Saturday, May 24, 2008




















Menir da Bulhôa (Monsaraz)
Decorado com insculturas nas duas faces: uma representação solar, linhas onduladas, ziguezagues e um báculo.





















Menir fálico do Outeiro (Monsaraz)

Sunday, May 11, 2008











Transfiguração

Quis escrever um poema
a transbordar de emoção;
a montanha disse-me:
olha apenas...
vê com o coração...

Saturday, May 10, 2008













Boa colheita...
para os dias que hão-de vir,
vamos todos pedir
 que a graça seja feita.

Tuesday, April 01, 2008











O "choque petrolífero"

É notícia de abertura de telejornais e 1ª página dos jornais de norte a sul do país: numa herdade alentejana há uma exploração de "pitrólio" em plena actividade, mantida em absoluto sigílio pelo governo e seu proprietário, temendo que os portugueses abandonem os empregos, principalmente funcionários públicos, para se dedicarem definitivamente à paródia. Fonte do ministério da economia, sob anonimato, confirma a notícia e adianta que o "poço" descoberto há cerca de 1 ano, poderá abastecer o país de Krúde por outros tantos mil. Comentadores mais atentos dos "media" pensam que o "choque petrolífero" será o grande trunfo de Só Krátes nas eleições de 2009.

Sunday, March 30, 2008











Rede "Ecológica" de Nascimentos
E se o "ministro" se lembrasse de fechar uma destas maternidades...










A razão das cabras...
Quando me preparava para as fotografar de "caras"...




Monday, March 10, 2008

Reportagem de guerra...
texto: Luis Galhardas
ilustração: Paula Costa
Uma menina e uma velha vagueiam na estrada que se transformou num mar de lama, entre colunas de soldados de aspecto indiferente, carros de combate fumegando e rugindo ameaçadoramente e um frio agreste que se instalou por todo o sítio muito antes da chegada do Inverno.
Martina, assim se chama a pequena, não deve ter mais de seis anos e já transporta a beleza das mulheres da região – cabelos e olhos negros, nariz e boca com traço perfeito. Entre o braço esquerdo e o peito sustem com jeito e carinho maternais uma boneca, brinquedo que conseguiu retirar são e salvo da casa da família totalmente arrasada pelo fogo da artilharia pesada. E no que foi o seu quarto de dormir recuperou também, quase intacto, um carrinho de madeira que servia para brincadeiras ao ar livre com as amigas e onde transporta agora alguma roupa que as chamas não consumiram.
Martina viu os corpos dos pais e dos irmãos despedaçados entre os escombros mas não deitou uma lágrima, não disse uma palavra, nem emitiu um sinal de desespero perante o cenário dantesco a que viu reduzida a família.
A velha tem o peso dos anos marcado no corpo. Foi bonita? Com certeza, as mulheres aqui são todas bonitas quando novas. Depois criam barriga, quer tenham filhos, quer não, engordam e por fim mirram como árvores sem seiva e aparecem cheias de rugas.
Maria Ngucha – é o nome da mulher – há muitos anos que se arrasta só, entre privações de toda a ordem e guerras.
Poderia ser avó de Martina mas não é. São apenas companheiras no mesmo caminho que não tem outro destino que não seja fugir da zona de combate. Encontram-se num fim de tarde quando procuram abrigo da intempérie e da bandidagem, nas ruínas de uma casa esventrada.
A velha Ngucha angariara um pão e alguma fruta que reparte com Martina. Depois anicham-se uma na outra para melhor resistirem ao frio.
Ao longe ouvem-se os rebentamentos – mesmo de noite as armas não se calam «porque o trabalho tem que ser muito produtivo».
-De onde vens tu, pequena? – pergunta a velha Ngucha.
Martina encolhe os ombros, em gesto significativo, e aponta em direcção a sul. Esbatidos no céu, avistam-se os contornos dos montes para lá dos quais fica a sua cidade ou o que resta dela – um amontoado de ruínas fantasmagóricas.
-Também vens da montanha, como eu, a fugir da guerra que ainda nos mata a todos! –E como te chamas tu? – insiste a velha.
Martina volta a encolher os ombros, pois não fala desde o dia em que viu a casa e a família desfeitas. Mas desta vez duas lágrimas rolam pela face da menina que recorda os dias felizes que passou para lá daqueles montes. E tenta perceber porque apareceram tantos soldados e homens armados que em menos de dois dias transformaram em cacos a sua cidade. Com estes pensamentos terríveis para uma criança da sua idade, Martina aconchega-se melhor no corpo da mulher e deixa-se dormir.
Maria Ngucha sente o calor daquele corpo franzino que lhe dá algum conforto. Olha o céu em agradecimento pela dádiva daquela companhia.
A abóbada celeste está estrelada como nunca e por cima da casa destelhada, que lhes serve de refúgio, distingue uma estrela por ser a mais brilhante no firmamento.
Apesar do ruído longínquo e contínuo dos canhões, imediatamente pensa para si: -hoje deve ser noite de Natal – se não é poderia ser – e aquela estrela ali por cima... ...talvez queira indicar que aqui se encontra o Menino. Mas desta vez engana-se... ...porque afinal é uma Menina!
É o último pensamento da velha Maria Ngucha. Um tiro, sabe-se lá vindo de onde, transforma em pó o «refúgio» em que a menina e a velha passam a noite (supostamente de Natal).
AC

Tuesday, January 01, 2008





























Cromeleque dos Almendres

No local são visíveis 92 monólitos, fazendo parte de dois recintos diferidos no tempo da sua construção : neolítico antigo e neolítico final. Alguns apresentam gravuras, como o da fotografia com três círculos bem desenhados. Além da utilização sócio-religiosa, crê-se na sua função de "observatório astronómico" - calendarização dos equinócios, estudo de pontos estelares...
O monumento é descrito in PAISAGENS ARQUEOLÓGICAS A OESTE DE ÉVORA, 1997: Câmara Municipal de Évora e Autores

Friday, November 02, 2007


Apontamentos de uma tarde de domingo:












belo - menir do Barrocal (Monsaraz)












fantástico - "pedra mãe" do menir












sem sentido...












perdoai-lhes Senhor...





Sunday, October 21, 2007



O Tricas e o "ninho do cuco"

Texto de Luis Galhardas
Ilustração de Paula Costa

Deliciava-me ouvir o cantar melódico e ritmado do Cuco, ecoando Primavera fora e Verão dentro…, como se fosse hoje, oiço o “cu-cu”... distante entrando no meu pequeno mundo e atingindo o íntimo do meu ser, em baforadas de calor e bem estar.
Sempre que os meus tímpanos eram estimulados, aí ficava bons bocados no limiar da hipnose, ouvindo a nota musical repetitiva.
O som penetrante entusiasmava-me para sonhos do belo mundo campestre que ia observando, com curiosidade e admiração, em passeatas familiares à vinha da Faia, à quinta de Santo António, ou à romaria dos Prazeres.
Tinha, assim, esta ave em grande consideração, embora nunca lhe tivesse posto a vista em cima, o que lhe emprestava uma capa de mistério.
Até ao dia em que descobri o seu carácter torpe e malfazejo, ali pelos primeiros dias de escola.
Rapidamente me apercebi que o meu companheiro de carteira, o meu amigo Tricas, era especialista em ninhos e passarada.
Certo dia em que chegara atrasado à escola, motivo suficiente para ser aviado com umas bofetadas e um grande raspanete, em frente de toda a classe, confessou-me que tinha estado a observar um ninho de Cuco, com ovos quase a tirar passarinhos.
Fiquei perdido de entusiasmo e caí de borco na rasteira que o Tricas me passava.
As palavras saltaram-me da boca, emitidas com toque quase de exigência:
– Tricas amanhã quero ir contigo ver esse ninho! Sabes, tenho ouvido muitas vezes o cantar do Cuco, mas nunca vi nenhum.
O Tricas, matreiro, deitou-me um olhar condescendente de bom amigo e garantiu:
«Amanhã irás comigo até ao ninho do Cuco. Mas, prepara-te para teres uma surpresa porque é um ninho muito especial. E, já agora, trazes umas nozes e umas passas de figo, pois o ar do campo abre-me o apetite» – sugeriu ao de leve, mas em pulgas por enfiar o dente em guloseimas raras nessa altura do ano.
Depois de uma noite agitada, em que várias vezes acordei em sobressalto distante do quarto onde dormia, o dia amanheceu sorridente e arejado, coincidindo com o meu estado de espírito irrequieto.
Uma escapadela, às escondidas, à dispensa da casa municiou-me dos frutos secos suficientes para encher o Tricas de bons propósitos a meu respeito para a investida dessa manhã.
Engolido o pequeno almoço à pressa galguei o caminho para a escola, onde já era esperado.
E lá fomos, em direcção à “cova dos ginetes”, eu à descoberta de mais uma parcela desconhecida de um mundo em que, a pouco e pouco, se iam juntando as peças do seu complicado puzzle.
«Chiiiiu…! – alertou o Tricas quando lhe perguntei se queria nozes – não fales e não faças barulho com os pés, senão ele foge. O Cuco é muito espantadiço, e depois está horas e horas sem voltar ao ninho».
Sustive a respiração no mínimo indispensável e fui repetindo os passos do meu companheiro, seguro de que o seu rasto seria o mais indicado a seguir.
Ao chegarmos às imediações da grande cova, noutros tempos uma exploração romana de minério assinalada por marco milenar, fez-me sinal para a contornar-mos pelo lado esquerdo, em direcção a uma grande árvore que logo calculei ser a anfitriã do almejado esconderijo.
Sorrateiramente o Tricas puxou-me para o seu lado, já em cima da velha amoreira e, esticando o braço, apontou para um ninho robusto, mas disfarçado, que se adivinhava em pernada inacessível.
«O Cuco está lá a chocar, não o vês?» -segredou-me mesmo em cima do ouvido, provocando-me uma comichão calafriante.
Efectivamente sobressaía qualquer coisa escura por cima do rebordo do ninho, que adivinhei ser a ave. Pûs-me em bicos de pés, com a ilusão de que veria melhor, o que me fez desequilibrar e estatelar no chão, com ruído.
Logo de seguida ouviu-se um chilrear arrepiante e um bater de asas apressado de um pássaro preto de bico amarelo que se raspou num ápice, tempo suficiente, contudo, para o identificar com precisão.
Lancei de chofre ao meu amigo:
–Oh! Tricas, aquilo era um melro preto de bico amarelo, e disso não tenho dúvidas! Soltei a exclamação ainda meio aturdido com o logro em que caíra.
O Tricas gozava o pratinho em sonoras gargalhadas e, agarrado à barriga, não precisou de articular palavra para dizer que me pregara grande partida.
De cara séria e amuado fiz tenção de regressar à escola, não sem pôr em acção a única arma que tinha para vingar o desplante:
–Fica sabendo que não vais trincar uma única noz, e muito menos passas - sentenciei.
«Espera um pouco e deixa-me explicar porque te trouxe aqui… – argumentou insinuante e fazendo-me perceber que a fruta seca, no momento, era pouco importante – …ontem descobri que tu não sabias o “segredo” do Cuco… e mesmo que o melro não se tivesse espantado, ia acabar por te contar… não leves a mal porque não tive o propósito de o fazer por tal».
–E que segredo é esse? -inquiri meio irritado ainda.
Depois o Tricas disse o que tinha a dizer:
«O Cuco é uma ave que não presta, só me dando vontade de torcer o pescoço a quantos houver. Tu andas iludido com a falinha mansa de um cantar agradável.
Mas agora ficas a saber que o “passarão”, para não ter o trabalho de construir o seu próprio ninho, vai pôr os ovos, à socapa, nos ninhos das outras aves. Estas, sem se aperceberem da intrujíce, chocam-lhe os ovos e criam-lhe os filhotes».
–Mas isso é horrível, Tricas! Queres dizer que o Cuco se aproveita do trabalho das outras aves, e logo do trabalho mais cuidado que fazem, o da criação?
Devo ter mostrado um ar de indignação e amargura tal, que ele, em posição de ataque inicial, apressou-se a intervir em defesa do Cuco:
«Espera aí, não penses tão mal do Cuco que é um animal e procede por instinto. Eu estava a falar de cor, pois não me passa pela cabeça torcer o pescoço a qualquer ave»
E rematou, em estilo de conclusão:
«O pior é que anda muita gente a imitar o Cuco, aproveitando-se do trabalho dos outros, mas com a diferença que sabem o que estão a fazer. Tenho ouvido o meu pai contar histórias dessa gente.., a quem chama um nome esquisito... penso que é “oportunística”».
De regresso à escola, peguei no embrulho das nozes e das passas e depositei-o nas mãos do Tricas, como se de um prémio ganho se tratasse.
Eu, para mim, aprendi com ele essa grande lição do reino animal.
AC