Friday, October 05, 2007

A rua do arco





















































A nova geração











EXALTAÇÃO!


Évora, do Alentejo a encruzilhada,
das “vielas” e dos becos sem saída...;
o grande e terno amor da minha vida,
sobre o meu leito sempre debruçada...!


Évora uma beleza delicada
de graciosos encantos revestida;
onde todo o artista tem guarida,
por cantores e poetas exaltada!


Do antigo e etéreo “coro dos meninos”
a grandiosidade magistral
donde brotavam cânticos divinos...,


Évora, “Património Mundial”,
a cantar pela voz dos velhos sinos
da sua majestosa Catedral!...

(soneto de José Camões Galhardas)

Thursday, October 04, 2007




gosto de castelos,
de cada um em particular...,
porque são velhos e são belos...
o que é raro não é vulgar...




Convento da Flor da Rosa

Sede da ordem militar de S. João do Hospital ou dos Hospitalários, que para aqui se transferiu de Leça do Bailio, sendo então seu prior D. Álvaro Gonçalves Pereira, pai de D. Nuno Álvares Pereira. (hoje tem anexa uma pousada, que ao tempo da fotografia não existia)
AC

Sunday, September 30, 2007


Poeta

O poeta escreve a rima
por dom de inspiração
e por mui sentir estima,
que lhe vai no coração…,
mesmo que se chame ilusão!


O poeta escreve do amor…,
da ternura…, da paixão…
Mas vive com sua dor
e horas de solidão:
sofrer há por devoção.


O poeta escreve da vida
sempre com letra dourada;
e de forma tão sentida,
que chega a ser desejada
essa vida, que é forjada.



O poeta não escreve a fingir,
tudo o que sente é verdade.
Está na alma esse sentir...,
que o não deixa mentir.
Com toda a sinceridade…

AC

Sunday, September 23, 2007

Fonte do Pomar do Espinheiro

Construída no séc. XVI, em propriedade pertencente ao convento do Espinheiro.
Tem motivos da arte manuelina-mudéjar.
Sítio: perto da povoação da Graça do Divor, passando a antiga estação do caminho de ferro, sentido Graça – Évora, do lado direito da estrada vê-se muito bem.
Atenção que é difícil estacionar. Sugerimos o agradável passeio de bicicleta pela ecopista, onde há sinalização do monumento.
***
Bonita fonte há no campo,
mais bonita que a da cidade;
é para quem ouve um encanto
escutar o seu belo pranto
que nos traz a saciedade.
***
A quem tem sede acode
e o calor mata nas almas,
ao rico e a quem não pode,
dá fartura a quem se acolhe
à sombra, nas tardes calmas.
AC

Sunday, September 16, 2007

Alentejo - "Sol posto"













A hora é de silêncio, ensurdecedor,
e de respeito pelo Astro
que vai descansar, em seu pudor,
longe da Noite, num outro rasto.

AC

Sunday, September 09, 2007














Mar de luz...


Os raios solares atingem, enfim, o mar, depois de uma longínqua e vertiginosa viagem, desenhando à minha frente um caminho prateado que me convida.
Ouço o som da dança das ondas, que a leve brisa sopra até mim e torna mais nítido, ao mesmo tempo que me inflama as narinas com o cheiro da maresia.
É fim de tarde na praia que conheço desde sempre.
ML toma um banho apetecível, gesticulando de longe para que a acompanhe. A brisa também transporta o seu recado: -vem …, a água está um caldo…
Por agora prefiro a companhia de Vergílio Ferreira – “aparição”. Estou embrenhado na leitura que julgava ter acontecido há muitos anos, mas tudo o que leio, ou releio, é-me presente, como se tivesse sido ontem a frénetica procura do “eu”, entre a serra beirã e a planície alentejana.
ML, delicadamente, interrompe a leitura para dizer «foi o melhor banho dos últimos vinte anos...».
Arrumo o livro no saco de praia para apreciar o mar. O Sol vai mais baixo no horizonte, no seu ritmo diário, repetitivo. O caminho de luminosidade prateada transforma-se noutro, cor de fogo. Fecho os olhos, sonho, apetece-me entrar mar adentro, percorrê-lo nessa viagem em sentido contrário. Vejo uma imensidão de estrelas sobre o mar…, o Universo!
Acordo bruscamente com a algazarra da rapaziada que joga à bola…, não se entendem quanto às regras do jogo.
Continuo a observar o mar de olhos bem abertos, até onde a visão mo permite. Barcos passam na lonjura, ou mais perto, ludibriando quem os enxerga.
A algazarra da rapaziada volta a captar-me a atenção: agora não se entendem quanto ao número de golos marcados. Um deles chuta a bola na minha direcção…, quando tento desviar-me desequilibro-me e faço uma pirueta na companhia da velha cadeira de praia.
Toca a arrumar o estojo…, são horas de procurar sossego!
(praia de S. Torpes-Set. 2007)
AC

Monday, August 27, 2007













Há um castelo no monte,
no meio de belas vinhas,
e dentro tem uma fonte
de águas mui limpinhas,
para encher as cantarinhas.

Tem uma moura encantada
essa fonte d’ água cristalina,
que é por ela derramada
desde o tempo que foi chorada...
...dizem que bela menina.

AC



Friday, August 24, 2007










Mar (a Miguel Torga)

Ó Mar sem fim...,
Mar das caravelas,
que me tens a mim
porque navego nelas.

Ó Mar oceano…,
Mar imenso...,
do navegador lusitano
a que pertenço.

O Mar, sempre o Mar
dos nossos avós…,
porque a palavra navegar
a descobrimos nós!

AC

Wednesday, August 22, 2007


Crepúsculo
Apaga-se a chama
no ocaso da vida
de quem, então, clama
uma nova guarida...
AC

Thursday, August 09, 2007











A estação da Felicidade...




Na velha estação há muito que não passa um comboio.
A azáfama dos passageiros que vão e que vêm, as últimas recomendações dos que ficam aos que partem, uma menina de franjinha, com lágrima no canto do olho, assoma a uma janela embaciada de onde vê, pela última vez, o avô, um vendedor ambulante procura despachar os últimos bolos, o homem corpulento de bigodes retorcidos e boné branco dá o sinal de partida com a corneta sibilante, um último passageiro surge em desalmada correria na gare, suando em bica com o peso da bagagem...
Nenhum dos frequentadores da velha estação tem memória de um cenário assim.
O edifício tem sido carcomido por muitos anos de abandono – janelas e portas estão definitivamente escancaradas a toda a espécie de bicharada – o nome do local, por cima da porta da gare central, ainda conserva uma letra bem composta e a erva daninha esburacou pavimentos e paredes, a seu belo prazer, fazendo das salas de espera um autentico matagal.
Ouve-se o vento que sopra frio entre postigos e não tem tempo de parar ali...
Nas traseiras do casario decadente uma pequena casa contrasta com o amontoado de ruínas e lixo – as paredes mostram a alvura que lhes é própria, fazendo evidenciar a toda a volta um rodapé azul forte e as madeiras exteriores, pintadas de cinzento, apresentam um estado de conservação impecável. Até o telhado tem aspecto de arranjo recente.
É o bar da Felicidade. Confunde-se o nome do estabelecimento, com o da respectiva patroa que atrás do balcão atende os fregueses de copo de cerveja em punho.
Quando se fixa a figura de Felicidade dois pormenores sobressaem: –os olhos, com sobrancelhas postiças que lhe dão um semblante sempre franzido, denunciam a qualquer hora do dia ou da noite uma boa dose de álcool já ingerido; –e os lábios, que ressaltam à distância devido ao batôn vermelho berrante aplicado em sucessivas camadas.
O resto do seu conjunto também tem um aspecto confrangedor, a começar pelo cabelo que mais parece uma pasta de tinta arruivada, em completo desalinho, e onde até mais de metade do comprimento se vê a cor original branca; depois a multidão de rugas semeadas por todo o rosto, as roupas de cores chocantes com nódoas que se vão sobrepondo umas às outras e, para cúmulo, esta mulher de mais de sessenta e cinco anos usa uma mini saia descarada que lhe põe à mostra umas pernas ressequidas, cheias de pêlos. E ainda ouro, muito ouro, entre anéis, pulseiras, correntes, pregadores, brincos e até um relicário, meio enfiado entre os seios avantajados, contendo a fotografia muito sumida do marido falecido há trinta anos.
Acácio vendia guloseimas e bebidas frescas nos comboios que nesse tempo andavam cheios de magalas e de passageiros anónimos que iam e que vinham à procura de vida. Felicidade também corria de comboio em comboio, sempre naquele que transportava mais soldados – ela atrás deles para se governar e eles no seu encalço para descomprimir as horas de tédio passadas semanas a fio no quartel.
Foi num desses comboios que Acácio e Felicidade se conheceram, se amaram, se entregaram definitivamente um ao outro e, de comum acordo, resolveram que era tempo de se apearem na próxima estação, fosse ela qual fosse.
Em princípio de vida montaram o bar na movimentada estação de S. Romão, um entrecruzamento ferroviário da importante linha do Sul com a de Este.
O negócio das sandes e das bifanas foi de vento em poupa. Acácio prosperou rapidamente e teria ido longe, não fosse trucidado pelo Sudexpress devido ao hábito e excesso de confiança em transpor a via férrea de um lado para o outro, naquele dia fatídico à hora de passar o Sud que não fazia escala em S. Romão. Este acidente impensável sufocou a vida arejada de Felicidade que acreditava, com fé inabalável, ter desencantado numa carruagem do Sudexpress o homem que mesmo em sonhos é difícil existir. Fora ele que, conhecendo a faceta desagradável da sua vida, pegara nela ao colo no dia do casamento, com toda a ternura que tinha dentro de si e jamais deixara de a apaparicar com a satisfação das mais pequenas vontades que lhe adivinhava.
Naquela tarde fria mas com uma luminosidade fora do habitual, Felicidade assistiu ao espectáculo macabro da recolha dos destroços do marido para o caixão depositado na gare central e pensou que no mesmo esquife seria sepultada a sua alma, precocemente arrancada do corpo por desgosto tão grande. Jurou que não voltaria a casar-se, em memória de Acácio que naqueles breves anos em comum dera à sua vida o pleno sentido do nome que ela usava desde a pia baptismal.
Os fregueses do bar da velha estação, que pululam à sua volta como abelhas em torno do mel, desconhecem as alegrias e tristezas da vida de Felicidade. Mas das misérias da velha “empresária”, consumida pelo tempo, estão a par delas como se de segredos das suas vidas se tratassem.
Alguns ainda se recordam vagamente da passagem dos comboios, do grande corrupio de gentes e da primitiva função do antro que agora frequentam assiduamente.
Os comboios foram-se atrasando e o tempo trouxe desemprego e outras calamidades. Finalmente deixaram de passar.
Mas é sabido que não foi por isso que Felicidade entregou o corpo ao álcool...

AC

Monday, July 23, 2007

Alburquerque
(raia fronteiriça Campo Maior - Ouguela)













Praça de Armas:

cepo de decapitação










escudo muçulmano











escudo português

Sunday, July 08, 2007

Thursday, June 28, 2007

O Bom Observador









À primeira vista as duas fotografias parecem ser da Anta-Capela de S. Brissos... Encontre as "pequenas diferenças" entre estes dois monumentos.

Tuesday, May 01, 2007

O Primeiro 1º de Maio


Recordo que estava calor e uma luminosidade deslumbrante…
Ouvia-se a canção do Zeca Afonso: «Maio, maduro Maio, quem te pintou…»
O fim de Abril anticipara Maio. A onda popular, sedenta de liberdade, arrastara os militares para o seu lado.
AC

Naqueles dias que se seguiram à onda avassaladora da revolução popular, passeávamos pelas ruas da Cidade, de manifestação em manifestação, apoiando e encorajando o MFA. O clímax desses dias, que passaram velozmente, tão cheios de peripécias e acontecimentos inesquecíveis eles foram, aconteceu no primeiro 1º de Maio.
Na véspera desse dia, uns tipos, que ninguém vira antes na cantina da Faculdade, apareceram por lá dizendo que pertenciam ao MRPP, movimento revolucionário verdadeiramente representativo dos camponeses e da classe operária, ao lado de quem os estudantes se deviam imediatamente colocar, juntando-se em massa na festa do 1º de Maio, dia de luta e regozijo de todos os que queriam estar sempre..., sempre ao lado do povo...
O sujeito que falava usava um bigode farfalhudo, o que me fez imediatamente associá-lo a um dos quatro camaradas afixados por tudo quanto era parede e recanto das Faculdades.
Era um fim de tarde apetecível, pulverizada de perfumes primaveris, quando me juntei ao Custódio e ao Baltazar à hora do jantar, na esplanada improvisada que os estudantes montavam à entrada da cantina da Faculdade de Ciências.
Depois de me sentar junto deles, o Baltazar – o que dominava melhor os assuntos políticos do momento – pôs o mote na conversa.
«Consta que amanhã haverá uma grande manifestação..., o MFA declarou o dia feriado...».
O Custódio riu-se para mim, à socapa, e depois argumentou com o Baltazar: «ó senhor engenheiro, feriados não deixas escapar um..., e mais um que fosse..., pois a boa vida não cansa, nem pesa...».
«Mas amanhã é mesmo o dia do trabalhador..., e dia do trabalho...», disse o Baltazar, ao mesmo tempo que encolhia os ombros com ar de irritação, «só na merda deste país era proibido festejá-lo!».
Acabámos de comer. A conversa ficou por ali, pois um grupo de colegas do género feminino, que se acomodara por perto, absorveu inteiramente a atenção do nosso amigo Baltazar.
Dei comigo a bocejar por várias vezes, morto de cansaço, de quatro ou cinco noites mal dormidas pela azáfama daquelas primeiras horas de liberdade. Anunciei que me retirava em direcção a casa. O Custódio, piscando-me o olho, ainda tentou aliciar-me: «não vás Luís..., que a noite promete...».
Prometi a mim próprio ir descansar..., «dormir uma noite como deve ser...». Arrumei as minhas coisas e fui-me encaminhando para o portão da Faculdade. Um deles gritou: «todos à Manif do 1º de Maio!»
Desci a Rua do Salitre numa correria desenfreada, pois deixara-me dormir até manhã adiantada. O som dos meus passos foi-se misturando com um ruído de fundo, compacto, que subia a rua até me atingir os tímpanos e ao mesmo tempo aumentava de intensidade com a minha deslocação. Interroguei-me, tentando adivinhar o que seria, mas nesse instante fui envolvido por um mar de gente que inundava a Avenida da Liberdade.
Nunca tinha assistido a nada igual! Uma gigantesca onda humana enxameava por toda a avenida, que ficara aguarelada com a cor dos cravos vermelhos que cada um tinha na mão.
A Revolução adoptara, definitivamente, o símbolo das flores.

Wednesday, April 25, 2007

25 DE ABRIL


Passaram 33 anos sobre o 25 de Abril, dia mágico..., inesquecível..., vivido então intensamente por um jovem estudante da Faculdade!
Recentemente fui buscar à prateleira da memória alguns apontamentos, gravados como instantâneos fotográficos e que tomaram a forma de novela – A Casa de D. Vicência – a aguardar melhores dias em ficheiro de computador. Este pequeno excerto representa um estado de alma particular desses primeiros dias de liberdade...
AC


O excesso de D. Vicência

Em casa de D. Vicência a casa de banho era uma espécie de sala de estar do início da manhã, ponto de encontro frequente de alguns hóspedes que durante o resto do dia não se viam mais. As conversas cruzavam-se enquanto um tomava duche, o outro se barbeava e um terceiro fumava um cigarro com ar ensonado e taciturno...
Nessa manhã, quase do fim de Abril, D. Vicência excedeu-se. Entrou de rompante na marquise adaptada a casa de banho, com rubor facial evidente e mão na anca, sentenciando: –ninguém sai de casa..., ...há uma revolução na tropa..., ...estão a dar a notícia a toda a hora na rádio...
Eu, que estava no duche, cobri-me com as mãos o melhor que pude e D. Vicência dirigiu-se-me com ar decidido, antes de sair: –está a esconder o quê menino?..., ...que lhe faça proveito se o quer escondidinho...
É verdade que fiquei embasbacado mas o Custódio, mal a viu de costas, fez um gesto com o dedo em direcção à cabeça e, enquanto se desmanchava a rir, ia repetindo quase sem fôlego: –a velha passou-se..., a velha passou-se...
O estudante de engenharia Baltazar Galante – o apelido não encaixava no aspecto: uma trunfa que nunca penteava, a barba um autêntico matagal e pêlos por tudo quanto era sítio do corpo – deu entrada na casa de banho depois de quase ter sido atropelado por D. Vicência. Apesar de trazer o rádio colado ao ouvido, o aparelho tinha o som no máximo, o que distorcia ora para os graves, ora para os agudos, a voz de quem transmitia as notícias.
O Custódio – com ar de incomodado – lançou-lhe um aviso com tom de ordem: –baixa isso «barbudo», que eu de manhã acordo sempre com dores de ouvidos..., ...cala esse «gajo»..., ...e põe música!
Baltazar Galante, pelo modo autoritário do Custódio, anotou que naquele sítio – a casa de banho – onde «as últimas» chegavam velozes com os primeiros raios de sol que batiam nas vidraças, a acompanhar um corrupio de entradas e saídas de gente que se queria despachar para chegar a horas às aulas, ao emprego ou à repartição e que, habitualmente, já tinha ouvido o noticiário das sete, que despejava «as primeiras do dia»..., ...sim, naquele dia de acontecimentos tão importantes mas cheios de incertezas sobre o que se iria passar nas ruas da Cidade... – um ensaio deste género, pouco tempo antes, voltara à base com a polícia no encalço – ...sim, ninguém se lembrara, nessa manhã, de ligar um rádio..., ...ninguém na casa de banho estava ao corrente do movimento da tropa nas ruas da Cidade.
–Espera aí ó Custodinho..., ...desliga mas é a coisa da tua prima que anda a trabalhar muito...; então os meninos, a fina flor da esquerda das Faculdades – gozava, deliciado – não sabem que a tropa está a tomar conta desta merda? Baltazar Galante – em vantagem uma vez na vida – estava irritado e o tom da conversa foi em crescendo até à última palavra que ecoou por todo o 4.º andar do n.º 69 da Rua do Salitre. Logo de seguida ouviu-se a voz esganiçada de Teresinha que sondava – em limpeza – nas imediações da casa de banho, para ouvir e ir contar a D. Vicência: –Jesus..., ...menino..., não seja malcrriado..., está em casa de uma senhorra sérria..., e há clientes no corredorr...
Nessa manhã não houve paródia, nem qualquer tipo de chacota, com a espionagem doméstica da zelosa Teresinha.
O nosso equívoco foi não ter compreendido o excesso de D. Vicência...
–Põe o cantante no máximo – o Custódio virou a conversa do avesso, aos berros.
A casa de banho ficou num silêncio reforçado, onde nada mais se ouviu para além do rádio de Baltazar Galante: –aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Hoje, dia 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas consciente de que interpreta a vontade e o desejo da maioria do povo português... ... ...
A transmissão foi interrompida com um pedido de desculpas e a água que continuava a correr do chuveiro inundou-me a alma ao som do Grândola Vila Morena...
O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História
O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Monday, April 23, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História
O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Sunday, April 22, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Friday, April 20, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Thursday, April 19, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Wednesday, April 18, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História (Arquivo Diário do Sul)

Sunday, December 03, 2006


Breve conto de Natal


texto: Luis Galhardas
ilustração: Paula Costa



A cidade adormece num cenário quase rotineiro.
Quase..., porque esta noite instalou-se um frio de rachar, que penetra impiedosamente quem o enfrenta.
Só este componente atmosférico desagradável diferencia esta noite da anterior e de muitas noites antes desta, que foram metodicamente iguais.
Nos locais habituais onde as estrelas são visíveis com um simples arremelgar ou onde o vento se faz sentir, endiabrado, sem outra sorte que não seja suportá-lo, os mesmos vultos, sem nome e sem destino, acomodam-se o melhor que podem, com a esperança irrisória de que mais uma noite passe.
Tento afastar-me, abafado no calor aconchegante do meu sobretudo de burguês, fugir a sete pés daquele local habitual onde “descansam” vultos humanos sob pilhas de cartão prensado.
Um grupo de crianças soa a alguma distância com a alegria estampada nas vozes que procuram afinar a canção: –é Natal, é Natal, já nasceu Jesus...
Um dos vultos, sob a amálgama de cartão prensado, pragueja em réplica à melodia: «é Natal o caraças...», e desfila um chorrilho de obscenidades irrepetíveis. O ar fica empestado com um cheiro pouco recomendável, apesar da aragem fria se renovar constantemente.
Assustado..., fujo a sete pés daquele local habitual onde não é Natal. (autorizada a publicação pelos autores).

Saturday, December 02, 2006




















Na terra da raposa branca

A aldeia de Latan ficava num vale solitário mas muito bonito, de um país longínquo, aconchegada entre montanhas e bosques frondosos e afastada da rota da maior parte dos viajantes que não entendiam a língua dos aldeãos e desconheciam a sua laboriosa actividade. Aquelas paragens eram, no entanto, visitadas periodicamente pelos gansos selvagens, nas suas idas e vindas à Gronelândia e por um caçador que se atrevia a penetrar na terra da neve em busca de peles da raposa branca.
Os habitantes daquele recôndito lugar tinham uma fantástica e peculiar ocupação: –dedicavam-se a fabricar as prendas para as encomendas do Pai Natal, que ali vinha fazer os seus negócios.
Um frio intenso de bater o dente e tiritar chegara mais cedo e com ele a neve cobrindo os campos, como não havia memória de acontecer.
O chefe da aldeia, o senhor Zilef, sabia que um mês antes das festividades também chegava aquele carro extravagante, puxado por doze belas renas, onde vinha o mítico personagem de longas barbas e cabelos brancos, que ninguém sabia bem ao certo os anos que tinha. O velho mais velho da aldeia, o senhor Osodi, que contava mais de cento e cinquenta anos, recordava-se que quando era menino de colo já Ele chegava naquele espalhafatoso carro, sempre todo vestido de vermelho com divertido aspecto bonacheirão, apesar da sua aparência de muitas centenas de anos.
Aproximava-se mais um Natal e toda a aldeia andava em grande azáfama, pois adivinhava-se a chegada do Comprador e era preciso ter a mercadoria pronta.
Naquela manhã fria um manto branco tapetava a povoação e os bosques das redondezas, até perder de vista.
O senhor Zilef levantara-se cedo para ir à floresta com dois lenhadores, cortar a madeira necessária para concluir os últimos brinquedos e prendas de Natal.
Ao espreitar pela janela da casa não conteve um grito de espanto ao ver a neve que caíra durante a noite. O sol começava a levantar-se no horizonte batendo na alvura da terra com raios dourados que davam à natureza uma beleza rara. A mulher e os filhos do Senhor Zilef ainda dormiam. Este saiu de casa sem eles darem por isso, bem equipado para o frio que ia enfrentar; e foi-lhe agradável sentir na cara a frescura da aragem matinal enquanto caminhava para o adro da igreja, onde o aguardavam os dois lenhadores. Depois de trocarem impressões sobre o local do bosque que tinha as árvores mais apropriadas para o trabalho na madeira, os três homens embrenharam-se na floresta.
O senhor Zilef, apesar da alteração da fisionomia da paisagem provocada pelo nevão, conhecia aqueles caminhos melhor que as palmas das suas mãos e não se atrapalhou com o rumo a seguir. Avançaram os três em fila porque o trilho era estreito, o chefe da aldeia à frente, até que chegaram a uma clareira onde o percurso que faziam se cruzava com outro vindo de sul. O senhor Zilef foi o primeiro a ver as pegadas de alguém que ali passara, não muito tempo antes, em direcção a norte. Detiveram-se a observar em silêncio e os olhares que dirigiram uns aos outros foram concordantes – o caçador de raposas brancas não ia muito longe.
Uam –assim se chamava o caçador– vinha todos os anos, nos meses em que as raposas têm a pele mais bonita, colocar as suas armadilhas em sítios quase certos de êxito. E não se aproximava da aldeia, pois sabia que não era visto com bons olhos, dado o apreço que a gente do vale tinha por todos os animais.
Zilef e os dois companheiros apressaram o passo, seguindo as pegadas de Uam, pois pensaram aproveitar a caminhada para desactivar as armadilhas que o caçador montara ardilosamente para capturar os animais, sem ele dar conta do embuste. Ainda não tinham percorrido grande distância no seguimento do rasto, bem gravado na neve, quando começaram a ouvir gritos de dor e de aflição, misturados com palavras incompreensíveis que aumentavam de intensidade à medida que se aproximavam de um local do bosque indicado pelas marcas na neve. Ultrapassaram uma dobra do terreno, onde a floresta não era muito densa, e viram Uam caído por terra, preso numa armadilha que ficara esquecida, com certeza, numa das vezes que viera caçar raposas brancas.
O homem contorcia-se com dores mas era-lhe impossível libertar as pernas dos dentes afilados do cepo. À sua volta o sangue pintava o chão branco de vermelho.
Os seus olhos fixaram os três vultos que vislumbrou a alguma distância, como se de uma miragem se tratasse, implorando ajuda. Os três artífices, simultaneamente, sem trocarem palavras, regozijaram-se por um instante com o cenário macabro e ao mesmo tempo rocambolesco que tinham diante de si – desta vez o caçador fora caçado – mas logo correram em seu auxílio, abrindo as garras do terrível instrumento que tanto o atormentava.
Uam decifrou o semblante carregado de Zilef: – sabes agora por ti próprio como fazes sofrer os animais!
O chefe da aldeia apercebeu-se de imediato da gravidade do ferimento e mandou um dos lenhadores de volta à povoação, em busca do senhor Sadrallag – físico e curandeiro da aldeia de Latan – grande conhecedor da cura de ferimentos e de ervas que atenuam o sofrimento.
O dia estava perdido, o que punha em risco o fornecimento para o Pai Natal, mas era preciso salvar a vida de Uam. Este foi cuidadosamente posto no trenó que servia para o transporte da madeira.
Quando o pequeno grupo chegou, o físico Sadrallag estava a postos com mézinhas e poções que entretanto tinha preparado, ficando Uam em sua casa porque o seu estado de saúde inspirava grandes cuidados. Propositadamente e por conveniência de todos, foi omitido quem era Uam e o que fazia por aquelas paragens, ainda assim não fosse suscitar a ira de um ou outro vizinho.
–Tiveste sorte – disse-lhe Sadrallag enquanto lhe fazia o curativo com ervas doces – tiveste sorte em ser encontrado por Zilef que te salvou de uma morte certa. Alguns de nós ter-te-iam abandonado na tarde fria da floresta, até esvaíres a última gota de sangue – como tu fazes aos animais!
Uam não percebia a língua do físico, embora adivinhasse o significado das suas palavras.
Uns dias depois o ferido estava restabelecido e naquela manhã solarenga ouvia-se grande alarido para os lados da praça grande que se avistava da casa de Sadrallag. Cercado pela multidão via-se um grande carro de aspecto pitoresco, pois não tinha rodas e era movido por doze enormes renas. Todo ele cintilava com centenas de pequenas luzes que lhe definiam os contornos. Uam reconheceu o velho homem de longas barbas brancas, vestido de vermelho e que era agora o centro das atenções de toda a aldeia – o Pai Natal em carne e osso era saudado com alguma cerimónia mas amistosamente por Zilef.
Da janela onde se encontrava Uam ouvia nitidamente as vozes de todos os que falavam e ficou surpreendido por entender o que o Pai Natal dizia.
Por isso deduziu que em todas as terras do mundo se entendia a língua falada pelo velho distribuidor natalício, o que transmitiu por gestos a Sadrallag, questionando-lhe o que fazia por aquelas paragens o personagem que só fazia aparição na noite de Natal. O físico achou por bem pôr Uam ao corrente de tudo o que se fazia na aldeia e este, sem perceber as palavras ditas por Sadrallag, traduziu-lhe muito melhor o pensamento, ficando agradecido por se encontrar no meio de gente tão boa.
O Pai Natal ficava sempre dois dias na aldeia de Latan para fazer os negócios com Zilef. E como fazia todos os anos, devido à sua avançada idade de muitas centenas de anos, antes de partir novamente em viagem consultava o curandeiro da aldeia para saber se estava em boas condições físicas para enfrentar, mais uma vez, o trabalho de tanta responsabilidade.
No caminho para a casa de Sadrallag, Zilef informou o Pai Natal sobre o hóspede que ali se encontrava e narrou-lhe os acontecimentos que tinham tido lugar uns dias antes, na floresta. O velho benfeitor andante torceu o nariz com ar reprovador, pois também tinha em grande estima todos os animais, e ao encontrar-se cara a cara com Uam, cuja língua conhecia, fez-lhe saber quanto lhe desgostavam as pessoas que maltratavam os animais dos bosques ou de onde quer que fosse. Uam, que estava envergonhado perante todos, pediu mil desculpas e jurou que seria para sempre grande amigo e defensor de todos os seres vivos.
Zilef teve então a ideia de que Uam poderia regressar à sua terra aproveitando a viagem do Pai Natal para sul. Ao velho distribuidor de prendas e surpresas agradou a sugestão de ter companhia para as longas noites de trabalho que se seguiriam, pois fora aconselhado pelo físico Sadrallag a descansar, nos próximos anos, de viagem tão longa e tão difícil
Ao entardecer de uma véspera quase de Natal, ainda com um lusco-fusco cor de ocre pintando a linha do horizonte, o carro com mil luzes cintilando e puxado pelas doze belas renas, fez-se ao céu entre as despedidas dos habitantes da aldeia de Latan e rumou em direcção às estrelas que lhe indicavam o caminho do sul.
Uam não se poupou a esforços na incrível viagem de regresso a casa e tão bem desempenhou o seu papel de ajudante do Pai Natal que foi convidado a continuar a trabalhar todos os anos na rota do Natal.
O caçador não voltou a ser visto pelas terras frias do norte em busca de peles da raposa branca, embora Zilef, e apenas ele, o recordasse na figura simpática do Pai Natal.
(autorizada a publicação pelos autores)

Tuesday, November 21, 2006

Sunday, November 19, 2006













Um cão chamado Siesta

Um cão vive a seu jeito
e com muita satisfação:
«ou és amigo do peito...
ou agarra que é ladrão.»
AC


Monsaraz (pelourinho)
AC