Saturday, August 29, 2009

Uma verdadeira mãe ou um caso de adopção canina…









Quem não ouviu já contar dezenas de histórias sobre factos quase inverosímeis passados com animais que, muitas vezes, em atitudes de grande altruísmo, superam o comportamento dos humanos (infelizmente muitos destes nunca aprenderam o sentido dessa palavra com nobre significado).
Pois esta é uma dessas estórias, entre tantas outras que se contam, com a particularidade de ser verdadeira e de nos dar uma lição de grande amor maternal – que também existe entre os animais, embora muitos insistam que se trata de mero instinto, esse enlevo de sentimento que nos admira e comove.
Faz muitos anos, um meu vizinho era dono de dois cães rafeiros que lhe guardavam a casa e uma quinta de dia e de noite.
O cão chamava-lhe Jack e a cadela que tratava por Mina.
O Jack já era entrado na idade e a cadela Mina ainda quase cachorra, não se entendiam de modo algum, sendo as desavenças exacerbadas à hora a que a comida caía nos pratos; os rosnares e lances de olhar de desconfiança eram mútuos, aplicando-se-lhes, no caso em questão, o velho ditado: “o que é do meu vizinho é sempre melhor do que o que é meu”.
As meças de patas por vezes terminavam em ferozes brigas com encontrões e algumas dentadas pelo meio, apenas tendo fim com a intervenção de uma mangueira que o dono também utilizava para regar a horta.
Mas bastava a mais pequena lufada de ar fresco, transportando algumas moléculas anunciadoras do cio da Mina, estimular as ventas do Jack, aí se metamorfoseava ele no cão mais dócil e meigo…, o constante companheiro…, um “eterno” e galante namorado. A comida e a água ficavam nos pratos, pois, ao bom do Jack, as vinte e quatro horas do dia não chegavam para cumprir os rituais da corte, quanto mais para ter tempo para se alimentar.
Uma vez ainda conseguiu traduzir a sua prole em seis lindos cachorrinhos que a Mina pariu num tórrido dia de Agosto. Não cheguei a vê-los crescer, pois o dono foi dando um a um, a vizinhos e amigos de outras quintas.
Não mais o Jack se multiplicou, pois a velhice canina também não perdoa e os galanteios e ladradelas de amor ficaram por isso mesmo: uns encostos de cabeça e umas quantas tentativas frustradas de se suster nas patas traseiras sobre o dorso da Mina. E assim…, já em idade muito avançada o Jack entregou-se nas mãos do criador de todos os cães.
Apesar dos desentendimentos frequentes, a cadela Mina soube o significado da palavra solidão (canina). Era vista ora farejando os carreiros da quinta, onde ainda estava activo o cheiro do seu companheiro, ora estando deitada junto à casota que pertencera ao Jack, com olhar triste e taciturno.
Mas um belo dia, para minha surpresa, vi chegar uma carrinha que estacionou junto ao portão da quinta e de onde foi tirada uma caixa que transportava um cachorrinho com focinho de tenra idade e olhar desconfiado, tremelicando desde as orelhas, por sinal bem bonitas e vistosas, até à ponta do rabo que era branca. Simpatizei de imediato com o pequeno bicho, pensando logo de seguida para com os meus botões: -pobre cachorrinho… vais ter uma dura prova de vida na companhia da cadela Mina – sabendo eu da sua irascibilidade e mau génio para com o velho Jack. Nesse dia não vi mais o novo inquilino da quinta, pois o meu vizinho pô-lo a recato dentro da habitação, receoso, com certeza, de uma reacção perigosa da Mina. Esta, durante o resto do dia e pela noite fora, não arredou pé da porta da casa, que foi farejada com insistência e obstinação nas mais pequenas frestas onde podia encostar as narinas.
Na manhã seguinte acordei tarde, pois tinha estado entretido até altas horas, ora a ler, ora a espreitar os movimentos da cadela no pátio da casa, que se avistava nitidamente da janela do meu quarto, ainda por cima iluminado aquele por um forte luar, manifestando a Mina forte desassossego, pois cheirava a presença do cachorrinho dentro de casa. Assim, os meus primeiros movimentos, ainda debaixo do efeito do final do sono, foram para me dirigir ao posto de observação dos meus aposentos, confesso que impelido pela curiosidade de saber notícias do pequeno cachorro, do qual ainda nem sabia o nome, ou sequer se o tinha.
Digo-vos, custou-me perceber o que os meus olhos, ainda ensonados, viram: o dono da quinta já tinha substituído o nome do Jack numa das casotas de madeira, onde podia ler-se agora o nome de Faísca.
A cadela Mina lá estava deitada sob a sombra da alpendorada do pátio… e debruçado sobre a sua barriga chupava deliciado o pequeno Faísca!

AC

Sunday, August 02, 2009










Alandroal, uma vila a necessitar de um provedor de justiça local...
...para apreciar o "feliz" enquadramento deste mamarracho estilo barracócôco, com o castelo e ambiente arquitectónico da praça em geral... (supomos toda esta obra com autorização do IPPAR e dos Monumentos Nacionais?!)

Tuesday, June 30, 2009








A Autarquia é amiga do Ambiente!








E esta ein! ...
(3 anos depois..., sob a "eco"pista)

Friday, June 26, 2009

Saturday, June 20, 2009



















...traz outro amigo também!







































Dia mundial do chapéu : comemorado festivamente na pacata vila de Alandroal ( início do séc.xx; adivinha quem são eles... chapéus há muitos!... )

Tuesday, May 19, 2009















Santa Justa: um destino injusto!







Entre Évora e Arraiolos utilize a ecopista: vai mais rápido e chega com mais saúde...

Saturday, April 18, 2009








Na elevação com maior cota, do lado esquerdo do que se adivinha ser uma casa: o sítio onde esteve o Templo Romano de Endovélico







Fui eu que as fotografei... Elas vieram de longe..., desenhar a cidade...

Monday, December 22, 2008

ADEUS PAI NATAL...

texto: Luis Galhardas
ilustração: Paula Costa

“...Mas o melhor do mundo são as crianças,...” (Fernando Pessoa: poema Liberdade).

Nesta época do ano recordo sempre aquele ambiente caloroso de casa de meus avós maternos, onde fui criado.
Havia sempre muita gente. Netos eram uma catrefada deles.
Depois chegavam outros familiares e amigos que vinham passar a consoada connosco.
Na cozinha havia uma grande chaminé, sempre abastecida de gigantesco madeiro que ardia durante todo o Inverno.
Era um dos meus locais preferidos nas horas de lazer daqueles dias frios, aproveitando para ir depenicando nas batatas que a nossa cozinheira ia fritando. Por vezes resmungava: «tal não está, não dou batatas fritadas!».
Foi nessa chaminé, enorme para um pequeno catraio, que dei conta da existência do Natal, palavra que jamais deixei de associar a brinquedos, e do seu actor principal, o Pai Natal, homem de compridas barbas brancas, trajado de vermelho, vindo não se sabia bem de onde.
Pela grande chaminé descia nas noites de Natal, de saco cheio, com algumas prendas que eram nossas, depositadas, no silêncio da madrugada, numa árvore decorada para o efeito, desde há muitos dias à espera.
Por vezes perdia-me em conjecturas, olhando para o cimo daquela grande “torre”, imaginando como conseguia descer o velho homem chaminé abaixo, mesmo por cima do lume, sem se queimar!
E intrigava-me, também, como era possível o idoso personagem, naquelas noites frias e escuras como breu, dar a volta ao mundo, entrando em todas as casas onde havia crianças, a deixar as suas oferendas de Natal.
Lembro-me de ter posto essa questão a meu avô que, sabiamente, me respondeu sem pestanejar: «ele tem muitos ajudantes!».
Foram-se passando os anos. Entrei para a escola.
Aprendi a ler rapidamente, mas a escrever foi o cabo dos trabalhos, pois também tive que aprender a fazê-lo com a mão direita. Felizmente a tempo de redigir a minha lista de desejos para enviar ao Pai Natal.
Aproximava-se mais uma época natalícia, começando a imaginação da criançada a labutar afanosamente sobre as surpresas com que seria contemplado cada um, na tão desejada noite de Natal.
Numa dessas conversas de escola o meu amigo Tricas, a quem ainda não ouvira formular qualquer petição, largou uma tirada que me deixou atordoado como gato caído dentro de água: «isso do Pai Natal que vocês para aí estão a falar é uma grande treta!... o Pai Natal a minha casa nunca vai, simplesmente porque não existe... não passa tudo de uma grande mentira que vos pregam».
«Irá a tua casa porque és neto da professora da escola?»- perguntou-me com desplante.
E continuou, arrasador: «quem oferece os presentes são os nossos pais…, se têm dinheiro para os comprar«.
O Pai Natal não dá nada, pelo menos a mim, que aos meus pais não lhes sobra dinheiro para brinquedos.
Eu olhava o Tricas de olhos esbugalhados, incrédulo na foiteza com que ele desafiava o velho mito.
Mesmo sendo o meu maior amigo apeteceu-me bater-lhe, furioso com a afronta dirigida a tão simpática figura do meu pequeno mundo.
Fugi do grupo, corri para casa e meti-me no canto da chaminé, pensativo: -se era verdade que o Tricas não recebia presentes, então tinha que tirar as coisas a limpo.
Naquela noite de 24 de Dezembro fui com ela fisgada para a cama.
Como era hábito, a nossa Joana foi-me deitar e ajudar nas orações da noite que eu nunca sabia de cor.
Enfiei-me de seguida nos lençóis e apagou-se a luz.
O meu quarto tinha uma janela grande que dava para a marquise, dependência da casa que nessa época festiva era cenário do Presépio e da árvore de Natal.
Tinha, assim, um belo posto de observação nocturna.
O propósito de comprovar o que o Tricas me contara provocara em mim grande espertina. Fiquei atento ao menor ruído nas imediações, se bem que prejudicada a minha audição pelo ressonar trovejante de meu avô, dormindo no quarto ao lado.
Ouvi o relógio da “casa de jantar” bater as onze horas. O meu irmão, na sua cama, dormia, desconhecendo o meu plano.
Mas eis que ouvi accionar o trinco da porta da marquise, e passos cautelosos, de um lado para o outro, denunciaram-me a presença de alguém.
De um pulo saltei da cama e estava no meu observatório.
Na marquise, com a iluminação de Natal, parecia dia.
Os meus pais e minha avó, atarefados a colocar cuidadosamente prendas e chocolates na árvore de Natal, não deram pela presença de um pequeno espião empoleirado na janela do quarto dos miúdos.
Ali estava a concertina que tinha pedido ao Pai Natal... e uma camioneta igual à da carreira...
A visão, à socapa, daquelas pequenas maravilhas cegara-me momentaneamente.
Mas logo de seguida ouvi a voz do Tricas gritar: «o Pai Natal a minha casa nunca vai!».

Sunday, September 28, 2008










A Praça - encontro de gentes











Alandroal - Praça da República
(a data da fotografia: primeiros anos a seguir à implantação da República, pois o "rapaz da bicicleta" aqui tem doze anos.)
Uma mota endiabrada
texto:Luis Galhardas
ilustração: Paula Costa








Nesse dia 30 de Agosto Manuel Braga completava dezasseis anos.
Filho de um rico proprietário, que mais rico ficara quando lhe saíra a sorte grande de treze contos, no ano de 1913, não dera ainda por qualquer obstáculo na vida.
Nascera rico e, como era óbvio, tinha vida de rico.
Menino predilecto de Francisco Braga a quem não dera preocupações que não fossem as próprias do desenrolar da mocidade, fizera a instrução primária com brio e desenvoltura invulgares.
De tal modo que aos doze anos estava à frente da complexa escrita dos negócios familiares.
Não se colhia um quilo de uvas, laranjas, ou azeitonas que não fosse devidamente registado; nem saco de farinha da moagem, ou garrafão de azeite do lagar que não lhe passasse pela ponta do lápis.
O pai, babado com as qualidades do pequeno Manuel, presenteara-o com a primeira bicicleta que a vila vira chegar.
Fora no dia dos seus treze anos. O pai chamara-o ao escritório para que assumasse à janela de sacada, a alguém que o perguntava.
Encostada ao banco da rua, em frente à casa, estava a realidade de um sonho que se repetira muitas noites desde que desejara ter uma bicicleta.
Volvidos três anos, já um homem, achou que era altura de dar descanso às pernas.
Tinha lido nos jornais as últimas sobre um novo modelo de mota, de uma marca inglesa, que lhe ficara debaixo de olho.
Voltara a sonhar: o grande farol dianteiro, o imponente guiador em cromado, o selim em cabedal..., enfim, uma verdadeira máquina.
O cabo dos trabalhos é que ouvira o pai, por diversas vezes, vociferar contra um desnorteado de uma terra vizinha, que andando de amores com uma rapariga da terra, ali se deslocava em mota ruidosa a que imprimia uma gáspia desmesurada, sobressaltando a povoação.
A medo, deixara aproximar a data natalícia para ganhar coragem que bastasse, apoiada no evento.
Conversa feita um mês antes do aniversário, em dia de boa catadura do pai Francisco, os seus receios eram infundados.
«E se tivesse pedido duas…, porque não?»
«Que não estava já em idade de pedalar!»
Assim, em vésperas de dia de anos, chegava uma mota de marcaTriumph à pacata vila alentejana.
À porta da família Braga juntaram-se os curiosos habituais do burgo, mirando, alguns pela primeira vez, um veículo motorizado de duas rodas.
O pai, ainda ontem crítico acérrimo do tal pinga amor, encorajava agora o filho para uma volta experimental. «Que ruído todos os motores faziam; e quem não quisesse ouvir que se metesse em casa e fechasse as janelas.»
Manuel, já instalado em posição de condução e catapultado para a ribalta das atenções, sorriso de orelha a orelha e peito inchado, deu ao pedal do motor de arranque, com precisão inesperada, e partiu.
Sucediam-se as voltas ruidosas à vila, com passagem obrigatória pela Rua do Caminho da Fonte, onde a assistência que ali se reunira o via passar com estupefacção.
E não havia meio de parar!
Percebida inicialmente a insistência pelo gozo e novidade, aproximava-se a hora do almoço, o que não parecia desmotivar o compenetrado condutor.
Tomou-lhe o gosto…, diziam uns; anda a armar-se…, diziam outros, entre dentes.
Aos apelos do pai para que encostasse respondia com um abanar de cabeça e palavras inaudíveis, perdidas entre os roncos do motor.
Neste vai vem sem fim passou horas a fio, tarde dentro, guiando a sua mota Triumph, novo modelo da marca inglesa.
Por fim surgiu a pé, rua acima, esfalfado e embezerrado, “assento” amassado de tanto trepidar, empurrando com esforço o novo modelo da marca Triumph, agora com o dobro do peso.
À sequência interminável de perguntas do pai, esclareceu irritado:
-Tive que andar até lhe gastar a gasolina toda…, não faço ideia de como se pára o raio da mota!!!

Friday, September 26, 2008









O estado da arte: arrasar é preciso para que não haja memória...

Sunday, September 21, 2008








Praia vigiada: cuidado com o cão...
















Ilha do Pessegueiro
Na ilha: forte construído logo após a Guerra da Restauração, sobre anterior construção militar; e ruínas do período romano, nomeadamente salgas de peixe.
Na costa, sobranceiro à ilha: forte do final do Séc. XVII, felizmente com obras de restauro.