Thursday, August 09, 2007











A estação da Felicidade...




Na velha estação há muito que não passa um comboio.
A azáfama dos passageiros que vão e que vêm, as últimas recomendações dos que ficam aos que partem, uma menina de franjinha, com lágrima no canto do olho, assoma a uma janela embaciada de onde vê, pela última vez, o avô, um vendedor ambulante procura despachar os últimos bolos, o homem corpulento de bigodes retorcidos e boné branco dá o sinal de partida com a corneta sibilante, um último passageiro surge em desalmada correria na gare, suando em bica com o peso da bagagem...
Nenhum dos frequentadores da velha estação tem memória de um cenário assim.
O edifício tem sido carcomido por muitos anos de abandono – janelas e portas estão definitivamente escancaradas a toda a espécie de bicharada – o nome do local, por cima da porta da gare central, ainda conserva uma letra bem composta e a erva daninha esburacou pavimentos e paredes, a seu belo prazer, fazendo das salas de espera um autentico matagal.
Ouve-se o vento que sopra frio entre postigos e não tem tempo de parar ali...
Nas traseiras do casario decadente uma pequena casa contrasta com o amontoado de ruínas e lixo – as paredes mostram a alvura que lhes é própria, fazendo evidenciar a toda a volta um rodapé azul forte e as madeiras exteriores, pintadas de cinzento, apresentam um estado de conservação impecável. Até o telhado tem aspecto de arranjo recente.
É o bar da Felicidade. Confunde-se o nome do estabelecimento, com o da respectiva patroa que atrás do balcão atende os fregueses de copo de cerveja em punho.
Quando se fixa a figura de Felicidade dois pormenores sobressaem: –os olhos, com sobrancelhas postiças que lhe dão um semblante sempre franzido, denunciam a qualquer hora do dia ou da noite uma boa dose de álcool já ingerido; –e os lábios, que ressaltam à distância devido ao batôn vermelho berrante aplicado em sucessivas camadas.
O resto do seu conjunto também tem um aspecto confrangedor, a começar pelo cabelo que mais parece uma pasta de tinta arruivada, em completo desalinho, e onde até mais de metade do comprimento se vê a cor original branca; depois a multidão de rugas semeadas por todo o rosto, as roupas de cores chocantes com nódoas que se vão sobrepondo umas às outras e, para cúmulo, esta mulher de mais de sessenta e cinco anos usa uma mini saia descarada que lhe põe à mostra umas pernas ressequidas, cheias de pêlos. E ainda ouro, muito ouro, entre anéis, pulseiras, correntes, pregadores, brincos e até um relicário, meio enfiado entre os seios avantajados, contendo a fotografia muito sumida do marido falecido há trinta anos.
Acácio vendia guloseimas e bebidas frescas nos comboios que nesse tempo andavam cheios de magalas e de passageiros anónimos que iam e que vinham à procura de vida. Felicidade também corria de comboio em comboio, sempre naquele que transportava mais soldados – ela atrás deles para se governar e eles no seu encalço para descomprimir as horas de tédio passadas semanas a fio no quartel.
Foi num desses comboios que Acácio e Felicidade se conheceram, se amaram, se entregaram definitivamente um ao outro e, de comum acordo, resolveram que era tempo de se apearem na próxima estação, fosse ela qual fosse.
Em princípio de vida montaram o bar na movimentada estação de S. Romão, um entrecruzamento ferroviário da importante linha do Sul com a de Este.
O negócio das sandes e das bifanas foi de vento em poupa. Acácio prosperou rapidamente e teria ido longe, não fosse trucidado pelo Sudexpress devido ao hábito e excesso de confiança em transpor a via férrea de um lado para o outro, naquele dia fatídico à hora de passar o Sud que não fazia escala em S. Romão. Este acidente impensável sufocou a vida arejada de Felicidade que acreditava, com fé inabalável, ter desencantado numa carruagem do Sudexpress o homem que mesmo em sonhos é difícil existir. Fora ele que, conhecendo a faceta desagradável da sua vida, pegara nela ao colo no dia do casamento, com toda a ternura que tinha dentro de si e jamais deixara de a apaparicar com a satisfação das mais pequenas vontades que lhe adivinhava.
Naquela tarde fria mas com uma luminosidade fora do habitual, Felicidade assistiu ao espectáculo macabro da recolha dos destroços do marido para o caixão depositado na gare central e pensou que no mesmo esquife seria sepultada a sua alma, precocemente arrancada do corpo por desgosto tão grande. Jurou que não voltaria a casar-se, em memória de Acácio que naqueles breves anos em comum dera à sua vida o pleno sentido do nome que ela usava desde a pia baptismal.
Os fregueses do bar da velha estação, que pululam à sua volta como abelhas em torno do mel, desconhecem as alegrias e tristezas da vida de Felicidade. Mas das misérias da velha “empresária”, consumida pelo tempo, estão a par delas como se de segredos das suas vidas se tratassem.
Alguns ainda se recordam vagamente da passagem dos comboios, do grande corrupio de gentes e da primitiva função do antro que agora frequentam assiduamente.
Os comboios foram-se atrasando e o tempo trouxe desemprego e outras calamidades. Finalmente deixaram de passar.
Mas é sabido que não foi por isso que Felicidade entregou o corpo ao álcool...

AC

Monday, July 23, 2007

Alburquerque
(raia fronteiriça Campo Maior - Ouguela)













Praça de Armas:

cepo de decapitação










escudo muçulmano











escudo português

Sunday, July 08, 2007

Thursday, June 28, 2007

O Bom Observador









À primeira vista as duas fotografias parecem ser da Anta-Capela de S. Brissos... Encontre as "pequenas diferenças" entre estes dois monumentos.

Tuesday, May 01, 2007

O Primeiro 1º de Maio


Recordo que estava calor e uma luminosidade deslumbrante…
Ouvia-se a canção do Zeca Afonso: «Maio, maduro Maio, quem te pintou…»
O fim de Abril anticipara Maio. A onda popular, sedenta de liberdade, arrastara os militares para o seu lado.
AC

Naqueles dias que se seguiram à onda avassaladora da revolução popular, passeávamos pelas ruas da Cidade, de manifestação em manifestação, apoiando e encorajando o MFA. O clímax desses dias, que passaram velozmente, tão cheios de peripécias e acontecimentos inesquecíveis eles foram, aconteceu no primeiro 1º de Maio.
Na véspera desse dia, uns tipos, que ninguém vira antes na cantina da Faculdade, apareceram por lá dizendo que pertenciam ao MRPP, movimento revolucionário verdadeiramente representativo dos camponeses e da classe operária, ao lado de quem os estudantes se deviam imediatamente colocar, juntando-se em massa na festa do 1º de Maio, dia de luta e regozijo de todos os que queriam estar sempre..., sempre ao lado do povo...
O sujeito que falava usava um bigode farfalhudo, o que me fez imediatamente associá-lo a um dos quatro camaradas afixados por tudo quanto era parede e recanto das Faculdades.
Era um fim de tarde apetecível, pulverizada de perfumes primaveris, quando me juntei ao Custódio e ao Baltazar à hora do jantar, na esplanada improvisada que os estudantes montavam à entrada da cantina da Faculdade de Ciências.
Depois de me sentar junto deles, o Baltazar – o que dominava melhor os assuntos políticos do momento – pôs o mote na conversa.
«Consta que amanhã haverá uma grande manifestação..., o MFA declarou o dia feriado...».
O Custódio riu-se para mim, à socapa, e depois argumentou com o Baltazar: «ó senhor engenheiro, feriados não deixas escapar um..., e mais um que fosse..., pois a boa vida não cansa, nem pesa...».
«Mas amanhã é mesmo o dia do trabalhador..., e dia do trabalho...», disse o Baltazar, ao mesmo tempo que encolhia os ombros com ar de irritação, «só na merda deste país era proibido festejá-lo!».
Acabámos de comer. A conversa ficou por ali, pois um grupo de colegas do género feminino, que se acomodara por perto, absorveu inteiramente a atenção do nosso amigo Baltazar.
Dei comigo a bocejar por várias vezes, morto de cansaço, de quatro ou cinco noites mal dormidas pela azáfama daquelas primeiras horas de liberdade. Anunciei que me retirava em direcção a casa. O Custódio, piscando-me o olho, ainda tentou aliciar-me: «não vás Luís..., que a noite promete...».
Prometi a mim próprio ir descansar..., «dormir uma noite como deve ser...». Arrumei as minhas coisas e fui-me encaminhando para o portão da Faculdade. Um deles gritou: «todos à Manif do 1º de Maio!»
Desci a Rua do Salitre numa correria desenfreada, pois deixara-me dormir até manhã adiantada. O som dos meus passos foi-se misturando com um ruído de fundo, compacto, que subia a rua até me atingir os tímpanos e ao mesmo tempo aumentava de intensidade com a minha deslocação. Interroguei-me, tentando adivinhar o que seria, mas nesse instante fui envolvido por um mar de gente que inundava a Avenida da Liberdade.
Nunca tinha assistido a nada igual! Uma gigantesca onda humana enxameava por toda a avenida, que ficara aguarelada com a cor dos cravos vermelhos que cada um tinha na mão.
A Revolução adoptara, definitivamente, o símbolo das flores.

Wednesday, April 25, 2007

25 DE ABRIL


Passaram 33 anos sobre o 25 de Abril, dia mágico..., inesquecível..., vivido então intensamente por um jovem estudante da Faculdade!
Recentemente fui buscar à prateleira da memória alguns apontamentos, gravados como instantâneos fotográficos e que tomaram a forma de novela – A Casa de D. Vicência – a aguardar melhores dias em ficheiro de computador. Este pequeno excerto representa um estado de alma particular desses primeiros dias de liberdade...
AC


O excesso de D. Vicência

Em casa de D. Vicência a casa de banho era uma espécie de sala de estar do início da manhã, ponto de encontro frequente de alguns hóspedes que durante o resto do dia não se viam mais. As conversas cruzavam-se enquanto um tomava duche, o outro se barbeava e um terceiro fumava um cigarro com ar ensonado e taciturno...
Nessa manhã, quase do fim de Abril, D. Vicência excedeu-se. Entrou de rompante na marquise adaptada a casa de banho, com rubor facial evidente e mão na anca, sentenciando: –ninguém sai de casa..., ...há uma revolução na tropa..., ...estão a dar a notícia a toda a hora na rádio...
Eu, que estava no duche, cobri-me com as mãos o melhor que pude e D. Vicência dirigiu-se-me com ar decidido, antes de sair: –está a esconder o quê menino?..., ...que lhe faça proveito se o quer escondidinho...
É verdade que fiquei embasbacado mas o Custódio, mal a viu de costas, fez um gesto com o dedo em direcção à cabeça e, enquanto se desmanchava a rir, ia repetindo quase sem fôlego: –a velha passou-se..., a velha passou-se...
O estudante de engenharia Baltazar Galante – o apelido não encaixava no aspecto: uma trunfa que nunca penteava, a barba um autêntico matagal e pêlos por tudo quanto era sítio do corpo – deu entrada na casa de banho depois de quase ter sido atropelado por D. Vicência. Apesar de trazer o rádio colado ao ouvido, o aparelho tinha o som no máximo, o que distorcia ora para os graves, ora para os agudos, a voz de quem transmitia as notícias.
O Custódio – com ar de incomodado – lançou-lhe um aviso com tom de ordem: –baixa isso «barbudo», que eu de manhã acordo sempre com dores de ouvidos..., ...cala esse «gajo»..., ...e põe música!
Baltazar Galante, pelo modo autoritário do Custódio, anotou que naquele sítio – a casa de banho – onde «as últimas» chegavam velozes com os primeiros raios de sol que batiam nas vidraças, a acompanhar um corrupio de entradas e saídas de gente que se queria despachar para chegar a horas às aulas, ao emprego ou à repartição e que, habitualmente, já tinha ouvido o noticiário das sete, que despejava «as primeiras do dia»..., ...sim, naquele dia de acontecimentos tão importantes mas cheios de incertezas sobre o que se iria passar nas ruas da Cidade... – um ensaio deste género, pouco tempo antes, voltara à base com a polícia no encalço – ...sim, ninguém se lembrara, nessa manhã, de ligar um rádio..., ...ninguém na casa de banho estava ao corrente do movimento da tropa nas ruas da Cidade.
–Espera aí ó Custodinho..., ...desliga mas é a coisa da tua prima que anda a trabalhar muito...; então os meninos, a fina flor da esquerda das Faculdades – gozava, deliciado – não sabem que a tropa está a tomar conta desta merda? Baltazar Galante – em vantagem uma vez na vida – estava irritado e o tom da conversa foi em crescendo até à última palavra que ecoou por todo o 4.º andar do n.º 69 da Rua do Salitre. Logo de seguida ouviu-se a voz esganiçada de Teresinha que sondava – em limpeza – nas imediações da casa de banho, para ouvir e ir contar a D. Vicência: –Jesus..., ...menino..., não seja malcrriado..., está em casa de uma senhorra sérria..., e há clientes no corredorr...
Nessa manhã não houve paródia, nem qualquer tipo de chacota, com a espionagem doméstica da zelosa Teresinha.
O nosso equívoco foi não ter compreendido o excesso de D. Vicência...
–Põe o cantante no máximo – o Custódio virou a conversa do avesso, aos berros.
A casa de banho ficou num silêncio reforçado, onde nada mais se ouviu para além do rádio de Baltazar Galante: –aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Hoje, dia 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas consciente de que interpreta a vontade e o desejo da maioria do povo português... ... ...
A transmissão foi interrompida com um pedido de desculpas e a água que continuava a correr do chuveiro inundou-me a alma ao som do Grândola Vila Morena...
O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História
O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Monday, April 23, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História
O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 e o golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Sunday, April 22, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Friday, April 20, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Thursday, April 19, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História

Wednesday, April 18, 2007

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3 no golpe militar do 25 de Abril:
um relatório para a História (Arquivo Diário do Sul)

Sunday, December 03, 2006


Breve conto de Natal


texto: Luis Galhardas
ilustração: Paula Costa



A cidade adormece num cenário quase rotineiro.
Quase..., porque esta noite instalou-se um frio de rachar, que penetra impiedosamente quem o enfrenta.
Só este componente atmosférico desagradável diferencia esta noite da anterior e de muitas noites antes desta, que foram metodicamente iguais.
Nos locais habituais onde as estrelas são visíveis com um simples arremelgar ou onde o vento se faz sentir, endiabrado, sem outra sorte que não seja suportá-lo, os mesmos vultos, sem nome e sem destino, acomodam-se o melhor que podem, com a esperança irrisória de que mais uma noite passe.
Tento afastar-me, abafado no calor aconchegante do meu sobretudo de burguês, fugir a sete pés daquele local habitual onde “descansam” vultos humanos sob pilhas de cartão prensado.
Um grupo de crianças soa a alguma distância com a alegria estampada nas vozes que procuram afinar a canção: –é Natal, é Natal, já nasceu Jesus...
Um dos vultos, sob a amálgama de cartão prensado, pragueja em réplica à melodia: «é Natal o caraças...», e desfila um chorrilho de obscenidades irrepetíveis. O ar fica empestado com um cheiro pouco recomendável, apesar da aragem fria se renovar constantemente.
Assustado..., fujo a sete pés daquele local habitual onde não é Natal. (autorizada a publicação pelos autores).