Sunday, July 08, 2007

Thursday, June 28, 2007

O Bom Observador









À primeira vista as duas fotografias parecem ser da Anta-Capela de S. Brissos... Encontre as "pequenas diferenças" entre estes dois monumentos.

Tuesday, May 01, 2007

O Primeiro 1º de Maio


Recordo que estava calor e uma luminosidade deslumbrante…
Ouvia-se a canção do Zeca Afonso: «Maio, maduro Maio, quem te pintou…»
O fim de Abril anticipara Maio. A onda popular, sedenta de liberdade, arrastara os militares para o seu lado.
AC

Naqueles dias que se seguiram à onda avassaladora da revolução popular, passeávamos pelas ruas da Cidade, de manifestação em manifestação, apoiando e encorajando o MFA. O clímax desses dias, que passaram velozmente, tão cheios de peripécias e acontecimentos inesquecíveis eles foram, aconteceu no primeiro 1º de Maio.
Na véspera desse dia, uns tipos, que ninguém vira antes na cantina da Faculdade, apareceram por lá dizendo que pertenciam ao MRPP, movimento revolucionário verdadeiramente representativo dos camponeses e da classe operária, ao lado de quem os estudantes se deviam imediatamente colocar, juntando-se em massa na festa do 1º de Maio, dia de luta e regozijo de todos os que queriam estar sempre..., sempre ao lado do povo...
O sujeito que falava usava um bigode farfalhudo, o que me fez imediatamente associá-lo a um dos quatro camaradas afixados por tudo quanto era parede e recanto das Faculdades.
Era um fim de tarde apetecível, pulverizada de perfumes primaveris, quando me juntei ao Custódio e ao Baltazar à hora do jantar, na esplanada improvisada que os estudantes montavam à entrada da cantina da Faculdade de Ciências.
Depois de me sentar junto deles, o Baltazar – o que dominava melhor os assuntos políticos do momento – pôs o mote na conversa.
«Consta que amanhã haverá uma grande manifestação..., o MFA declarou o dia feriado...».
O Custódio riu-se para mim, à socapa, e depois argumentou com o Baltazar: «ó senhor engenheiro, feriados não deixas escapar um..., e mais um que fosse..., pois a boa vida não cansa, nem pesa...».
«Mas amanhã é mesmo o dia do trabalhador..., e dia do trabalho...», disse o Baltazar, ao mesmo tempo que encolhia os ombros com ar de irritação, «só na merda deste país era proibido festejá-lo!».
Acabámos de comer. A conversa ficou por ali, pois um grupo de colegas do género feminino, que se acomodara por perto, absorveu inteiramente a atenção do nosso amigo Baltazar.
Dei comigo a bocejar por várias vezes, morto de cansaço, de quatro ou cinco noites mal dormidas pela azáfama daquelas primeiras horas de liberdade. Anunciei que me retirava em direcção a casa. O Custódio, piscando-me o olho, ainda tentou aliciar-me: «não vás Luís..., que a noite promete...».
Prometi a mim próprio ir descansar..., «dormir uma noite como deve ser...». Arrumei as minhas coisas e fui-me encaminhando para o portão da Faculdade. Um deles gritou: «todos à Manif do 1º de Maio!»
Desci a Rua do Salitre numa correria desenfreada, pois deixara-me dormir até manhã adiantada. O som dos meus passos foi-se misturando com um ruído de fundo, compacto, que subia a rua até me atingir os tímpanos e ao mesmo tempo aumentava de intensidade com a minha deslocação. Interroguei-me, tentando adivinhar o que seria, mas nesse instante fui envolvido por um mar de gente que inundava a Avenida da Liberdade.
Nunca tinha assistido a nada igual! Uma gigantesca onda humana enxameava por toda a avenida, que ficara aguarelada com a cor dos cravos vermelhos que cada um tinha na mão.
A Revolução adoptara, definitivamente, o símbolo das flores.

Wednesday, April 25, 2007

25 DE ABRIL


Passaram 33 anos sobre o 25 de Abril, dia mágico..., inesquecível..., vivido então intensamente por um jovem estudante da Faculdade!
Recentemente fui buscar à prateleira da memória alguns apontamentos, gravados como instantâneos fotográficos e que tomaram a forma de novela – A Casa de D. Vicência – a aguardar melhores dias em ficheiro de computador. Este pequeno excerto representa um estado de alma particular desses primeiros dias de liberdade...
AC


O excesso de D. Vicência

Em casa de D. Vicência a casa de banho era uma espécie de sala de estar do início da manhã, ponto de encontro frequente de alguns hóspedes que durante o resto do dia não se viam mais. As conversas cruzavam-se enquanto um tomava duche, o outro se barbeava e um terceiro fumava um cigarro com ar ensonado e taciturno...
Nessa manhã, quase do fim de Abril, D. Vicência excedeu-se. Entrou de rompante na marquise adaptada a casa de banho, com rubor facial evidente e mão na anca, sentenciando: –ninguém sai de casa..., ...há uma revolução na tropa..., ...estão a dar a notícia a toda a hora na rádio...
Eu, que estava no duche, cobri-me com as mãos o melhor que pude e D. Vicência dirigiu-se-me com ar decidido, antes de sair: –está a esconder o quê menino?..., ...que lhe faça proveito se o quer escondidinho...
É verdade que fiquei embasbacado mas o Custódio, mal a viu de costas, fez um gesto com o dedo em direcção à cabeça e, enquanto se desmanchava a rir, ia repetindo quase sem fôlego: –a velha passou-se..., a velha passou-se...
O estudante de engenharia Baltazar Galante – o apelido não encaixava no aspecto: uma trunfa que nunca penteava, a barba um autêntico matagal e pêlos por tudo quanto era sítio do corpo – deu entrada na casa de banho depois de quase ter sido atropelado por D. Vicência. Apesar de trazer o rádio colado ao ouvido, o aparelho tinha o som no máximo, o que distorcia ora para os graves, ora para os agudos, a voz de quem transmitia as notícias.
O Custódio – com ar de incomodado – lançou-lhe um aviso com tom de ordem: –baixa isso «barbudo», que eu de manhã acordo sempre com dores de ouvidos..., ...cala esse «gajo»..., ...e põe música!
Baltazar Galante, pelo modo autoritário do Custódio, anotou que naquele sítio – a casa de banho – onde «as últimas» chegavam velozes com os primeiros raios de sol que batiam nas vidraças, a acompanhar um corrupio de entradas e saídas de gente que se queria despachar para chegar a horas às aulas, ao emprego ou à repartição e que, habitualmente, já tinha ouvido o noticiário das sete, que despejava «as primeiras do dia»..., ...sim, naquele dia de acontecimentos tão importantes mas cheios de incertezas sobre o que se iria passar nas ruas da Cidade... – um ensaio deste género, pouco tempo antes, voltara à base com a polícia no encalço – ...sim, ninguém se lembrara, nessa manhã, de ligar um rádio..., ...ninguém na casa de banho estava ao corrente do movimento da tropa nas ruas da Cidade.
–Espera aí ó Custodinho..., ...desliga mas é a coisa da tua prima que anda a trabalhar muito...; então os meninos, a fina flor da esquerda das Faculdades – gozava, deliciado – não sabem que a tropa está a tomar conta desta merda? Baltazar Galante – em vantagem uma vez na vida – estava irritado e o tom da conversa foi em crescendo até à última palavra que ecoou por todo o 4.º andar do n.º 69 da Rua do Salitre. Logo de seguida ouviu-se a voz esganiçada de Teresinha que sondava – em limpeza – nas imediações da casa de banho, para ouvir e ir contar a D. Vicência: –Jesus..., ...menino..., não seja malcrriado..., está em casa de uma senhorra sérria..., e há clientes no corredorr...
Nessa manhã não houve paródia, nem qualquer tipo de chacota, com a espionagem doméstica da zelosa Teresinha.
O nosso equívoco foi não ter compreendido o excesso de D. Vicência...
–Põe o cantante no máximo – o Custódio virou a conversa do avesso, aos berros.
A casa de banho ficou num silêncio reforçado, onde nada mais se ouviu para além do rádio de Baltazar Galante: –aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Hoje, dia 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas consciente de que interpreta a vontade e o desejo da maioria do povo português... ... ...
A transmissão foi interrompida com um pedido de desculpas e a água que continuava a correr do chuveiro inundou-me a alma ao som do Grândola Vila Morena...
O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História
O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Monday, April 23, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História
O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Sunday, April 22, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Friday, April 20, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Thursday, April 19, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Wednesday, April 18, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História (Arquivo Diário do Sul)

Sunday, December 03, 2006


Breve conto de Natal


texto: Luis Galhardas
ilustração: Paula Costa



A cidade adormece num cenário quase rotineiro.
Quase..., porque esta noite instalou-se um frio de rachar, que penetra impiedosamente quem o enfrenta.
Só este componente atmosférico desagradável diferencia esta noite da anterior e de muitas noites antes desta, que foram metodicamente iguais.
Nos locais habituais onde as estrelas são visíveis com um simples arremelgar ou onde o vento se faz sentir, endiabrado, sem outra sorte que não seja suportá-lo, os mesmos vultos, sem nome e sem destino, acomodam-se o melhor que podem, com a esperança irrisória de que mais uma noite passe.
Tento afastar-me, abafado no calor aconchegante do meu sobretudo de burguês, fugir a sete pés daquele local habitual onde “descansam” vultos humanos sob pilhas de cartão prensado.
Um grupo de crianças soa a alguma distância com a alegria estampada nas vozes que procuram afinar a canção: –é Natal, é Natal, já nasceu Jesus...
Um dos vultos, sob a amálgama de cartão prensado, pragueja em réplica à melodia: «é Natal o caraças...», e desfila um chorrilho de obscenidades irrepetíveis. O ar fica empestado com um cheiro pouco recomendável, apesar da aragem fria se renovar constantemente.
Assustado..., fujo a sete pés daquele local habitual onde não é Natal. (autorizada a publicação pelos autores).

Saturday, December 02, 2006




















Na terra da raposa branca

A aldeia de Latan ficava num vale solitário mas muito bonito, de um país longínquo, aconchegada entre montanhas e bosques frondosos e afastada da rota da maior parte dos viajantes que não entendiam a língua dos aldeãos e desconheciam a sua laboriosa actividade. Aquelas paragens eram, no entanto, visitadas periodicamente pelos gansos selvagens, nas suas idas e vindas à Gronelândia e por um caçador que se atrevia a penetrar na terra da neve em busca de peles da raposa branca.
Os habitantes daquele recôndito lugar tinham uma fantástica e peculiar ocupação: –dedicavam-se a fabricar as prendas para as encomendas do Pai Natal, que ali vinha fazer os seus negócios.
Um frio intenso de bater o dente e tiritar chegara mais cedo e com ele a neve cobrindo os campos, como não havia memória de acontecer.
O chefe da aldeia, o senhor Zilef, sabia que um mês antes das festividades também chegava aquele carro extravagante, puxado por doze belas renas, onde vinha o mítico personagem de longas barbas e cabelos brancos, que ninguém sabia bem ao certo os anos que tinha. O velho mais velho da aldeia, o senhor Osodi, que contava mais de cento e cinquenta anos, recordava-se que quando era menino de colo já Ele chegava naquele espalhafatoso carro, sempre todo vestido de vermelho com divertido aspecto bonacheirão, apesar da sua aparência de muitas centenas de anos.
Aproximava-se mais um Natal e toda a aldeia andava em grande azáfama, pois adivinhava-se a chegada do Comprador e era preciso ter a mercadoria pronta.
Naquela manhã fria um manto branco tapetava a povoação e os bosques das redondezas, até perder de vista.
O senhor Zilef levantara-se cedo para ir à floresta com dois lenhadores, cortar a madeira necessária para concluir os últimos brinquedos e prendas de Natal.
Ao espreitar pela janela da casa não conteve um grito de espanto ao ver a neve que caíra durante a noite. O sol começava a levantar-se no horizonte batendo na alvura da terra com raios dourados que davam à natureza uma beleza rara. A mulher e os filhos do Senhor Zilef ainda dormiam. Este saiu de casa sem eles darem por isso, bem equipado para o frio que ia enfrentar; e foi-lhe agradável sentir na cara a frescura da aragem matinal enquanto caminhava para o adro da igreja, onde o aguardavam os dois lenhadores. Depois de trocarem impressões sobre o local do bosque que tinha as árvores mais apropriadas para o trabalho na madeira, os três homens embrenharam-se na floresta.
O senhor Zilef, apesar da alteração da fisionomia da paisagem provocada pelo nevão, conhecia aqueles caminhos melhor que as palmas das suas mãos e não se atrapalhou com o rumo a seguir. Avançaram os três em fila porque o trilho era estreito, o chefe da aldeia à frente, até que chegaram a uma clareira onde o percurso que faziam se cruzava com outro vindo de sul. O senhor Zilef foi o primeiro a ver as pegadas de alguém que ali passara, não muito tempo antes, em direcção a norte. Detiveram-se a observar em silêncio e os olhares que dirigiram uns aos outros foram concordantes – o caçador de raposas brancas não ia muito longe.
Uam –assim se chamava o caçador– vinha todos os anos, nos meses em que as raposas têm a pele mais bonita, colocar as suas armadilhas em sítios quase certos de êxito. E não se aproximava da aldeia, pois sabia que não era visto com bons olhos, dado o apreço que a gente do vale tinha por todos os animais.
Zilef e os dois companheiros apressaram o passo, seguindo as pegadas de Uam, pois pensaram aproveitar a caminhada para desactivar as armadilhas que o caçador montara ardilosamente para capturar os animais, sem ele dar conta do embuste. Ainda não tinham percorrido grande distância no seguimento do rasto, bem gravado na neve, quando começaram a ouvir gritos de dor e de aflição, misturados com palavras incompreensíveis que aumentavam de intensidade à medida que se aproximavam de um local do bosque indicado pelas marcas na neve. Ultrapassaram uma dobra do terreno, onde a floresta não era muito densa, e viram Uam caído por terra, preso numa armadilha que ficara esquecida, com certeza, numa das vezes que viera caçar raposas brancas.
O homem contorcia-se com dores mas era-lhe impossível libertar as pernas dos dentes afilados do cepo. À sua volta o sangue pintava o chão branco de vermelho.
Os seus olhos fixaram os três vultos que vislumbrou a alguma distância, como se de uma miragem se tratasse, implorando ajuda. Os três artífices, simultaneamente, sem trocarem palavras, regozijaram-se por um instante com o cenário macabro e ao mesmo tempo rocambolesco que tinham diante de si – desta vez o caçador fora caçado – mas logo correram em seu auxílio, abrindo as garras do terrível instrumento que tanto o atormentava.
Uam decifrou o semblante carregado de Zilef: – sabes agora por ti próprio como fazes sofrer os animais!
O chefe da aldeia apercebeu-se de imediato da gravidade do ferimento e mandou um dos lenhadores de volta à povoação, em busca do senhor Sadrallag – físico e curandeiro da aldeia de Latan – grande conhecedor da cura de ferimentos e de ervas que atenuam o sofrimento.
O dia estava perdido, o que punha em risco o fornecimento para o Pai Natal, mas era preciso salvar a vida de Uam. Este foi cuidadosamente posto no trenó que servia para o transporte da madeira.
Quando o pequeno grupo chegou, o físico Sadrallag estava a postos com mézinhas e poções que entretanto tinha preparado, ficando Uam em sua casa porque o seu estado de saúde inspirava grandes cuidados. Propositadamente e por conveniência de todos, foi omitido quem era Uam e o que fazia por aquelas paragens, ainda assim não fosse suscitar a ira de um ou outro vizinho.
–Tiveste sorte – disse-lhe Sadrallag enquanto lhe fazia o curativo com ervas doces – tiveste sorte em ser encontrado por Zilef que te salvou de uma morte certa. Alguns de nós ter-te-iam abandonado na tarde fria da floresta, até esvaíres a última gota de sangue – como tu fazes aos animais!
Uam não percebia a língua do físico, embora adivinhasse o significado das suas palavras.
Uns dias depois o ferido estava restabelecido e naquela manhã solarenga ouvia-se grande alarido para os lados da praça grande que se avistava da casa de Sadrallag. Cercado pela multidão via-se um grande carro de aspecto pitoresco, pois não tinha rodas e era movido por doze enormes renas. Todo ele cintilava com centenas de pequenas luzes que lhe definiam os contornos. Uam reconheceu o velho homem de longas barbas brancas, vestido de vermelho e que era agora o centro das atenções de toda a aldeia – o Pai Natal em carne e osso era saudado com alguma cerimónia mas amistosamente por Zilef.
Da janela onde se encontrava Uam ouvia nitidamente as vozes de todos os que falavam e ficou surpreendido por entender o que o Pai Natal dizia.
Por isso deduziu que em todas as terras do mundo se entendia a língua falada pelo velho distribuidor natalício, o que transmitiu por gestos a Sadrallag, questionando-lhe o que fazia por aquelas paragens o personagem que só fazia aparição na noite de Natal. O físico achou por bem pôr Uam ao corrente de tudo o que se fazia na aldeia e este, sem perceber as palavras ditas por Sadrallag, traduziu-lhe muito melhor o pensamento, ficando agradecido por se encontrar no meio de gente tão boa.
O Pai Natal ficava sempre dois dias na aldeia de Latan para fazer os negócios com Zilef. E como fazia todos os anos, devido à sua avançada idade de muitas centenas de anos, antes de partir novamente em viagem consultava o curandeiro da aldeia para saber se estava em boas condições físicas para enfrentar, mais uma vez, o trabalho de tanta responsabilidade.
No caminho para a casa de Sadrallag, Zilef informou o Pai Natal sobre o hóspede que ali se encontrava e narrou-lhe os acontecimentos que tinham tido lugar uns dias antes, na floresta. O velho benfeitor andante torceu o nariz com ar reprovador, pois também tinha em grande estima todos os animais, e ao encontrar-se cara a cara com Uam, cuja língua conhecia, fez-lhe saber quanto lhe desgostavam as pessoas que maltratavam os animais dos bosques ou de onde quer que fosse. Uam, que estava envergonhado perante todos, pediu mil desculpas e jurou que seria para sempre grande amigo e defensor de todos os seres vivos.
Zilef teve então a ideia de que Uam poderia regressar à sua terra aproveitando a viagem do Pai Natal para sul. Ao velho distribuidor de prendas e surpresas agradou a sugestão de ter companhia para as longas noites de trabalho que se seguiriam, pois fora aconselhado pelo físico Sadrallag a descansar, nos próximos anos, de viagem tão longa e tão difícil
Ao entardecer de uma véspera quase de Natal, ainda com um lusco-fusco cor de ocre pintando a linha do horizonte, o carro com mil luzes cintilando e puxado pelas doze belas renas, fez-se ao céu entre as despedidas dos habitantes da aldeia de Latan e rumou em direcção às estrelas que lhe indicavam o caminho do sul.
Uam não se poupou a esforços na incrível viagem de regresso a casa e tão bem desempenhou o seu papel de ajudante do Pai Natal que foi convidado a continuar a trabalhar todos os anos na rota do Natal.
O caçador não voltou a ser visto pelas terras frias do norte em busca de peles da raposa branca, embora Zilef, e apenas ele, o recordasse na figura simpática do Pai Natal.
(autorizada a publicação pelos autores)

Tuesday, November 21, 2006

Sunday, November 19, 2006













Um cão chamado Siesta

Um cão vive a seu jeito
e com muita satisfação:
«ou és amigo do peito...
ou agarra que é ladrão.»
AC


Monsaraz (pelourinho)
AC

Sunday, November 12, 2006

Outono: anoitecer









AC
Torre do tempo..., tempo atrasado..., adiantado..., bom tempo..., no tempo..., fora de tempo...

















































Saturday, November 11, 2006

parada militar











AC
Aqueduto da Água da Prata

































Pelo Aqueduto vem a água de 18 kms de distância, entre a nascente em N.ª S.ª Graça do Divor e Évora. Construído entre 1531 e 1537 (reinado de D. João III), sob a responsabilidade do arquitecto Francisco Arruda, é perto da cidade que atinge a sua grandiosidade. A bela arcaria de volta perfeita tem o seu maior efeito no percurso da Quinta da Torralva, com três pequenas torres de feição classicizante. Ao atravessar a muralha fernandina, atinge a sua maior altura no troço contíguo à rua do Cano (26 metros). Depois confunde-se com o casario..., com ruas e becos, que se acomodaram entre a sua arcada.
AC

Tuesday, November 07, 2006

Saturday, November 04, 2006


A Cidade Das Cegonhas
(entre Montemor-O-Novo e Foros de Vale Figueira)




Há dias, passando pela cidade, olhei para o céu, atordoado pelo ruído ensurdecedor de um avião.
Alguém comentou: «vocês..., lá no campo..., não estão habituados aos aviões...». Ao que respondi pronto: -pois não..., estamos habituados às cegonhas! AC
Tabuleiro decorativo - Santuário S. Miguel da Mota
Alandroal



Tabuleiro decorativo encontrado nas ruínas do Santuário de S. Miguel da Mota. Segundo reconstituição de Alfredo Cândido. Atente-se na semelhança da cruz do tabuleiro, com a cruz visigótica de S. Brás dos Matos - os mesmos motivos decorativos geométricos. AC

Wednesday, November 01, 2006


Oráculo de Évora

Manuel Madeira Piçarra, escreve há 35 anos a "Nota Do Dia" do seu jornal - diário do Sul. Uma vida dedicada a Évora..., ao Alentejo... e a muito mais. É obra!
AC

Tratamento Natural…

Domingo acordo cedo com o cantarolar lançado pela garganta bem treinada do galo residente no quintal do vizinho. Tenho vontade de uma madrugada destas lá ir, incógnito, calar-lhe o pio. O safado dá o concerto da alvorada mesmo arrimado à janela do meu quarto, interrompendo-me o sono reconfortante do dia de descanso.
Começa outra chinfrineira que oiço este ano pela primeira vez – um bácoro anuncia que está de malas aviadas para o outro mundo. É a matança do porco, ritual milenar por estas bandas – aqui não há intolerância que proíba a comezaina.
O vento ajuda ao desassossego, atirando-se com assobio estridente contra tudo o que apanha pela frente. Do lado da serra chegam os primeiros frios. Acendem-se as lareiras em casa de quem as tem, tornando o ambiente acolhedor.
Do sino do convento ecoam as matinas à procura de fregueses para as orações da manhã. Perscruto os passos dos frades que percorrem os claustros, num vaivém que só eles entendem. Diz-se que levam vida austera.
Passa um carro lançando estampidos pelo escape, arremedando intensa fuzilaria. Os que ainda dormem acordam, de certeza, atordoados com o estouro.
Alguém bate à porta. Finjo não ouvir, abafando a cabeça debaixo das mantas. O toque insiste, empurrando-me para fora da cama, aos tropeções.
–Quem será que tão cedo me vem dissipar definitivamente o merecido repouso dominical? Abro a janela às apalpadelas e logo tenho que cerrar as pálpebras pela intensidade da soalheira matinal. Reconheço a voz do Sebastião Enjeitado, mais conhecido pelo Salta Léguas – assim crismado pelo característico modo de andar aos saltos – nome que lhe assenta que nem uma luva na profissão de moço de telegramas e recados que exerce no posto público e de correio, único local de onde é possível comunicar com o exterior, o que o faz andar o dia inteiro numa roda viva. Tem umas pernas enormes e uns membros superiores diminutos, fisionomia que, associada ao saltitar, me faz lembrar um canguru. Vive em casa de D. Matilde, proprietária da pensão Estrela, onde, a troco de cama, mesa e roupa lavada, ajuda no que é necessário, quando os telegramas e recados lhe deixam tempo livre.
–O que temos hoje tão cedo, Salta? O posto está encerrado e tu fazias bem em estar ainda em vale de lençóis – a ver se eu consigo passar um pouco mais pelas brasas.
«Queixe-se da patrulha da Guarda, senhor doutor, foram eles que passaram por casa de D. Matilde e deram recado para o avisar que no monte da Fonte Limpa precisam de si para o velho Busca, há três dias tão doente que foi à cama – e se é rijo o cabrão do velho!»
–E a Republicana não te disse do que se queixa o... –não importa, seja o que for que atormente o Busca, tenho que lá ir e adiar o passeio alinhavado com a família.
«Parece ser mal de barriga» – largou em voz esganiçada o Sebastião Enjeitado, quando já batia em retirada, aos saltos.
O dia que tinha amanhecido sorridente toldou-se por completo, sendo eu acompanhado no destino para o monte da Fonte Limpa, onde ia consultar o enfermo, por forte trovoada que me encharcou até aos ossos e manteve em constante sobressalto a minha égua baia.
Finalmente chego. Um rapaz toma conta do animal e a mulher do Busca, ti Maria Cosme, faz-me entrar na cozinha do monte.
Com mil lamentos pelo meu estado deplorável, introduz-me na grande chaminé para que me seque: «uma molha assim é meio caminho andado para doenças ruins e outras que se apanham com o enregelamento…, isto, senhor doutor, sem querer estar a ensinar o pai nosso ao padreca.»
Agrada-me o tom jocoso que mete na conversa. Sabe-me bem o calor do lume.
Ti Maria Cosme observa-me de soslaio e compreende, pelas voltas que o meu nariz dá, que capto o cheiro que empesta os quatro cantos da casa. Ri-se, comprometida. Logo desembucha: «o doente, graças a Deus, está melhor e não merecia a pena o senhor doutor apanhar esta carga de água, se eu adivinhasse que vinha aí uma trovoada.»
Supu-la incomodada por me ter desabado em cima quase metade do firmamento e confirmei: –quando esta manhã o Salta Léguas foi bater-me à porta, disse que é da barriga que ele se queixa; talvez coisa estragada que tenha comido…, adiantei convicto.
«O contrário, senhor doutor, o contrário…, alvitrou a ti Cosme com acento abertamente de gracejo. O mal, a meu ver, foi estar oito dias sem sujar, com sua licença senhor doutor, que assim percebe logo. Tinha a barriga inchada…, que nem o bucho de um boi enfartado...».
Dá gargalhadas soltas, ao mesmo tempo que um rubor súbito lhe invade a face. «Deus sabe que é modo de conversar..., que sempre fui uma mulher séria..., as duas últimas noites não me deixou pregar olho com ais!, uis! e outras coisas que tenho vergonha de dizer diante do senhor doutor. Felizmente a trovoada foi remédio santo. O velhaco dum raio tem medo delas desde pequeno. Quando hoje trovejou, aqui mesmo em cima do monte, fez pelos oito dias que esteve sem desenvolver».
De regresso a casa anotei, na agenda das mezinhas caseiras e tradições medicinais populares, este eficaz remédio para o “embaraço intestinal”, de que tomei conhecimento no monte da Fonte Limpa.

AC

Wednesday, October 25, 2006

Monday, October 16, 2006






A pequena lebre









Uma vida incerta será a desta pequena lebre, ainda na "cama" onde a mãe a pariu, alimenta e protege.
Será sol de pouca dura: logo que se aventure a correr mundo, encontrará mil e uma adversidades, a pior e mais certa das quais será um frente a frente com um caçador.
Teve sorte o animalzinho..., alguém lhe fez pontaria com uma máquina fotográfica, o que talvez seja um bom prenúncio.
Aqui fica o disparo.
AC