Monday, March 10, 2008

Reportagem de guerra...
texto: Luis Galhardas
ilustração: Paula Costa
Uma menina e uma velha vagueiam na estrada que se transformou num mar de lama, entre colunas de soldados de aspecto indiferente, carros de combate fumegando e rugindo ameaçadoramente e um frio agreste que se instalou por todo o sítio muito antes da chegada do Inverno.
Martina, assim se chama a pequena, não deve ter mais de seis anos e já transporta a beleza das mulheres da região – cabelos e olhos negros, nariz e boca com traço perfeito. Entre o braço esquerdo e o peito sustem com jeito e carinho maternais uma boneca, brinquedo que conseguiu retirar são e salvo da casa da família totalmente arrasada pelo fogo da artilharia pesada. E no que foi o seu quarto de dormir recuperou também, quase intacto, um carrinho de madeira que servia para brincadeiras ao ar livre com as amigas e onde transporta agora alguma roupa que as chamas não consumiram.
Martina viu os corpos dos pais e dos irmãos despedaçados entre os escombros mas não deitou uma lágrima, não disse uma palavra, nem emitiu um sinal de desespero perante o cenário dantesco a que viu reduzida a família.
A velha tem o peso dos anos marcado no corpo. Foi bonita? Com certeza, as mulheres aqui são todas bonitas quando novas. Depois criam barriga, quer tenham filhos, quer não, engordam e por fim mirram como árvores sem seiva e aparecem cheias de rugas.
Maria Ngucha – é o nome da mulher – há muitos anos que se arrasta só, entre privações de toda a ordem e guerras.
Poderia ser avó de Martina mas não é. São apenas companheiras no mesmo caminho que não tem outro destino que não seja fugir da zona de combate. Encontram-se num fim de tarde quando procuram abrigo da intempérie e da bandidagem, nas ruínas de uma casa esventrada.
A velha Ngucha angariara um pão e alguma fruta que reparte com Martina. Depois anicham-se uma na outra para melhor resistirem ao frio.
Ao longe ouvem-se os rebentamentos – mesmo de noite as armas não se calam «porque o trabalho tem que ser muito produtivo».
-De onde vens tu, pequena? – pergunta a velha Ngucha.
Martina encolhe os ombros, em gesto significativo, e aponta em direcção a sul. Esbatidos no céu, avistam-se os contornos dos montes para lá dos quais fica a sua cidade ou o que resta dela – um amontoado de ruínas fantasmagóricas.
-Também vens da montanha, como eu, a fugir da guerra que ainda nos mata a todos! –E como te chamas tu? – insiste a velha.
Martina volta a encolher os ombros, pois não fala desde o dia em que viu a casa e a família desfeitas. Mas desta vez duas lágrimas rolam pela face da menina que recorda os dias felizes que passou para lá daqueles montes. E tenta perceber porque apareceram tantos soldados e homens armados que em menos de dois dias transformaram em cacos a sua cidade. Com estes pensamentos terríveis para uma criança da sua idade, Martina aconchega-se melhor no corpo da mulher e deixa-se dormir.
Maria Ngucha sente o calor daquele corpo franzino que lhe dá algum conforto. Olha o céu em agradecimento pela dádiva daquela companhia.
A abóbada celeste está estrelada como nunca e por cima da casa destelhada, que lhes serve de refúgio, distingue uma estrela por ser a mais brilhante no firmamento.
Apesar do ruído longínquo e contínuo dos canhões, imediatamente pensa para si: -hoje deve ser noite de Natal – se não é poderia ser – e aquela estrela ali por cima... ...talvez queira indicar que aqui se encontra o Menino. Mas desta vez engana-se... ...porque afinal é uma Menina!
É o último pensamento da velha Maria Ngucha. Um tiro, sabe-se lá vindo de onde, transforma em pó o «refúgio» em que a menina e a velha passam a noite (supostamente de Natal).
AC

Tuesday, January 01, 2008





























Cromeleque dos Almendres

No local são visíveis 92 monólitos, fazendo parte de dois recintos diferidos no tempo da sua construção : neolítico antigo e neolítico final. Alguns apresentam gravuras, como o da fotografia com três círculos bem desenhados. Além da utilização sócio-religiosa, crê-se na sua função de "observatório astronómico" - calendarização dos equinócios, estudo de pontos estelares...
O monumento é descrito in PAISAGENS ARQUEOLÓGICAS A OESTE DE ÉVORA, 1997: Câmara Municipal de Évora e Autores

Friday, November 02, 2007


Apontamentos de uma tarde de domingo:












belo - menir do Barrocal (Monsaraz)












fantástico - "pedra mãe" do menir












sem sentido...












perdoai-lhes Senhor...





Sunday, October 21, 2007



O Tricas e o "ninho do cuco"

Texto de Luis Galhardas
Ilustração de Paula Costa

Deliciava-me ouvir o cantar melódico e ritmado do Cuco, ecoando Primavera fora e Verão dentro…, como se fosse hoje, oiço o “cu-cu”... distante entrando no meu pequeno mundo e atingindo o íntimo do meu ser, em baforadas de calor e bem estar.
Sempre que os meus tímpanos eram estimulados, aí ficava bons bocados no limiar da hipnose, ouvindo a nota musical repetitiva.
O som penetrante entusiasmava-me para sonhos do belo mundo campestre que ia observando, com curiosidade e admiração, em passeatas familiares à vinha da Faia, à quinta de Santo António, ou à romaria dos Prazeres.
Tinha, assim, esta ave em grande consideração, embora nunca lhe tivesse posto a vista em cima, o que lhe emprestava uma capa de mistério.
Até ao dia em que descobri o seu carácter torpe e malfazejo, ali pelos primeiros dias de escola.
Rapidamente me apercebi que o meu companheiro de carteira, o meu amigo Tricas, era especialista em ninhos e passarada.
Certo dia em que chegara atrasado à escola, motivo suficiente para ser aviado com umas bofetadas e um grande raspanete, em frente de toda a classe, confessou-me que tinha estado a observar um ninho de Cuco, com ovos quase a tirar passarinhos.
Fiquei perdido de entusiasmo e caí de borco na rasteira que o Tricas me passava.
As palavras saltaram-me da boca, emitidas com toque quase de exigência:
– Tricas amanhã quero ir contigo ver esse ninho! Sabes, tenho ouvido muitas vezes o cantar do Cuco, mas nunca vi nenhum.
O Tricas, matreiro, deitou-me um olhar condescendente de bom amigo e garantiu:
«Amanhã irás comigo até ao ninho do Cuco. Mas, prepara-te para teres uma surpresa porque é um ninho muito especial. E, já agora, trazes umas nozes e umas passas de figo, pois o ar do campo abre-me o apetite» – sugeriu ao de leve, mas em pulgas por enfiar o dente em guloseimas raras nessa altura do ano.
Depois de uma noite agitada, em que várias vezes acordei em sobressalto distante do quarto onde dormia, o dia amanheceu sorridente e arejado, coincidindo com o meu estado de espírito irrequieto.
Uma escapadela, às escondidas, à dispensa da casa municiou-me dos frutos secos suficientes para encher o Tricas de bons propósitos a meu respeito para a investida dessa manhã.
Engolido o pequeno almoço à pressa galguei o caminho para a escola, onde já era esperado.
E lá fomos, em direcção à “cova dos ginetes”, eu à descoberta de mais uma parcela desconhecida de um mundo em que, a pouco e pouco, se iam juntando as peças do seu complicado puzzle.
«Chiiiiu…! – alertou o Tricas quando lhe perguntei se queria nozes – não fales e não faças barulho com os pés, senão ele foge. O Cuco é muito espantadiço, e depois está horas e horas sem voltar ao ninho».
Sustive a respiração no mínimo indispensável e fui repetindo os passos do meu companheiro, seguro de que o seu rasto seria o mais indicado a seguir.
Ao chegarmos às imediações da grande cova, noutros tempos uma exploração romana de minério assinalada por marco milenar, fez-me sinal para a contornar-mos pelo lado esquerdo, em direcção a uma grande árvore que logo calculei ser a anfitriã do almejado esconderijo.
Sorrateiramente o Tricas puxou-me para o seu lado, já em cima da velha amoreira e, esticando o braço, apontou para um ninho robusto, mas disfarçado, que se adivinhava em pernada inacessível.
«O Cuco está lá a chocar, não o vês?» -segredou-me mesmo em cima do ouvido, provocando-me uma comichão calafriante.
Efectivamente sobressaía qualquer coisa escura por cima do rebordo do ninho, que adivinhei ser a ave. Pûs-me em bicos de pés, com a ilusão de que veria melhor, o que me fez desequilibrar e estatelar no chão, com ruído.
Logo de seguida ouviu-se um chilrear arrepiante e um bater de asas apressado de um pássaro preto de bico amarelo que se raspou num ápice, tempo suficiente, contudo, para o identificar com precisão.
Lancei de chofre ao meu amigo:
–Oh! Tricas, aquilo era um melro preto de bico amarelo, e disso não tenho dúvidas! Soltei a exclamação ainda meio aturdido com o logro em que caíra.
O Tricas gozava o pratinho em sonoras gargalhadas e, agarrado à barriga, não precisou de articular palavra para dizer que me pregara grande partida.
De cara séria e amuado fiz tenção de regressar à escola, não sem pôr em acção a única arma que tinha para vingar o desplante:
–Fica sabendo que não vais trincar uma única noz, e muito menos passas - sentenciei.
«Espera um pouco e deixa-me explicar porque te trouxe aqui… – argumentou insinuante e fazendo-me perceber que a fruta seca, no momento, era pouco importante – …ontem descobri que tu não sabias o “segredo” do Cuco… e mesmo que o melro não se tivesse espantado, ia acabar por te contar… não leves a mal porque não tive o propósito de o fazer por tal».
–E que segredo é esse? -inquiri meio irritado ainda.
Depois o Tricas disse o que tinha a dizer:
«O Cuco é uma ave que não presta, só me dando vontade de torcer o pescoço a quantos houver. Tu andas iludido com a falinha mansa de um cantar agradável.
Mas agora ficas a saber que o “passarão”, para não ter o trabalho de construir o seu próprio ninho, vai pôr os ovos, à socapa, nos ninhos das outras aves. Estas, sem se aperceberem da intrujíce, chocam-lhe os ovos e criam-lhe os filhotes».
–Mas isso é horrível, Tricas! Queres dizer que o Cuco se aproveita do trabalho das outras aves, e logo do trabalho mais cuidado que fazem, o da criação?
Devo ter mostrado um ar de indignação e amargura tal, que ele, em posição de ataque inicial, apressou-se a intervir em defesa do Cuco:
«Espera aí, não penses tão mal do Cuco que é um animal e procede por instinto. Eu estava a falar de cor, pois não me passa pela cabeça torcer o pescoço a qualquer ave»
E rematou, em estilo de conclusão:
«O pior é que anda muita gente a imitar o Cuco, aproveitando-se do trabalho dos outros, mas com a diferença que sabem o que estão a fazer. Tenho ouvido o meu pai contar histórias dessa gente.., a quem chama um nome esquisito... penso que é “oportunística”».
De regresso à escola, peguei no embrulho das nozes e das passas e depositei-o nas mãos do Tricas, como se de um prémio ganho se tratasse.
Eu, para mim, aprendi com ele essa grande lição do reino animal.
AC

Sunday, October 07, 2007














Residência: passagem de nível com guarda...


Há dias cruzei-me com um “maltês” instalado com sua pobre trouxa, algures na quase reformada passagem de nível, esquecido, quem sabe, por comboio que ali passou, entre um tempo que não chegou e outro tempo que nunca chegará.
E assim estava: com ar cansado de longa caminhada, encostado a velha parede de casa abandonada, porventura seu último refúgio, ou cais de sua última partida.
A primeira vez que nele reparei foi num desses dias que chamam “de Natal”, época de conforto e abundância para alguns, que não para esta “pobre criatura de Deus”, há muito engrenada em calendário monótono e repetitivo de miséria.
Era um dia Invernal, em início de tarde cinzenta, com chuva miudinha e frio a penetrar até aos ossos.
A cidade mostrava-se com aura fantasmagórica, mas sempre bela como é. Olhei as torres da Sé, meu símbolo preferido do burgo, cicerones cardeais de quem chega e de quem parte, tecto deste ambiente arquitectónico deslumbrante que dá prazer, tranquilidade e gosto de aqui estar.
Dispus-me a sair para observar as velhas cúpulas que ao longe se avistam de qualquer destino. Apontando ao céu lembram foguetões em rampa de lançamento, desde há séculos com partida adiada.
Como este homem que encontrei na passagem de nível, também ele adiado por um futuro que já não lhe pertencerá.
O seu semblante espectral sobressaía da parede onde procurava, certamente, um pouco de conforto perante a intempérie.
A pele castanha escura e enrugada, misto de muitas andanças ao ar livre e sujidade, contrastava com a cor dos farrapos acinzentados que lhe cobriam o corpo.
À sua frente meia dúzia de tábuas tentavam arder, contrariado o lume pelos pingos da chuva persistente.
De vez em quando ajeitava uma lambida e negra panela de barro, cheia de coisa nenhuma, à magra lareira, terminando o movimento num gesticular de espera, dando a ilusão que a comida estava quase no ponto.
E do bolso do tabaco do casaco, que foi esticando com os anos, ia tirando uma garrafa que metia nos lábios ressequidos, para longos goles de um líquido que tresandava a aguardente rasca.
Então os seus olhos, encovados e difíceis de vislumbrar, assomavam à luz do tempo com uma réstia de brilho e de alento.
Detive a marcha…, num acenar chamativo procurei que se aproximasse…, em vão.
Há muito abandonado a si próprio perdera, com certeza, o hábito de ouvir alguém chamá-lo.
Insistindo eu, agora com ruído, assestou em mim um olhar alerta e ar amedrontado de “animal” perseguido. Sem dizer palavra, a mão esquerda moveu-se em linguagem gestual, significativa de que o deixasse em paz.
Mesmo assim, cheguei-me mais perto daquela amálgama humana que expelia um cheiro nauseabundo e indaguei: -ó patrão, vem de onde vossemecê?
Ouvi, em sobressalto, a sua voz gutural, entaramelada pelo efeito dos frequentes goles de bagaço «vai chamar patrão a outro, que eu não sou patrão, nem criado de ninguém, -acentuou- e não venho de lado nenhum, ó meu cegueta…, eu estou aqui, nesta casa que me pertence e onde sempre tenho morado».
Fiquei de momento atrapalhado, mas percebi a agressividade e não desisti do diálogo: -não queria ofendê-lo senhor..., como é o seu nome?
Olhando-me, distante, e enfiando-me uma cuspidela quase em cima dos pés, adiantou: «podes chamar-me Zé, Francisco, Inácio, ou lá o nome que tu queiras, que a mim qualquer nome me serve». Dito isto, pôs novamente o gargalo à boca, para mais uma bagaçada.
-Realmente o nome de uma pessoa não importa muito - argumentei concordante; o que interessa é o que a pessoa é… ou não é…
«Ó pá, estou a ver que me começas a perceber… -ripostou; já agora, como tens cara de bom rapaz, empresta aí duzentos paus para ir encher a garrafa…, é que o chão da casa é húmido e eu preciso de aquecer os pés».
Em lance quase de magia surripiou-me da mão a moeda que tinha tirado do bolso e lá foi, aos solavancos, a caminho da tasca da esquina.
Quando em outro dia passei, surgiu de rompante à porta de batente da taberna e, com o braço direito erguido empunhando a garrafa de aguardente rasca, gritou-me:
«Ó pá, obrigadinho…, vou bebê-la à tua saúde…, se precisares de qualquer coisa aqui me encontras… passagem de nível com guarda, 7000 Évora.
Sinceramente agradeci.
AC

Friday, October 05, 2007

A rua do arco





















































A nova geração











EXALTAÇÃO!


Évora, do Alentejo a encruzilhada,
das “vielas” e dos becos sem saída...;
o grande e terno amor da minha vida,
sobre o meu leito sempre debruçada...!


Évora uma beleza delicada
de graciosos encantos revestida;
onde todo o artista tem guarida,
por cantores e poetas exaltada!


Do antigo e etéreo “coro dos meninos”
a grandiosidade magistral
donde brotavam cânticos divinos...,


Évora, “Património Mundial”,
a cantar pela voz dos velhos sinos
da sua majestosa Catedral!...

(soneto de José Camões Galhardas)

Thursday, October 04, 2007




gosto de castelos,
de cada um em particular...,
porque são velhos e são belos...
o que é raro não é vulgar...




Convento da Flor da Rosa

Sede da ordem militar de S. João do Hospital ou dos Hospitalários, que para aqui se transferiu de Leça do Bailio, sendo então seu prior D. Álvaro Gonçalves Pereira, pai de D. Nuno Álvares Pereira. (hoje tem anexa uma pousada, que ao tempo da fotografia não existia)
AC

Sunday, September 30, 2007


Poeta

O poeta escreve a rima
por dom de inspiração
e por mui sentir estima,
que lhe vai no coração…,
mesmo que se chame ilusão!


O poeta escreve do amor…,
da ternura…, da paixão…
Mas vive com sua dor
e horas de solidão:
sofrer há por devoção.


O poeta escreve da vida
sempre com letra dourada;
e de forma tão sentida,
que chega a ser desejada
essa vida, que é forjada.



O poeta não escreve a fingir,
tudo o que sente é verdade.
Está na alma esse sentir...,
que o não deixa mentir.
Com toda a sinceridade…

AC

Sunday, September 23, 2007

Fonte do Pomar do Espinheiro

Construída no séc. XVI, em propriedade pertencente ao convento do Espinheiro.
Tem motivos da arte manuelina-mudéjar.
Sítio: perto da povoação da Graça do Divor, passando a antiga estação do caminho de ferro, sentido Graça – Évora, do lado direito da estrada vê-se muito bem.
Atenção que é difícil estacionar. Sugerimos o agradável passeio de bicicleta pela ecopista, onde há sinalização do monumento.
***
Bonita fonte há no campo,
mais bonita que a da cidade;
é para quem ouve um encanto
escutar o seu belo pranto
que nos traz a saciedade.
***
A quem tem sede acode
e o calor mata nas almas,
ao rico e a quem não pode,
dá fartura a quem se acolhe
à sombra, nas tardes calmas.
AC

Sunday, September 16, 2007

Alentejo - "Sol posto"













A hora é de silêncio, ensurdecedor,
e de respeito pelo Astro
que vai descansar, em seu pudor,
longe da Noite, num outro rasto.

AC

Sunday, September 09, 2007














Mar de luz...


Os raios solares atingem, enfim, o mar, depois de uma longínqua e vertiginosa viagem, desenhando à minha frente um caminho prateado que me convida.
Ouço o som da dança das ondas, que a leve brisa sopra até mim e torna mais nítido, ao mesmo tempo que me inflama as narinas com o cheiro da maresia.
É fim de tarde na praia que conheço desde sempre.
ML toma um banho apetecível, gesticulando de longe para que a acompanhe. A brisa também transporta o seu recado: -vem …, a água está um caldo…
Por agora prefiro a companhia de Vergílio Ferreira – “aparição”. Estou embrenhado na leitura que julgava ter acontecido há muitos anos, mas tudo o que leio, ou releio, é-me presente, como se tivesse sido ontem a frénetica procura do “eu”, entre a serra beirã e a planície alentejana.
ML, delicadamente, interrompe a leitura para dizer «foi o melhor banho dos últimos vinte anos...».
Arrumo o livro no saco de praia para apreciar o mar. O Sol vai mais baixo no horizonte, no seu ritmo diário, repetitivo. O caminho de luminosidade prateada transforma-se noutro, cor de fogo. Fecho os olhos, sonho, apetece-me entrar mar adentro, percorrê-lo nessa viagem em sentido contrário. Vejo uma imensidão de estrelas sobre o mar…, o Universo!
Acordo bruscamente com a algazarra da rapaziada que joga à bola…, não se entendem quanto às regras do jogo.
Continuo a observar o mar de olhos bem abertos, até onde a visão mo permite. Barcos passam na lonjura, ou mais perto, ludibriando quem os enxerga.
A algazarra da rapaziada volta a captar-me a atenção: agora não se entendem quanto ao número de golos marcados. Um deles chuta a bola na minha direcção…, quando tento desviar-me desequilibro-me e faço uma pirueta na companhia da velha cadeira de praia.
Toca a arrumar o estojo…, são horas de procurar sossego!
(praia de S. Torpes-Set. 2007)
AC

Monday, August 27, 2007













Há um castelo no monte,
no meio de belas vinhas,
e dentro tem uma fonte
de águas mui limpinhas,
para encher as cantarinhas.

Tem uma moura encantada
essa fonte d’ água cristalina,
que é por ela derramada
desde o tempo que foi chorada...
...dizem que bela menina.

AC



Friday, August 24, 2007










Mar (a Miguel Torga)

Ó Mar sem fim...,
Mar das caravelas,
que me tens a mim
porque navego nelas.

Ó Mar oceano…,
Mar imenso...,
do navegador lusitano
a que pertenço.

O Mar, sempre o Mar
dos nossos avós…,
porque a palavra navegar
a descobrimos nós!

AC

Wednesday, August 22, 2007


Crepúsculo
Apaga-se a chama
no ocaso da vida
de quem, então, clama
uma nova guarida...
AC

Thursday, August 09, 2007











A estação da Felicidade...




Na velha estação há muito que não passa um comboio.
A azáfama dos passageiros que vão e que vêm, as últimas recomendações dos que ficam aos que partem, uma menina de franjinha, com lágrima no canto do olho, assoma a uma janela embaciada de onde vê, pela última vez, o avô, um vendedor ambulante procura despachar os últimos bolos, o homem corpulento de bigodes retorcidos e boné branco dá o sinal de partida com a corneta sibilante, um último passageiro surge em desalmada correria na gare, suando em bica com o peso da bagagem...
Nenhum dos frequentadores da velha estação tem memória de um cenário assim.
O edifício tem sido carcomido por muitos anos de abandono – janelas e portas estão definitivamente escancaradas a toda a espécie de bicharada – o nome do local, por cima da porta da gare central, ainda conserva uma letra bem composta e a erva daninha esburacou pavimentos e paredes, a seu belo prazer, fazendo das salas de espera um autentico matagal.
Ouve-se o vento que sopra frio entre postigos e não tem tempo de parar ali...
Nas traseiras do casario decadente uma pequena casa contrasta com o amontoado de ruínas e lixo – as paredes mostram a alvura que lhes é própria, fazendo evidenciar a toda a volta um rodapé azul forte e as madeiras exteriores, pintadas de cinzento, apresentam um estado de conservação impecável. Até o telhado tem aspecto de arranjo recente.
É o bar da Felicidade. Confunde-se o nome do estabelecimento, com o da respectiva patroa que atrás do balcão atende os fregueses de copo de cerveja em punho.
Quando se fixa a figura de Felicidade dois pormenores sobressaem: –os olhos, com sobrancelhas postiças que lhe dão um semblante sempre franzido, denunciam a qualquer hora do dia ou da noite uma boa dose de álcool já ingerido; –e os lábios, que ressaltam à distância devido ao batôn vermelho berrante aplicado em sucessivas camadas.
O resto do seu conjunto também tem um aspecto confrangedor, a começar pelo cabelo que mais parece uma pasta de tinta arruivada, em completo desalinho, e onde até mais de metade do comprimento se vê a cor original branca; depois a multidão de rugas semeadas por todo o rosto, as roupas de cores chocantes com nódoas que se vão sobrepondo umas às outras e, para cúmulo, esta mulher de mais de sessenta e cinco anos usa uma mini saia descarada que lhe põe à mostra umas pernas ressequidas, cheias de pêlos. E ainda ouro, muito ouro, entre anéis, pulseiras, correntes, pregadores, brincos e até um relicário, meio enfiado entre os seios avantajados, contendo a fotografia muito sumida do marido falecido há trinta anos.
Acácio vendia guloseimas e bebidas frescas nos comboios que nesse tempo andavam cheios de magalas e de passageiros anónimos que iam e que vinham à procura de vida. Felicidade também corria de comboio em comboio, sempre naquele que transportava mais soldados – ela atrás deles para se governar e eles no seu encalço para descomprimir as horas de tédio passadas semanas a fio no quartel.
Foi num desses comboios que Acácio e Felicidade se conheceram, se amaram, se entregaram definitivamente um ao outro e, de comum acordo, resolveram que era tempo de se apearem na próxima estação, fosse ela qual fosse.
Em princípio de vida montaram o bar na movimentada estação de S. Romão, um entrecruzamento ferroviário da importante linha do Sul com a de Este.
O negócio das sandes e das bifanas foi de vento em poupa. Acácio prosperou rapidamente e teria ido longe, não fosse trucidado pelo Sudexpress devido ao hábito e excesso de confiança em transpor a via férrea de um lado para o outro, naquele dia fatídico à hora de passar o Sud que não fazia escala em S. Romão. Este acidente impensável sufocou a vida arejada de Felicidade que acreditava, com fé inabalável, ter desencantado numa carruagem do Sudexpress o homem que mesmo em sonhos é difícil existir. Fora ele que, conhecendo a faceta desagradável da sua vida, pegara nela ao colo no dia do casamento, com toda a ternura que tinha dentro de si e jamais deixara de a apaparicar com a satisfação das mais pequenas vontades que lhe adivinhava.
Naquela tarde fria mas com uma luminosidade fora do habitual, Felicidade assistiu ao espectáculo macabro da recolha dos destroços do marido para o caixão depositado na gare central e pensou que no mesmo esquife seria sepultada a sua alma, precocemente arrancada do corpo por desgosto tão grande. Jurou que não voltaria a casar-se, em memória de Acácio que naqueles breves anos em comum dera à sua vida o pleno sentido do nome que ela usava desde a pia baptismal.
Os fregueses do bar da velha estação, que pululam à sua volta como abelhas em torno do mel, desconhecem as alegrias e tristezas da vida de Felicidade. Mas das misérias da velha “empresária”, consumida pelo tempo, estão a par delas como se de segredos das suas vidas se tratassem.
Alguns ainda se recordam vagamente da passagem dos comboios, do grande corrupio de gentes e da primitiva função do antro que agora frequentam assiduamente.
Os comboios foram-se atrasando e o tempo trouxe desemprego e outras calamidades. Finalmente deixaram de passar.
Mas é sabido que não foi por isso que Felicidade entregou o corpo ao álcool...

AC

Monday, July 23, 2007

Alburquerque
(raia fronteiriça Campo Maior - Ouguela)













Praça de Armas:

cepo de decapitação










escudo muçulmano











escudo português