Friday, October 05, 2007

A rua do arco





















































A nova geração











EXALTAÇÃO!


Évora, do Alentejo a encruzilhada,
das “vielas” e dos becos sem saída...;
o grande e terno amor da minha vida,
sobre o meu leito sempre debruçada...!


Évora uma beleza delicada
de graciosos encantos revestida;
onde todo o artista tem guarida,
por cantores e poetas exaltada!


Do antigo e etéreo “coro dos meninos”
a grandiosidade magistral
donde brotavam cânticos divinos...,


Évora, “Património Mundial”,
a cantar pela voz dos velhos sinos
da sua majestosa Catedral!...

(soneto de José Camões Galhardas)

Thursday, October 04, 2007




gosto de castelos,
de cada um em particular...,
porque são velhos e são belos...
o que é raro não é vulgar...




Convento da Flor da Rosa

Sede da ordem militar de S. João do Hospital ou dos Hospitalários, que para aqui se transferiu de Leça do Bailio, sendo então seu prior D. Álvaro Gonçalves Pereira, pai de D. Nuno Álvares Pereira. (hoje tem anexa uma pousada, que ao tempo da fotografia não existia)
AC

Sunday, September 30, 2007


Poeta

O poeta escreve a rima
por dom de inspiração
e por mui sentir estima,
que lhe vai no coração…,
mesmo que se chame ilusão!


O poeta escreve do amor…,
da ternura…, da paixão…
Mas vive com sua dor
e horas de solidão:
sofrer há por devoção.


O poeta escreve da vida
sempre com letra dourada;
e de forma tão sentida,
que chega a ser desejada
essa vida, que é forjada.



O poeta não escreve a fingir,
tudo o que sente é verdade.
Está na alma esse sentir...,
que o não deixa mentir.
Com toda a sinceridade…

AC

Sunday, September 23, 2007

Fonte do Pomar do Espinheiro

Construída no séc. XVI, em propriedade pertencente ao convento do Espinheiro.
Tem motivos da arte manuelina-mudéjar.
Sítio: perto da povoação da Graça do Divor, passando a antiga estação do caminho de ferro, sentido Graça – Évora, do lado direito da estrada vê-se muito bem.
Atenção que é difícil estacionar. Sugerimos o agradável passeio de bicicleta pela ecopista, onde há sinalização do monumento.
***
Bonita fonte há no campo,
mais bonita que a da cidade;
é para quem ouve um encanto
escutar o seu belo pranto
que nos traz a saciedade.
***
A quem tem sede acode
e o calor mata nas almas,
ao rico e a quem não pode,
dá fartura a quem se acolhe
à sombra, nas tardes calmas.
AC

Sunday, September 16, 2007

Alentejo - "Sol posto"













A hora é de silêncio, ensurdecedor,
e de respeito pelo Astro
que vai descansar, em seu pudor,
longe da Noite, num outro rasto.

AC

Sunday, September 09, 2007














Mar de luz...


Os raios solares atingem, enfim, o mar, depois de uma longínqua e vertiginosa viagem, desenhando à minha frente um caminho prateado que me convida.
Ouço o som da dança das ondas, que a leve brisa sopra até mim e torna mais nítido, ao mesmo tempo que me inflama as narinas com o cheiro da maresia.
É fim de tarde na praia que conheço desde sempre.
ML toma um banho apetecível, gesticulando de longe para que a acompanhe. A brisa também transporta o seu recado: -vem …, a água está um caldo…
Por agora prefiro a companhia de Vergílio Ferreira – “aparição”. Estou embrenhado na leitura que julgava ter acontecido há muitos anos, mas tudo o que leio, ou releio, é-me presente, como se tivesse sido ontem a frénetica procura do “eu”, entre a serra beirã e a planície alentejana.
ML, delicadamente, interrompe a leitura para dizer «foi o melhor banho dos últimos vinte anos...».
Arrumo o livro no saco de praia para apreciar o mar. O Sol vai mais baixo no horizonte, no seu ritmo diário, repetitivo. O caminho de luminosidade prateada transforma-se noutro, cor de fogo. Fecho os olhos, sonho, apetece-me entrar mar adentro, percorrê-lo nessa viagem em sentido contrário. Vejo uma imensidão de estrelas sobre o mar…, o Universo!
Acordo bruscamente com a algazarra da rapaziada que joga à bola…, não se entendem quanto às regras do jogo.
Continuo a observar o mar de olhos bem abertos, até onde a visão mo permite. Barcos passam na lonjura, ou mais perto, ludibriando quem os enxerga.
A algazarra da rapaziada volta a captar-me a atenção: agora não se entendem quanto ao número de golos marcados. Um deles chuta a bola na minha direcção…, quando tento desviar-me desequilibro-me e faço uma pirueta na companhia da velha cadeira de praia.
Toca a arrumar o estojo…, são horas de procurar sossego!
(praia de S. Torpes-Set. 2007)
AC

Monday, August 27, 2007













Há um castelo no monte,
no meio de belas vinhas,
e dentro tem uma fonte
de águas mui limpinhas,
para encher as cantarinhas.

Tem uma moura encantada
essa fonte d’ água cristalina,
que é por ela derramada
desde o tempo que foi chorada...
...dizem que bela menina.

AC



Friday, August 24, 2007










Mar (a Miguel Torga)

Ó Mar sem fim...,
Mar das caravelas,
que me tens a mim
porque navego nelas.

Ó Mar oceano…,
Mar imenso...,
do navegador lusitano
a que pertenço.

O Mar, sempre o Mar
dos nossos avós…,
porque a palavra navegar
a descobrimos nós!

AC

Wednesday, August 22, 2007


Crepúsculo
Apaga-se a chama
no ocaso da vida
de quem, então, clama
uma nova guarida...
AC

Thursday, August 09, 2007











A estação da Felicidade...




Na velha estação há muito que não passa um comboio.
A azáfama dos passageiros que vão e que vêm, as últimas recomendações dos que ficam aos que partem, uma menina de franjinha, com lágrima no canto do olho, assoma a uma janela embaciada de onde vê, pela última vez, o avô, um vendedor ambulante procura despachar os últimos bolos, o homem corpulento de bigodes retorcidos e boné branco dá o sinal de partida com a corneta sibilante, um último passageiro surge em desalmada correria na gare, suando em bica com o peso da bagagem...
Nenhum dos frequentadores da velha estação tem memória de um cenário assim.
O edifício tem sido carcomido por muitos anos de abandono – janelas e portas estão definitivamente escancaradas a toda a espécie de bicharada – o nome do local, por cima da porta da gare central, ainda conserva uma letra bem composta e a erva daninha esburacou pavimentos e paredes, a seu belo prazer, fazendo das salas de espera um autentico matagal.
Ouve-se o vento que sopra frio entre postigos e não tem tempo de parar ali...
Nas traseiras do casario decadente uma pequena casa contrasta com o amontoado de ruínas e lixo – as paredes mostram a alvura que lhes é própria, fazendo evidenciar a toda a volta um rodapé azul forte e as madeiras exteriores, pintadas de cinzento, apresentam um estado de conservação impecável. Até o telhado tem aspecto de arranjo recente.
É o bar da Felicidade. Confunde-se o nome do estabelecimento, com o da respectiva patroa que atrás do balcão atende os fregueses de copo de cerveja em punho.
Quando se fixa a figura de Felicidade dois pormenores sobressaem: –os olhos, com sobrancelhas postiças que lhe dão um semblante sempre franzido, denunciam a qualquer hora do dia ou da noite uma boa dose de álcool já ingerido; –e os lábios, que ressaltam à distância devido ao batôn vermelho berrante aplicado em sucessivas camadas.
O resto do seu conjunto também tem um aspecto confrangedor, a começar pelo cabelo que mais parece uma pasta de tinta arruivada, em completo desalinho, e onde até mais de metade do comprimento se vê a cor original branca; depois a multidão de rugas semeadas por todo o rosto, as roupas de cores chocantes com nódoas que se vão sobrepondo umas às outras e, para cúmulo, esta mulher de mais de sessenta e cinco anos usa uma mini saia descarada que lhe põe à mostra umas pernas ressequidas, cheias de pêlos. E ainda ouro, muito ouro, entre anéis, pulseiras, correntes, pregadores, brincos e até um relicário, meio enfiado entre os seios avantajados, contendo a fotografia muito sumida do marido falecido há trinta anos.
Acácio vendia guloseimas e bebidas frescas nos comboios que nesse tempo andavam cheios de magalas e de passageiros anónimos que iam e que vinham à procura de vida. Felicidade também corria de comboio em comboio, sempre naquele que transportava mais soldados – ela atrás deles para se governar e eles no seu encalço para descomprimir as horas de tédio passadas semanas a fio no quartel.
Foi num desses comboios que Acácio e Felicidade se conheceram, se amaram, se entregaram definitivamente um ao outro e, de comum acordo, resolveram que era tempo de se apearem na próxima estação, fosse ela qual fosse.
Em princípio de vida montaram o bar na movimentada estação de S. Romão, um entrecruzamento ferroviário da importante linha do Sul com a de Este.
O negócio das sandes e das bifanas foi de vento em poupa. Acácio prosperou rapidamente e teria ido longe, não fosse trucidado pelo Sudexpress devido ao hábito e excesso de confiança em transpor a via férrea de um lado para o outro, naquele dia fatídico à hora de passar o Sud que não fazia escala em S. Romão. Este acidente impensável sufocou a vida arejada de Felicidade que acreditava, com fé inabalável, ter desencantado numa carruagem do Sudexpress o homem que mesmo em sonhos é difícil existir. Fora ele que, conhecendo a faceta desagradável da sua vida, pegara nela ao colo no dia do casamento, com toda a ternura que tinha dentro de si e jamais deixara de a apaparicar com a satisfação das mais pequenas vontades que lhe adivinhava.
Naquela tarde fria mas com uma luminosidade fora do habitual, Felicidade assistiu ao espectáculo macabro da recolha dos destroços do marido para o caixão depositado na gare central e pensou que no mesmo esquife seria sepultada a sua alma, precocemente arrancada do corpo por desgosto tão grande. Jurou que não voltaria a casar-se, em memória de Acácio que naqueles breves anos em comum dera à sua vida o pleno sentido do nome que ela usava desde a pia baptismal.
Os fregueses do bar da velha estação, que pululam à sua volta como abelhas em torno do mel, desconhecem as alegrias e tristezas da vida de Felicidade. Mas das misérias da velha “empresária”, consumida pelo tempo, estão a par delas como se de segredos das suas vidas se tratassem.
Alguns ainda se recordam vagamente da passagem dos comboios, do grande corrupio de gentes e da primitiva função do antro que agora frequentam assiduamente.
Os comboios foram-se atrasando e o tempo trouxe desemprego e outras calamidades. Finalmente deixaram de passar.
Mas é sabido que não foi por isso que Felicidade entregou o corpo ao álcool...

AC

Monday, July 23, 2007

Alburquerque
(raia fronteiriça Campo Maior - Ouguela)













Praça de Armas:

cepo de decapitação










escudo muçulmano











escudo português

Sunday, July 08, 2007

Thursday, June 28, 2007

O Bom Observador









À primeira vista as duas fotografias parecem ser da Anta-Capela de S. Brissos... Encontre as "pequenas diferenças" entre estes dois monumentos.

Tuesday, May 01, 2007

O Primeiro 1º de Maio


Recordo que estava calor e uma luminosidade deslumbrante…
Ouvia-se a canção do Zeca Afonso: «Maio, maduro Maio, quem te pintou…»
O fim de Abril anticipara Maio. A onda popular, sedenta de liberdade, arrastara os militares para o seu lado.
AC

Naqueles dias que se seguiram à onda avassaladora da revolução popular, passeávamos pelas ruas da Cidade, de manifestação em manifestação, apoiando e encorajando o MFA. O clímax desses dias, que passaram velozmente, tão cheios de peripécias e acontecimentos inesquecíveis eles foram, aconteceu no primeiro 1º de Maio.
Na véspera desse dia, uns tipos, que ninguém vira antes na cantina da Faculdade, apareceram por lá dizendo que pertenciam ao MRPP, movimento revolucionário verdadeiramente representativo dos camponeses e da classe operária, ao lado de quem os estudantes se deviam imediatamente colocar, juntando-se em massa na festa do 1º de Maio, dia de luta e regozijo de todos os que queriam estar sempre..., sempre ao lado do povo...
O sujeito que falava usava um bigode farfalhudo, o que me fez imediatamente associá-lo a um dos quatro camaradas afixados por tudo quanto era parede e recanto das Faculdades.
Era um fim de tarde apetecível, pulverizada de perfumes primaveris, quando me juntei ao Custódio e ao Baltazar à hora do jantar, na esplanada improvisada que os estudantes montavam à entrada da cantina da Faculdade de Ciências.
Depois de me sentar junto deles, o Baltazar – o que dominava melhor os assuntos políticos do momento – pôs o mote na conversa.
«Consta que amanhã haverá uma grande manifestação..., o MFA declarou o dia feriado...».
O Custódio riu-se para mim, à socapa, e depois argumentou com o Baltazar: «ó senhor engenheiro, feriados não deixas escapar um..., e mais um que fosse..., pois a boa vida não cansa, nem pesa...».
«Mas amanhã é mesmo o dia do trabalhador..., e dia do trabalho...», disse o Baltazar, ao mesmo tempo que encolhia os ombros com ar de irritação, «só na merda deste país era proibido festejá-lo!».
Acabámos de comer. A conversa ficou por ali, pois um grupo de colegas do género feminino, que se acomodara por perto, absorveu inteiramente a atenção do nosso amigo Baltazar.
Dei comigo a bocejar por várias vezes, morto de cansaço, de quatro ou cinco noites mal dormidas pela azáfama daquelas primeiras horas de liberdade. Anunciei que me retirava em direcção a casa. O Custódio, piscando-me o olho, ainda tentou aliciar-me: «não vás Luís..., que a noite promete...».
Prometi a mim próprio ir descansar..., «dormir uma noite como deve ser...». Arrumei as minhas coisas e fui-me encaminhando para o portão da Faculdade. Um deles gritou: «todos à Manif do 1º de Maio!»
Desci a Rua do Salitre numa correria desenfreada, pois deixara-me dormir até manhã adiantada. O som dos meus passos foi-se misturando com um ruído de fundo, compacto, que subia a rua até me atingir os tímpanos e ao mesmo tempo aumentava de intensidade com a minha deslocação. Interroguei-me, tentando adivinhar o que seria, mas nesse instante fui envolvido por um mar de gente que inundava a Avenida da Liberdade.
Nunca tinha assistido a nada igual! Uma gigantesca onda humana enxameava por toda a avenida, que ficara aguarelada com a cor dos cravos vermelhos que cada um tinha na mão.
A Revolução adoptara, definitivamente, o símbolo das flores.