúnebre e nos pés calçadas umas botas pretas destoando do restante aprumo por não serem a condizer com a vestimenta, sobretudo por estarem em impecável estado de conservação.
Ao ser incomodada, pelo eco, em seu descanso eterno, a Criatura, que já tivera um apuradíssimo sentido da audição, estrebuchou repetidamente com esgares horripilantes, levantou-se da poeira que cobria o fundo do seu poiso, dando sinais de ter sido lançada de novo para a vida, isto é, ressuscitada, pois de imediato se perguntou: «onde é que eu já ouvi isto?!?».
Esta Criatura alada com asas de morcegão, dente afiado e botas reflectindo o brilho da própria escuridão, tinha retornado de um descanso mortuário, não se dando ainda conta da energia e poder que acumulara durante 40 anos de clausura na cripta subterrânea do palácio de S. Bendito.
A sua voz de falsete, cuspida do fundo das entranhas, lançando a pertinente questão «onde é que eu já ouvi isto», fez tremer intensamente toda a estrutura da mansão de S. Bendito, como se de um violento tremor de terra se tratasse.

Encontro de gerações…

Só Traste tinha andado a meter a penca depinocada em todas as salas, salões, saguões, águas-furtadas, portas e portarias, corredores e torres de vigia, para evitar ter surpresas nocturnas e assegurar-se que mais ninguém, a não ser ele sua Excelência, respirava no palácio de S. Bendito. E ouviu a voz de estridente falsete que partira dos fundos do palácio, o que lhe desencadeou um suadouro pegajoso por todo o corpo e um mal estar interior que nunca experimentara. Chamou pelo nome de dois ou três funcionários que tinha conseguido memorizar e a resposta veio-lhe do seu interior: nesse fim de tarde despedira todo o pessoal do serviço!? Depois lembrou-se da ajuda preciosa que seria ter o SSilvão por perto, ele era o seu ministro dos quartéis…, só que o ministro tinha marchado a caminho de Trás-os-Montes no submarino Tripente… …ó minha mãezinha me valha… …suspirou assustado! Só Traste disse para si mesmo se não teria sido imprudente a decisão de passar o Natal na mais completa solidão(?). Sentado na secretária do despacho, aconchegou-se o melhor que pôde com a mantinha da serra, disposto a passar em revista os seus debates quinzenais com os insuportáveis deputados da oposição.
Ligou a TV, onde já acondicionara uma gravação com a nata dos seus discursos e réplicas no hemiciclo. Mas eis que uma campainha toca algures, interrompendo o que se adivinhava ser uma noite tranquilamente narcisista. «Quem se atreve a incomodar-me… …hum deixei um télélé ligado… …deve ser o Armandino com mais uma histórica da TVINVISTA… …a gaja não se cala…». Chekados os telemóveis, estavam todos desligados, o trim…trim… voltou a soar! ÓÓÓ… …é a campainha da porta principal! Só Traste franziu o sobrolho, como só ele sabe, com alguma irritação habitual em homens de estado, em ocasiões deste tipo, e accionou o intercomunicador. «Quem é… … não está cá ninguém… … esta voz é uma gravação inventada no parque tecnológico!». Só Traste ficou apreensivo, colado ao auscultador. E ouviu a voz que falava por todos: -somos nós senhor… … os pobres de Portugal… … os desempregados… …os esfomeados… … os adoentados… …os pais e as mães deste país… …os nossos filhos têm fome, pedimos uma ajudinha, um abono para um Natal mais quentinho… …sabei senhor que aqui fora está um frio insuportável que nos gela o sangue…
Só Traste foi então arrancado desse turpor, em que ficara agarrado ao intercomunicador, por um toque áspero e frio que o percorreu de cima abaixo e da frente para trás, quase lhe petrificando as vísceras internas. Sua Excelência queria…, mas não queria… voltar-se, tal era o pânico do seu estado de alma a partir do momento em que o toque gélido lhe pressionara o ombro. E para complicar essa situação incómoda, verificou que lhe era impossível movimentar a perna direita… e a esquerda também… e os braços sempre tão activos e decididos, eram agora pertença de uma estátua de pedra… Apenas a sua cabeça conseguiu rodar ligeiramente sobre o pescoço, na direcção em que tinha sido tocado…
Uma Criatura, de olhos encovados e trespassantes, estava postada atrás de si, deixando-o em estado de petrificação absoluta quando a sua Excelência se dirigiu com voz esganiçada de falsete: -então o moço é quem atende à porta… … o porteiro?
Só Traste, tal como não movimentara uma única articulação, também ficara paralisado das cordas vocais, emitindo somente um quase imperceptível «eheheheh…» a tão cruel pergunta.
A Criatura voltou a interpelá-lo, para seu pavor: -então o rapaz é mentiroso…, gosta de enganar o povo…, sabe que é muito feio mentir…, principalmente ao povo… E rematou: -aqui eu digo sempre presente!
Felizmente Só Traste conseguiu sonorizar aquele seu potente grito tarzânico, sem o que teria ido desta para melhor. Gritou tanto… tanto… tanto… que, todos os da casa, lhe diagnosticaram um grave estado de nervos…, quase à beira da loucura.
«Acordara de um sonho mau…, sem dúvida…, mas estivera frente a frente com “ele”… a personificação do Poder…»

PS: Diga-se, em abono da verdade, que qualquer outro político à portuguesa teria sucumbido perante tal visão!

Saturday, November 06, 2010

Açorda com Caldo Verde















Texto e fotografia: Luis Galhardas
Ilustração: Paula Costa

Anacleto Galhardas foi professor, lavrador e da oposição ao regime salazarista, mas acima de tudo foi um ser humano respeitável.
Semeou amizades por todo o lado.
Tive a sorte de ser seu sobrinho e amigo, e com ele ter privado em lindos dias da minha infância.
Um abraço, até sempre.


É preciso deixar assentar o pó, dizia o meu tio Anacleto para a rapaziada que amiudadas vezes o acompanhava nas suas andanças por montes e olivais.
Professor por vocação leccionara, na plena força do Estado Novo, em Vila Viçosa e Évora, e fora posto à margem por ser, descaradamente, contra o regime de Salazar.
Em cada aluno plantara um amigo.
Era agora um jovem agricultor de 40 anos e comprara um jeep land rover que enchia com filhos, sobrinhos e amigos de todos, nas suas frequentes idas ao campo levar mantimentos aos ganhões e ver como iam as coisas da lavoura.
O vício de ensinar era grande.
A lição começava quando punha o jeep a trabalhar e só terminava no fim do dia, à chegada ao Alandroal.
As histórias sucediam-se melodiosamente, umas por ele imaginadas, outras sobre acontecimentos reais de então, sempre com a finalidade de ensinar, de nos despertar a curiosidade que depois satisfazia com argúcia, de nos ajudar a fazer homens.
E se algum dos rapazes não atingia o clímax da lição dizia com a doçura de um sorriso único: deixem assentar o pó que se vê melhor.
Seu sobrinho Luís Fernando era companheiro predilecto nestes vai vem ao monte das Misericórdias, monte do Safoeiro, Quinta da Fonte das Freiras e outros lugares que visitei pela primeira vez com ele, naquele tempo grandes passeatas para um miúdo de cinco anos.
Tio e sobrinho nutriam grande amizade um pelo outro, mais parecendo pai e filho.
Numa bela manhã de Outono foi-me desafiar a casa de meus avós para ir com ele ao campo.
Agarrei-lhe a mão e já não a larguei, ainda assim não fosse a minha mãe dizer que não podia ir.
Como era habitual, choveu uma saraivada de recomendações: ...não o deixe ir para o pé dos poços, não lhe dê fruta sem ser lavada, e por aí adiante.
O meu tio, para quem eu olhava a pedir partida, sorriu e piscou-me o olho à socapa.
Meus pais, influenciados pelo meu avô paterno a quem tudo fazia mal aos intestinos, apesar de ser médico, proibiam-me de comer um sem número de manjares que muito apreciava: chouriço, toucinho crú da salga, melancia..., que tudo podia provocar diarreia e enterites.
Nessa manhã lá fomos os dois, envoltos nessa amizade que sempre nos ligou, a caminho do monte do Safoeiro.
Diverti-me imenso, como sempre, correndo atrás de bezerros e cabritos, topando uma pequena cobra que procurava esconderijo, assustada com os meus pinotes ao descobrir um “ninho de cuco”, assinalado pelo moiral das vacas que, ingénuamente, acreditei ainda ter ovos.
Chegados ao fim da manhã com léguas andadas a percorrer a herdade, a fome era muita.
Parece-me que estou a ouvir a gorda cozinheira que mal cabia na porta do monte e com um rabo maior que qualquer cadeira ou banco da mobília: o menino hoje vai comer uma açordinha com azeitonas, feita cá pela Henriqueta!
Ao ouvir falar em açorda e azeitonas, que estavam entre as muitas comidas proibidas, fiquei aflito, encostei-me à perna do meu tio, toquei-lhe na mão e balbuciei: tio, eu não posso comer isso…, se a minha mãe sabe bate-me!
Logo ele com cara séria, mas meiga e tranquilizadora, me encorajou baixinho, em jeito de segredar: tu lá em casa não comes caldo verde?
Pois a açorda é o mesmo, podes comer à vontade que não te faz mal!
E quando chegares a casa dizes que comeste caldo verde que não estás a dizer mentira nenhuma.
À tardinha, à pergunta certeira de minha mãe sobre o que tinha almoçado no monte, respondi com segurança:
“Açorda com Caldo Verde”.


Sunday, October 24, 2010













Photograph: Graeme Robertson

Silenciado a bordo

Jimmy Mubenga, angolano, 46 anos, residente no UK desde 1994, casado com Makenda Kambana (42 anos), pai de vários filhos com idades entre os sete meses e os 16 anos, camionista até 2006, ano em que se envolveu numa desordem num bar londrino, e por tal motivo condenado a dois anos de prisão e posterior ordem de deportação para o seu país de origem – Angola – que viria a ser executada(o) a 12 de Outubro passado.
Jimmy abandonara Angola, com a família, por motivos políticos, não desejando regressar por receio de represálias.
No voo BA 77 foi “silenciado” por três (in)seguranças (vulgo “gorilas”) privados, que o acompanhavam no regresso a Luanda, com brutalidade q.b. para que Mubenga fosse impedido de respirar ainda antes do BA 77 levantar  voo em direcção ao seu destino.
Por ser de grossa estatura Jimmy Mubenga foi difícil de silenciar. De nada lhe valeu reclamar «não consigo respirar…, não consigo respirar»…, ou «ajudem-me»…, ou «eles vão matar-me».
Ninguém mexeu um dedo por Jimmy Mubenga… e todos a bordo ouviram os seus gritos de desespero.
Onde estavam os elementos da tripulação da aeronave…, o seu comandante – responsável máximo por tudo o que acontece (ou não acontece) a bordo?
Vários políticos britânicos interessam-se agora pelos métodos de deportação em uso no país, reclamando uma «investigação ampla e independente»…, the usual!
Os três “silenciadores” foram ouvidos e libertados sob fiança. Para tão zelosos funcionários a empresa de segurança G4S abriu os cordões à bolsa.
Mas como vai a justiça de sua majestade tratar a tripulação e todos os passageiros do voo BA 77, que, serenamente sentados nos seus lugares de viagem, presenciaram o silenciar de Jimmy Mubenga como se assistissem a uma fita de acção Hollyoodesca.

AC

Wednesday, October 13, 2010

ÚLTIMA POESIA?...

Se eu não escrever mais nenhuma poesia
Fica aqui uma última e derradeira homenagem,
A todos os poetas do mundo na sua viagem...
Pelas palavras autênticas que cada um escrevia!

Depois sigo o meu caminho na noite estrelada
Com a esperança, enfim... de ter alguma calma,
Já não estarei quando chegar a madrugada...
Para onde será que vai descansar a alma?

Talvez encontre o caminho dos poetas mortos
Ou outro qualquer lugar onde me abrigar;
Eu que no mar atraquei em tantos portos,
Porque não hei-de mais uma vez navegar?

Última poesia?... será mesmo que vou escrever
Neste poema toda a magia das frases escritas?
Num golpe de génio deixar a escrita acontecer…
Escrevendo assim quanto penses e sintas!

Matias  José

Saturday, October 09, 2010

John Lennon (1940 - 1980) Músico Filósofo Poeta Beatle Good person Pacifista New York Lover Imagine Stand by me Give peace a chance Mother Come together Get back... Happy birthday Mr Lennon (fotografia Google)

Wednesday, October 06, 2010















Moinho  do “ti” Zé Maneta

Já não o podemos ver
está debaixo do "Alqueva"
que não acabou com a esteva
mas acabou-lhe com o ser.

Era do ti Zé Maneta:
fez alimento com fartura,
noutro tempo, sem usura!
E que boa era a "caldeta"!

 É grande recordação,
pois recordar é viver
como dizia a canção,
mesmo depois de morrer...

AC

 



Moinho do Guadiana – “ti” Zé Maneta
(submerso pela barragem do Alqueva)

Debaixo d’ água e triste
está o moinho encantado,
que ideia lhe assiste
de tornar ao antigo fado.

Voltar a sentir-nos a alma,
dando-nos sombra no estio;
e num fim de tarde calma
para nos acompanhar no rio…

Velho Moinho do “ti” Zé,
que saibas: aprendemos a lição,
mesmo já não te tendo ao pé
guardamos-te no coração.

AC

ALENTEJANOS ILUSTRES





"A Propósito" de Manuel Inácio Pestana (1924-2004)

Homem de imenso saber, da cultura, historiador, investigador, pedagogo, autor de extensa bibliografia, fundador, com Joaquim Torrinha, da revista Callipole - uma das suas paixões. Alguém com conhecimento de causa, que não eu, fará a sua biografia.
Nasceu no Alandroal, em 1924, e a sua vida decorreu entre duas terras de adopção: Portalegre e Vila Viçosa. Nesta localidade esteve longos anos ligado à Casa de Bragança, como seu Arquivista e Conservador. Foi onde tive a sorte de o conhecer, discreto mas despretensioso, afável, sempre disponível.
Ao Alandroal legou todo o seu vastíssimo espólio literário.
Aqui se publica este seu pequeno mas riquíssimo escrito sobre os vinhos do Alandroal: A FAMA DOS VINHOS DO ALANDROAL PERDIDA E NÃO RECUPERADA (publicado no jornal Diário do sul, onde era colaborador regular). Uma sua chamada de atenção, que felizmente teve eco.

Vem a talho de foice, agora que decorre em Borba a 6.ª Festa da Vinha e do Vinho e se presta homenagem à excelente qualidade deste produto e se evidencia a importância da actividade vitivinícola da região na economia nacional, vem a propósito – dizíamos – recordar o que foi a produção de vinho e a cultura da vinha no termo alandroalense.
A fama dos vinhos do Alandroal remonta aos tempos medievais da formação da nacionalidade, pois já D. Dinis preferia para a sua adega real – segundo lemos na “História de Portugal” de Damião de Peres – os vinhos de Lisboa e os do Alandroal, assim como aquele “bom vinho vermelho e branco” de que a administração municipal do Porto mandou encher dois odres para oferecer a um legado pontifício que em 1390 passou por aquela cidade. Afirmava-se ainda a qualidade excepcional dos famosos vinhos do Douro e dos arredores de Lisboa, talvez os de Carcavelos, Bucelas e Colares. A par destes sobressai então o vinho alentejano do Alandroal, com tais razões se tornou afamado que já o Mestre de Avis Martim de Avelar (1364) inventariava uma importante adega nesta vila nos seguintes termos:
“Uma adega em que estão dez talhas de vinho branco cheias e três cheias de rosete e oito de vinho vermelho;  “as cinco de bom vinho e três de mau, e duas talhas quebradas a uma tinha [tina] e um cocho [tabuleiro] de pisar tinta.
“Está uma talha de vinho na adega de João dos Passos e o vinho é do mestre e a talha de alquiel, [aluguer] e o vinho é furmigento.
“Está uma cuba na adega de Madriana Martins e o vinho do Mestre […]”.
E ainda no séc. XVIII (1756), quando os moradores de Borba, já então região privilegiada de produção vinícola, reclamam a defesa dos seus vinhos perante o incremento do plantio de vinhas nos termos vizinhos, citam-se, além de Elvas, Olivença, Campo Maior e Estremoz, precisamente o Alandroal.
Cremos que a quantidade de produção e a qualidade destes vinhos se mantiveram por largo tempo, até ao ponto de encontrarmos o registo de uma significativa representação deles na grande Exposição Portuguesa realizada em Lisboa em 1888.
Estávamos ainda no período da chamada “Revolução Verde” que desde os meados do século se caracterizara por um aumento da produtividade agrícola no país, em que, embora diminuindo a produção de trigo por força da concorrência americana aumentava a do milho e proporcionou o incremento do plantio de vinhas em substituição das searas. Por outro lado, a filoxera já dominava a Europa, de modo que em Portugal as perspectivas de exportação de vinho anunciavam-se promissoras. A crise viria atingir Portugal mas só em 1890 e daí em diante, a filoxera responsável também mais adiante: ”Entretanto, como dizíamos, o Alentejo e nele o Alandroal produziam cada vez mais e melhor vinho. Temos então, para remate desta notícia, que na referida exposição agrícola do Alandroal se apresentaram com os seus vinhos os seguintes produtores: António Joaquim Barbas e António José Biga, Joaquim José Fernandes e José Mariano Carvallho Faleiro – que eram os maiores produtores do concelho – e ainda António José Neves, Bárbara Luísa Matroco, Catarina Rita Cordeiro (Monte dos Pobres), Emídio José Simões, Fortunato José da Fonseca, José Madeira da Silveira Belo, José Joaquim Mendes, José Pedro Galhardas, Martinho José Galhardas, Joaquim Diogo Morte e Joaquim Lopes Godinho. Apresentaram vinhos tintos, brancos e licorosos (A. J. Biga) Aguardentes (A.J. Biga, E. J. Simões, F. Fonseca e J.J. Fernandes).
As quantidades de produção anual de alguns destes vinicultores alandroalenses superavam de longe as de qualquer outro dos muitos expositores do nosso distrito, o que vem demonstrar como na realidade eram de fama os vinhos desta terra, hoje perdida reduzida que, após a doença das vinhas, se tornou encaminhada a produção para as cooperativas da região, quando, historicamente pelo menos, se justificaria hoje a existência no Alandroal da sede uma região vinícola incrementada como me parece tem vindo a ser a plantação de vinhas no concelho.
Por tudo quanto fica dito, não merecia o Alandroal a homenagem dos actuais industriais da produção vinícola desta região, lembrando o seu nome numa das marcas comercializáveis?