Sunday, October 15, 2006




“S.O.S.” no Mar de Barents

O submarino nuclear Kursk afundou-se a 12 de Agosto de 2000, durante um exercício naval no mar de Barents, tendo nele perecido os 118 tripulantes a bordo. Duas enormes explosões rasgaram o casco do K141, matando então grande parte da tripulação. Mas 23 tripulantes sobreviveram durante algum tempo. Estes 23 homens refugiaram-se no compartimento 9, o último do navio e localizado na popa. Assim o conta este relato ficcionado, que tenta descrever o drama humano que ocorreu naquele dia 12, no fundo do mar de Barents, e publicado na edição do jornal Dário do Sul de 1 de Setembro de 2000. O compartimento 9 é referido posteriormente em carta encontrada no cadáver resgatado do tenente-capitão Dmitriy Kolesnikov: “13,15. Todo o pessoal dos compartimentos seis, sete, e oito passou para o compartimento nove. Somos 23. Tomamos essa decisão por causa do acidente. Ninguém pode subir… escrevo por tacto”
O resgate do Kursk e da sua tripulação arrastou-se por muitos meses que se seguiram, aumentando o sofrimento das suas famílias.
In memoriam.
(fotografia AR)

Dima aguarda com alguma ansiedade o fim das manobras navais da Frota do Norte. E o facto prende-se não com a saturação provocada por muitos dias passados no mar, a bordo do submarino nuclear Kursk – a jóia da coroa de toda a Armada Russa – onde se encontra em regime de voluntariado desde há seis meses, a maior parte do tempo navegando nos fundos de águas frias e escuras, que raramente vê, e muito menos com qualquer receio inconsciente que possa ter do risco sempre presente na vida de submarinista, pois o colosso, de cuja tripulação faz parte, é não só inafundável, como precavido contra qualquer tipo de acidentes, pelos mais modernos meios da navegação.
Dima faz dezanove anos dois dias após o termo dos exercícios em que está envolvido o Kursk e esse é o facto que lhe provoca, digamos, não ansiedade mas alguma inquietação.
A mãe e a namorada vêm juntar-se-lhe na Base Naval de Murmansk, para juntos festejarem o aniversário de Dima. Sim, este é o facto que o traz inquieto, pois, vindo das águas gélidas do Mar de Barents, sente necessidade do calor aconchegante da família.
«Quem diria que o rapaz vai fazer dezanove anos?», questiona a sua imagem devolvida pelo único espelho da camarata, onde todo o espaço é pouco. O seu semblante de menino, em que desponta só agora alguma penugem, contrasta com o uniforme de marinheiro do submarino nuclear Kursk, talhado, pensar-se-á, para gente com aspecto mais endurecido. Mas Dima vê-se como um sortudo por conseguir um lugar na tripulação do navio que está baptizado com o nome da sua terra natal – a cidade de Kursk – situação que muitos jovens desejariam para si. Com o curso de técnico de motores recentemente concluído e uma compleição física razoável, ultrapassa sem dificuldade todas as barreiras, até vestir a farda de tripulante do K-141. Dima recorda o dia em que ele e os outros camaradas de incorporação vêem pela primeira vez o Kursk e entram pela escotilha de acesso à ponte de comando daquele “monstro marinho de aço” para uma visita de reconhecimento ao que será, dentro em breve, o seu navio e modo de servir a pátria Russa.
São seis e trinta da manhã de 12 de Agosto de 2000. Dima está estendido em cima do beliche que partilha com dois colegas que prestam serviço, como ele, no compartimento das máquinas. Está acordado, observando na penumbra da zona de descanso, mas como se fosse iluminada por um potente flash, a fotografia desse primeiro dia, em que se encontra acompanhado pelo seu amigo e camarada de tripulação, Liocha. Os dois jovens conhecem-se durante a recruta e fazem-se grandes amigos. Dima aguarda as sete horas da manhã, inicio do seu turno, gozando sensações rememorizadas por aquela fotografia de há meses atrás, tirada na coberta do Kursk. Vem-lhe à mente a sensação estranha que se apodera dele, quando vê o submarino nuclear K-141 pela primeira vez. O oficial de instrução mantém os marinheiros perfilados e em sentido, enquanto elogia o que considera ser um exemplo do sucesso tecnológico e do poderio militar ao serviço do povo russo – Classe Antey, tipo 949 A, SSGN, no activo desde 1995, pode navegar a uma profundidade de 500 metros...
“O gigante de metal” produz uma imagem de resistência e poder naval sem limites, ao mesmo tempo que o invade com aquela sensação estranha que a fotografia recria da mesma forma, como se fosse no próprio dia” – um calafrio percorre o corpo de Dima, o aço negro que constitui a estrutura exterior do submarino intimida-o, psicologicamente, com uma visão de irrealidade brutal, que lhe é transmitida pela envergadura do vaso de guerra, impossível de abarcar de uma só vez no campo visual.
A divagação de Dima é bruscamente interrompida pelo toque da sirene a chamar o turno das sete da manhã. Num ápice veste-se, passa a cara por água, entra na cantina sempre impregnada por um cheiro enjoativo, que logo de manhã lhe faz perder o apetite, e aí vê Liocha que faz o percurso inverso ao seu – trocam um sorriso aberto e dão um pequeno encosto ombro a ombro, sinal de que tudo vai bem . Ao segundo toque da sirene, que indica que são sete da manhã em ponto, encontra-se no seu posto na sala das máquinas/compartimento 9 do submarino nuclear Kursk, tecnicamente conhecido por K-141. O pessoal esmera-se na limpeza e arrumação do compartimento, pois vão ter a visita do comandante Gennady que nessa manhã passa revista a todo o navio, acompanhado por altos comandos da Frota do Norte.
Subitamente Dima ausenta-se para centenas de quilómetros de distância, pensa na mãe e na namorada que brevemente farão a viagem de quarenta e cinco horas de combóio de Kursk até Vidyayevo, para se abraçarem e conviverem durante a licença de dois dias que lhe é concedida no fim do exercício naval e que coincide com o seu aniversário. O chamar pelo seu nome, no tom inconfundível e modo sarcástico da voz do chefe da secção, trá-lo de volta à azáfama da sala das máquinas.
Pelos altifalantes de cada compartimento do navio sai a voz do Imediato que anuncia uma subida à superfície, o que desencadeia em Dima outro momento de descontracção e alheamento – “há vários dias que simulam aproximações a alvos nos fundos do Mar de Barents, a uma profundidade variável, entre cinquenta e cento e cinquenta metros ; sabe-lhe bem ouvir a voz de subida, sentir a proximidade do céu azul ou encoberto, da superfície do mar calmo ou agitado, batendo no casco do Kursk, escutar o vento uivante que por aquelas paragens é frio e endiabrado..., mesmo que não seja permitido ir até à coberta contemplar os elementos e perscrutar a linha do horizonte até onde a vista enxerga”...
Quando Dima se concentra pela segunda vez não tem tempo de reiniciar a sua tarefa.
Um estoiro, que parece ter origem na zona da proa, faz abalar o Kursk com alguma intensidade, quando se encontra na manobra de subida, a cerca de vinte e cinco metros da superfície. A energia é interrompida sucessivamente, os geradores de apoio não funcionam, há curto-circuitos que lançam faíscas em todas as direcções, em diversos pontos da instalação eléctrica da sala das máquinas e um pequeno incêndio surge num disjuntor. Dima sente o desejo de percorrer os outros compartimentos para se informar do sucedido e ver, com os seus próprios olhos, que Liocha se encontra bem.
«Terá sido um embate com outro submarino... ou com um navio de grande calado?... ou um torpedo mal lançado que explodiu perto da proa?...», são duas perguntas, em modo quase afirmativo, que Dima equaciona expeditamente para explicar o sucedido… e dirige aos camaradas do 9.
A voz do comandante Gennady é agora expelida pelos intercomunicadores de bordo, denunciando exasperação e alarme, dando ordens em tom inusual: –todo o pessoal aos seus postos..., injectar ar nos compartimentos centrais..., verificar o mecanismo de protecção dos reactores nucleares..., quero um relatório imediato do que se passou na sala dos torpe...
O altifalante é suspenso bruscamente e nada mais se ouve porque um estampido terrível lança um potente sopro vindo dos lados da proa; em simultâneo o Kursk é sacudido com tal violência que os marinheiros do compartimento 9 são projectados como marionetes contra a maquinaria e paredes de revestimento interior. Depois de um breve instante de atordoamento e de silêncio tumular, chega-lhe o ecoar de mistura de vozes, de gritos lancinantes, em outros compartimentos mais próximos do 9, logo abafado por um estrondo medonho característico, como o ribombar de um trovão, que aumenta constantemente de intensidade, e Dima adivinha ser a fúria das águas do Mar de Barents, que tomam apressadamente conta do K-141. Percebe-se que o submersível desce sem governo, que os dois reactores nucleares foram automaticamente desactivados, pois a falta de energia agora é total. Dima, aturdido, tenta levantar-se mas logo é arrastado pela inclinação da descida e tropeça em alguém que se encontra caído. Alguns gemidos dão sinal de gente do seu lado esquerdo, porque as vozes e gritos vindos dos outros compartimentos emudeceram. Apenas se ouve o ruído da água, muito perto mas sem o furor diabólico de há pouco. A escuridão é pavorosa e a temperatura baixa assustadoramente. O jovem marinheiro sente esse frio doloroso que lhe atinge os ossos e pensa no seu amigo Liocha, quando é arrojado por outro impacto do Kursk, que logo de seguida parece imobilizado.
Deduz que o mais moderno e poderoso submarino russo bate no fundo do Mar de Barents.
Tenta erguer-se novamente, seguro às tubagens das canalizações que descobre facilmente pela rotina de conhecer, de olhos fechados, todos os cantos do compartimento 9. Isso dá-lhe alguma vantagem perante a treva que paira a toda a volta e lhe provoca alguma angústia que tenta contrariar. Como quem sai de um estado de anestesia, começa a sentir uma forte dor na nuca e em todo o lado esquerdo do corpo, que relaciona com o facto de ter sido projectado pela potente onda de choque que se expandiu por todo o submarino. Quando fica em pé as pernas tremem, um suor gélido e viscoso cobre-lhe todo o corpo, tem dificuldade em respirar e em mover-se... é obrigado a fazer um esforço considerável para se manter firme...
A prática de ir e vir das profundidades diz-lhe que o Kursk está assente de proa e adornado a bombordo.
Ouve gemidos ténues, pela segunda vez. Chama pelos nomes dos camaradas que estão com ele na sala das máquinas: «Vladimir, Maxim... se me ouvem respondam... meu Deus o que nos está a acontecer?... que pesadelo é este?... Vladimir…, Maxim…, digam qualquer coisa..., estou a falar convosco!». Dima fala com modo irritado mas suplicante, desejando fervorosamente ouvir outra voz que não a sua. Obtém como resposta um estremecimento brusco do Kursk, acompanhado de um rugido fantasmagórico. Por instinto deixa-se cair com o “monte de aço” – inafundável. Juntos gesticulam o último estertor...

AC

Tuesday, October 10, 2006











Por onde anda o comboio?…


Paro na passagem de nível, encosto o ouvido ao carril, o que me permite ter a sensação auditiva do comboio em movimento, ainda a alguma distância.
Logo vê-se a fumarada que localiza a deslocação da locomotiva. Um silvo ecoa no ar, vindo de sul, e, a pouco e pouco, o som da composição em movimento toma conta do ambiente que envolve a estação. Os passageiros aprumam-se na gare, fazendo lembrar uma parada militar. Finalmente aparece o comboio na curva que antecede a estação, o que provoca alguma agitação.
Estou de Kodac em punho…, pronto a captar o momento da chegada do primeiro comboio da linha do sul…
AC

Sunday, October 08, 2006











Castelo de Valongo


Fantasmagoricamente belo…,
em sobranceira colina
está o nobre castelo
de Valongo…, como se assina.


Escondeu formosa princesa,
que ali viveu desterrada.
Sua memória está acesa…,
de mil vezes contada.


Em noites de "luar branco"
diz-se vê-la passear!
Pela liberdade é seu pranto,
porque lhe não pode chegar.
...
Ao viajante que procura emoções fortes, aconselho uma ida ao Castelo de Valongo. Chega-se pela estrada de Évora - Reguengos de Monsaraz, vira-se à esquerda na direcção da barragem do Monte Novo - Santa Suzana, deixando rolar o carro a baixa velocidade para gozar a paisagem, típicamente norte alentejana, e com atenção a um desvio, à direita, Valongo - Montoito. É uma estrada secundária com o piso relativamente bem conservado e algumas curvas que é preciso atacar com cautela. Numa dessas curvas, com lomba, aparece este fabuloso forte medieval.
Parei o carro, fiz as primeiras fotografias e descarreguei em folha amarelecida de jornal, único papel à mão, as sensações que captei do quadro pintado mesmo à minha frente.
AC
O sítio[1] teve provavelmente ocupação desde a época romana, depois no período visigótico e época islâmica. Foram os muçulmanos que edificaram o forte, como o comprovam algumas inscrições islâmicas nos seus muros.
Durante a reconquista cristã, a sua estrutura foi reconstruída durante o reinado de D. Afonso III (séc. XIII).
[1] No lugar de S. Vicente de Valongo há património megalítico.

Saturday, October 07, 2006


«Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!»
(Miguel Torga/Poesia Completa: Mar)


Um Filho do Mar
Teodoro Algarvio tinha estampada no rosto a profissão que exercia desde há sessenta e quatro anos.
Com apenas seis anos começara a ajudar o pai nas andanças da pesca e rapidamente aprendeu a engodar, a ajeitar anzóis com isco para pescar à linha, a remendar as redes, a escolher os melhores sítios para colocar os aparelhos e mais um sem número de segredos dessa vida feita no mar.
A cara queimada e enrugada da frequente exposição ao astro, encimada por um boné de xadrez carcomido pela maresia, atirado sobre os olhos, emprestavam-lhe um ar enigmático de quem tudo vê e não é visto.
Algarvio não era nome ou apelido mas alcunha que lhe ficara do pai, noutros tempos vindo dos lados do Algarve.
Ele, alentejano dos quatro costados, por incrível que pareça, nascera no mar numa noite em que a mãe, já em adiantado estado de gravidez, quisera acompanhar o seu homem na recolha dos enganos da lula. Foi nessa noite quando abriu as narinas para a primeira golfada de ar vital que foi inundado, até ao íntimo do seu pequeno ser, por aquele cheiro ao mar que amou desde então.
Descobri a pequena aldeia de pescadores num daqueles passeios sem destino. Ali o tempo tinha feito uma pausa e era agradável permanecer.
Uma longa rua de empedrado bem polido era amparada por casas baixas, quase todas de velhos lobos do mar, terminando a uma centena de metros do oceano. E havia um terreiro, contornado também por algumas casas, que servia ora para campo de futebol da miudagem, ora para o jogo do chito depois da refresca com umas cervejinhas ou simplesmente para dar meia dúzia de lérias e ver chegar os pequenos barcos da faina.
Aluguei um quarto em casa de gente simpática, com janela para o porto e para a ilha com seu forte seiscentista, que vi pela primeira vez.
Um turbilhão de sensações de prazer tomou conta dos meus sentidos sem qualquer resistência.
A aldeia parecia estar suspensa, assente em avantajado promontório que ali avança sobre o mar. E daquele terreiro, quase sempre animado de gente, descia-se para uma pequena enseada natural que era o porto de pesca.
Logo numa primeira investida exploratória, no dia da chegada, cruzei-me com o ti Teodoro que nessa tarde acabara de chegar da pesca. Não estava mais ninguém no porto. Descalço, com as calças arregaçadas até aos joelhos, cigarro colado ao canto da boca, já tinha amarrado o barco ao cais e feito o transbordo do produto da pescaria. Entretinha-se na limpeza da embarcação.
Aproximei-me e cumprimentei o pescador: –boa tarde senhor..., e pelos vistos também foi boa a pesca!
Uma boa tarde seca e um olhar de relance na minha direcção, escondido pela pala do boné e impedindo-me de lhe ver a expressão do rosto, desencorajaram-me a meter mais conversa. Fiquei a vê-lo carregar o saco às costas, subir a ladeira em direcção à aldeia, entrando no pequeno bar que ficava no cimo da íngreme rampa, como que a cavalgar o porto.
Nessa noite, embora cansado da viagem e com o corpo amolecido por tantas orgias com a natureza, aproveitando o pretexto de tomar uma bica, resolvi meter o nariz no Café Paraíso, assim se chamava o pequeno bar que postado à entrada do acesso para a enseada portuária, tal e qual sentinela alerta, vigiava invariavelmente quem entrava e quem saía.
Aproximei-me do balcão, bem iluminado por um candeeiro petromax que deixava o resto da sala na penumbra, e tomei o café de costas viradas para a luz, com disfarçada intenção de observar o ambiente.
O recinto era atarracado, apenas com duas mesas, uma de cada lado e algumas cadeiras dispersas. À esquerda do balcão havia uma porta por onde era expelido um ruído, ensurdecedor, que denunciava ser a casa dos matraquilhos. Pelas paredes viam-se pendurados um emblema do Benfica e outro do Sporting, muito amarelecidos, alguns calendários com insinuantes mulheres nuas, fora de prazo, tanto ao gosto das tascas portuguesas, um diploma a atestar o proprietário como “exímio tirador de imperiais” e um azulejo emoldurado, onde se lia a seguinte quadra: não venhas cantar o fado/que já não há dinheiro,/pois acabou-se o fiado/durante o ano inteiro.
Sentado numa das mesas lá estava o velho pescador, provavelmente desde que o vira chegar do mar, dispondo ao acaso, no tampo gasto da mesa de madeira, as pedras de um jogo de damas.
Topou que o observava.
Dirigiu-se-me de surpresa, com o mesmo tom seco dessa tarde, mas desta vez de olhar espevitado, bem à mostra, e ar dominador da situação: «oiça lá, vomecê sabe jogar às damas?»
Apanhando-me desprevenido, não me perguntou o nome ou de onde era natural, questões por onde se começa qualquer conversa com gente desconhecida, mas logo despejou aquela interrogação sacana – se sabia jogar às damas – à qual respondi com ingénua franqueza: -olhe, por acaso não sei... ou melhor, jogo mal, porque apenas sei que as pedras são brancas e pretas... e andam uma casa de cada vez... da táctica do jogo não percebo nada.
Ele tirou o boné da cabeça, coçou a careca com ar espantado e, depois de prolongada passa no cigarro, exclamou com incredulidade: «qual táteca qual quêi... atã se nã sabe jogar às damas o qu’é que vomecê sabe fazeri?»
Dito isto perante a pequena assistência do bar, riu-se à descarada com o meu ar de atrapalhação pela ignorância de não saber jogar às damas.
Com o mesmo repente da tirada inicial convidou: «sente-se aí qu’ê ensine-lhe.»
Ri-me também e aceitei a oferta que me fez amigo de Teodoro Algarvio.
O jogo de damas deu início a inesquecível convivência com este pescador que me ensinou, entre lances de como se comem três, os segredos do mar e da pesca, histórias e lendas fantásticas da ilha, com piratas e corsários metidos pelo meio, e os recantos inimagináveis da bela costa alentejana.
Eu ouvia, quase sempre, mais do que falava.
Numa ida à ilha, inesperadamente, contou-me o seu primeiro encontro com o mar. Recordo a convicção e orgulho que empenhou nas palavras: «devo mais a estas águas que a meu pai e a minha mãe..., quero tanto a este mar como aos meus filhos..., aqui vim ao mundo e me fiz homem, daqui levei sempre o sustento para a família..., agora estou velho e aqui quero morrer...»
Ficou em silêncio, pensativo, a olhar o mar sem fim.
Voltei em outro ano com ideia de ficar por uns dias e desejo de rever o meu amigo Teodoro.
A terra tive dificuldade em reconhecê-la – prédios aberrantes, parques de campismo, restaurantes atafulhados de gente... e até caixas de multibanco.
O pequeno bar do porto fora engolido por qualquer coisa mais parecida com gigantesca gaiola de piriquitos.
Soube, por um companheiro do jogo de damas, que Teodoro Algarvio saiu numa noite de Lua para o mar e por lá ficou.
O seu barco foi encontrado junto à ilha que o viu nascer...
AC

Wednesday, October 04, 2006

OUTONO
Cai a primeira chuva a acompanhar uma trovoada, anunciando que o Estio foi para outras paragens – para o ano talvez volte.
Com o Verão de S. Martinho pode a gente bem!
O ar traz o cheiro agradável e íntimo da terra molhada, que em breve vai iniciar um novo ciclo com a mesma coragem e determinação que cada ano imprime ao fantástico milagre da vida.
O ribombar ensurdecedor de um trovão pressagia que a tempestade está iminente. O cão enfia-se na casota – inquieto – lugar que apenas frequenta quando tem medo.
A água entorna-se dos beirais lavando o pó acumulado nas calçadas. Nas bermas das ruas formam-se pequenos rios de curso imprevisto, à procura de um sítio para desaguar.
Gotas dispersas rolam pelas vidraças das janelas. Olho. A uma delas uma velha e um menino espreitam a chuva como coisa nunca vista. A primeira que ele vê, com certeza. São bem o retrato desta estação – a vida no ocaso traz ao colo a vida no começo.
Deambulo pela cidade gozando o frenesim provocado pela intempérie. A chuva forma uma cortina cerrada que plana sobre o chão, criando a ilusão de que a Praça flutua.
Gente corre daqui para ali, aos solavancos, entre portas e arcadas, evitando a molha, como se a bátega conspurcasse corpos e almas.
À pressa recolhem-se mesas de vendedores ambulantes para salvar a mercadoria. O ardina atira uns plásticos sobre a banca, resguardando as últimas notícias.
Uma criança, com a pressa que a mãe leva, deixa cair um pacote de pipocas acabadinho de comprar. Chora. O berreiro intenso esvai-se, abafado também pelo bater de portadas que se fecham. Os pardais, felizes, agradecem sacudindo a água das abas da farpela. Um gato espreita emboscado na entrada de um pátio, matreiro, a ver se pode tragar algum.
Um pedinte estende a mão encardida à procura de uma moeda, que a actividade não se compadece com as condições atmosféricas.
Os zimbórios da Sé brilham batidos por alguns raios que cruzam o céu. O Sol, a medo, espreita por uma aberta das nuvens e logo aparecem as sete cores do arco íris.
No Rossio nem vivalma, que o sítio é desabrigado. Aqui, em outro tempo, uma carga de água, assim, frustrou o espectáculo de uma queima da malvada inquisição. Por coincidência cruzo-me com um cortejo fúnebre, que a morte escolheu um dia a condizer consigo. Penso que deve ser mais difícil partir num dia de céu limpo.
As últimas andorinhas fazem voos rasantes, acrobáticos, em despedidas até à próxima Primavera. Dentro em pouco estão aí as cegonhas.
Foi-se o mau tempo, inopinadamente, como chegou. O Sol volta a brilhar e com ele a cidade acorda pela segunda vez.
O enxame humano torna a fervilhar pelas vielas, agora sem pressas.
Passa um autocarro apinhado de crianças que regressam do primeiro dia de escola.
Pelo aroma localizo a rua onde o homem das castanhas assadas volta a montar o estaiminé. Remexe o fogareiro de barro que lança castelhanos pelos poros – "são a dez tostões a dúzia e toma lá mais duas porque és bom rapaz".
Não tarda muito, nas tascas faz-se a prova do vinho novo – memórias da adega da casa de meu avô, com grandes talhas, umas de branco, outras de tinto, à medida do paladar dos fregueses.
Um dia destes a natureza veste-se de dourados inigualáveis – riqueza que nos é oferecida sem contrapartidas.
O Outono bate à porta!
AC

Tuesday, October 03, 2006

Sunday, September 24, 2006



Jack - o amigo certo...

PELO RABO (NÃO) SE CONHECE UM CÃO.

Fim de tarde de Agosto sufocante. Corre uma leve brisa que empresta um colorido alternado às folhas de algumas árvores e refresca um pouco a alma dos caminhantes. Ao longe, o calor que emana da terra lança aleatoriamente nuvens de poeira no ar.
Passeio com o meu cachorro Jack por uma azinhaga dos arredores da cidade, que do local tem vista magnífica, ele a alegria em cão estampada no focinho e nas patas, que se desdobram em intensas correrias para calejar os músculos.
Aproveito também para desentorpecer as pernas ao mesmo tempo que nos vamos familiarizando com a linguagem um do outro – o que nos torna cada dia mais íntimos – indiferentes a algumas variantes genéticas que o determinaram a ele cão e a mim humano.
O Jack apresentou-se pela mão da minha filha, com uns imberbes dez dias e ainda de olhos fechados.
A pequena fechou-se no quarto na dúvida da minha reacção, pois sabia a carga de trabalhos que trouxera para casa.
Íamos mudar-nos para uma habitação com quintal e um cão seria bem vindo, para guardar claro está, a troco de um prato de sopas diário e água à descrição.
Puro engano. O Jack chegou em estado de ser guardado em confortável alcofinha e ser alimentado a biberão com leite especial para cachorrinhos, por vezes a altas horas da noite, ao sabor do seu relógio biológico.
Hoje que já nos vamos percebendo, “ladrou-me que até acha piada ter sido criado por um humano”. Coitado do cachorro, quando abriu os olhos os primeiros contornos deste mundo que vislumbrou foram o meu nariz e o biberão por onde o alimentava.
Um vizinho que nos viu chegar engraçou imediatamente com o pequeno Jack. Quando há dias nos cumprimentámos, já idos quatro meses de vizinhança, perguntou-me se o cão grande não fazia mal ao cão pequeno?! É que, de repente, o Jack cresceu vertiginosamente.
Uma das curiosidades da família tem sido aguardar o dia em que o Jack comece a fazer “chi chi” à cão adulto – rimo-nos quando o faz como se fosse uma cadela, e ele fica com focinho de não achar piada.
Observei-o há dias, precisamente quando fazia seis meses, pela primeira vez a exercitar com muita satisfação a actividade fisiológica de urinar com a perna alçada na minha canela.
O “safado mijou-me” para cima do sapato e depois olhou caninamente, deixando-me perceber a intenção: “és o maior dono do mundo e como prova da minha grande amizade ofereço-te a primeira mijadela que faço de perna alçada”.
Num desses passeios fora de horas, pela azinhaga, cruzámo-nos com um cigano que se mostrou muito interessado no Jack.
O cão fixou-o de pálpebras semicerradas e, pela primeira vez, rosnou. Depois de um leve puxão na trela sentou-se encostado à minha perna.
O cigano – a curiosidade em pessoa – logo inquiriu: «atã o canito é sê senhori?»
-Ó amigo cigano, que não sei o seu nome, quer ver que é seu? -contestei-lhe com à vontade e humor; ando a passear com um cão que tem na coleira uma chapa de registo, que trago preso por uma trela, e você pergunta se é meu! Homessa!
O Jack rosnou pela segunda vez, mais forte, mostrando que algo não lhe estava a agradar. Fiz sinal para que se acalmasse.
O cigano – continuava incógnito – apressou-se em mil desculpas: «nã lev´a mal senhori; -é qu’ando à procura dum canito que me fugiu, même igual a essi; nunca vi même nada tã iguali; se calhar sã gémos e a gente nã sabi!»
-Olhe, sinto muito que tenha perdido o seu cão. Eu se perdesse este também teria grande desgosto..., disse-lhe em tom consolador e resignado; agora essa deles serem assim tão iguais, e gémeos, não foi o que disse?; acho que está a exagerar, ou a ver mal! -rematei já meio irritado com a conversa, ou melhor, com a lata do cigano – ainda incógnito.
«Ai senhôri, nã pense mal de mim por amô Dês, é qu’eles sã même igualitos, igualitos» -insistia.
-Vejo que você está mesmo convencido e irá ficar na dúvida, -condescendi em tom disfarsadamente irónico; para que o amigo cigano – sempre incógnito – se convença que este não é o seu cão...; aqui o Jack deu um valente esticão e ladrou perigosamente na sua direcção, fazendo o homem dar um salto acrobático à retaguarda; logo de seguida colou-se de novo à minha perna, com ar seguro.
Continuei: para que desfaça a dúvida que lhe surgiu sobre o cão, que diz ser igualzinho ao seu, vamos fazer uma experiência, que com certeza o convencerá; tão simples quanto isto…, vou soltá-lo e cada um de nós vai para seu lado da azinhaga; a quem o cão acompanhar…, esse…, será o verdadeiro dono...; agora a ironia era descarada!
O cigano – nunca lhe soube o nome – apressou-se a exclamar com tónica de grande convencimento: «nã precisa soltari o animali, nã senhori, même agora vi qu’ este nã é o mê canito; atã se logo tenho olhado pr’a eli de trasêra…, logo tinha visto que nã er’ó mê canito; ond’ elis sã defrentes é no rabo, qu’ este tem um rabo maiori.»
O cigano, num ápice, desapareceu sem deixar rasto.
Dono e cachorro continuaram a caminhada, o Jack abanando aquele belo rabo que já o distingue de qualquer outro cão.

AC







Um Conto Medieval – Enfrentamento em Ouguela


Corria o ano de 1475 quando se deu o acontecimento que me disponho relatar. Pretendo que através do meu punho, embora com imprecisões de linguagem e de gramática, pois não sou um erudito, fique, para conhecimento dos que hão-de vir, este feito extraordinário que todos nós habitantes da vila de Ouguela presenciámos naquela Primavera de 1475. Situem-se no tempo e local onde agora me encontro.
Ouguela é uma bela e impenetrável fortaleza, no cimo de um morro isolado, sentinela alerta ao outro lado da fronteira. Que ali começa Castela !
Vai para dois séculos que passou a terra portuguesa, pelo tratado de Alcanizes. Reinava o nosso rei D. Diniz. E parece que devido aos bons ofícios de sua mulher, a Rainha Santa Isabel.
Mas nem sempre os assuntos entre os reinos de Portugal e de Castela se resolveram por tratados. Não vai longe a terrível guerra do final dos anos trezentos em que, com muito sofrimento e perda de vidas humanas, tivemos que defender o nosso território e identidade nacionais. Oiço o eco das carriagens em movimento, daquela imensa onda de castelhanos arrasando aldeias e lugarejos, tudo destruindo. E também o som ensurdecedor dos trons, armas diabólicas que podem matar, à distância, vários homens ao mesmo tempo.
E tudo isto eu não presenciei mas ouvi contar a meu avô que esteve na batalha dos Atoleiros, com a tropa do então jovem D. Nuno Álvares Pereira.
Os dois reinos voltam a não se entender e a causa tem ligeiras semelhanças com a que deu origem à desavença de há cem anos. Uma questão provocada, agora, pela sucessão ao trono de Castela.
O rei de Castela e Leão Enrique IV, alcunhado de “El Impotente”, casou em segundas núpcias com a irmã mais nova de D. Afonso V, D. Joana. Deste casamento nasce a infanta também de nome Joana, que dizem as más línguas ser filha de D. Beltran de la Cueva, Duque de Alburquerque e valido do rei. Verdade, ou não, a princesa é conhecida em toda a Castela por Joana a Beltraneja.
Enrique IV e sua mulher por mais de uma vez declararam a legitimidade da filha, e no seu testamento o rei castelhano, consta-se, entrega ao cunhado a protecção da sua herdeira, com quem o convida a casar, assim como a defesa e governo de seus reinos.
No entanto, a irmã de Enrique IV, Isabel, filha como ele de D. João II de Castela, mas sendo a mãe a portuguesa, também de nome Isabel, filha do Infante D. João de Portugal, a quem corre nas veias sangue de Nuno Álvares Pereira, é uma mulher inteligentíssima e decidida.
Sem autorização e conhecimento do irmão casa com o príncipe aragonês D. Fernando.
E quando em Dezembro de 1474 morre Enrique IV é aclamada rainha na maior parte do reino de Castela.
A D. Isabel e a D. Fernando chamam-lhe hoje os reis católicos de Hespanha, pois são pessoas muito dedicadas à religião.
Dizem muitos judeus e outros infiéis que por aqui passam fugidos, que muitos outros têm ardido em grandes fogueiras à ordem de um tribunal a que chamam da Santa Inquisição, pedido por estes reis ao Papa para combater as heresias que minam o reino.
Mas perante o desenrolar de acontecimentos provocados pela morte de Enrique IV, o seu cunhado D. Afonso V decide intervir na sucessão do reino vizinho, em defesa de sua sobrinha e prometida, D. Joana, que se vê também aclamada em muitas praças ao longo da fronteira com Portugal.
Assim principia uma guerra confusa que durará quatro anos, de 1475 a 1479, em que se deu a célebre batalha de Touro, na qual o porta-bandeira português, chamado Duarte de Almeida, decepado gravemente das mãos a segura com os dentes e o que lhe resta dos membros, levantando o ânimo das nossas tropas.
De tudo o que tenho ouvido contar, ainda não percebi quem saiu vitorioso desta batalha, mas a guerra, políticamente, foi-nos desfavorável, pois no trono de Castela está sentada D. Isabel.
Ouguela, como praça portuguesa que é, alinha pelo partido da sobrinha do rei de Portugal, D. Joana, a Excelente Senhora.
Além da batalha de Touro os recontros resumiram-se a escaramuças fronteiriças, embora algumas delas tenham ficado célebres por factos como o que passo imediatamente a relatar.
Voltemos, então, ao ano de 1475.
***
Vai uma Primavera escaldante este ano. Não chove gota de água há meses, que me lembre desde Novembro passado, e os últimos Invernos passaram despercebidos. Fontes e poços começam a fraquejar. Felizmente a cisterna do terreiro do castelo tem bastante água. O nosso alcaide, João da Silva, mandou racioná-la. Teme, concerteza, que um assédio prolongado nos deixe sem água, o que seria desastroso.
Este alcaide é um grande capitão. Por isso o rei o nomeou, também, camareiro-mor do príncipe D. João. É um homem generoso, justo e avisado.
Desde o início do mês de Abril obriga todo o povo das cercanias a recolher-se no interior da muralha a partir do pôr do sol. Receia um ataque vindo de Alburquerque, praça castelhana postada do outro lado da fronteira cerca de duas léguas – em dias de boa vista parece estar mais perto – e que tem forte guarnição militar.
Acima de tudo João da Silva quer ter em guarda e proteger a população que nada tem a ver com esta guerra.
Ouvi-o, há dias, dizer para o Prior da Igreja de N.ª S.ª da Graça e para o Capitão da guarda: «não quero que esta gente seja molestada por querelas que lhe não dizem respeito, nem entende. Nós, soldados, estamos aqui para obedecer e defender o nosso rei e senhor D. Afonso V. Essa é a nossa obrigação de soldados e tudo faremos para que assim seja».
Retorquiu-lhe o Prior: «Deus Nosso Senhor vai pôr cobro rápidamente a esta contenda e se isso não acontecer será, certamente, para sua maior glória e...»
Interrompeu-lhe o discurso o alcaide e replicou: «nunca perceberei como é que uma guerra pode servir para glória de alguém, ou do que quer que seja!»
É assim João da Silva, um homem directo, determinado, sem papas na língua. E tinha razão nas suas conjecturas em relação a Alburquerque.
Tem esta vila também valente alcaide: Juan Fernandez Galindo, 3.º Mestre de Alcântara, homem experimentado na arte militar, rijo como o metal da armadura que enverga para combater mas sempre pronto a auxiliar quem lhe bate à porta.
Em Alburquerque ninguém conhece o rosto da fome e não há viajante que fique a dormir debaixo das estrêlas. A todos acolhe e enche o estômago.
E também não há malfeitor que se aventure por aquelas bandas, pois arrisca-se a, num abrir e fechar de olhos, dançar morto na ponta de uma corda, suspenso da arrepiante altura da torre de menagem.

***
Juan Fernandez Galindo mandara aprontar para combate a tropa sediada em Alburquerque mas nem ao seu Capitão da guarda dera conta das suas intenções.
O dia amanhece solarengo naquele 6 de Maio de 1475. Vai fazer muito calor. Quando os primeiros raios de sol chegam à praça de armas de Alburquerque um pequeno exército está pronto para qualquer eventualidade, esperando que o seu comandante apareça à porta principal da alcáçova.
Este é um dia especial para o alcaide Galindo. O seu filho mais novo, Pedro Fernandez Galindo, com apenas catorze anos de idade, feitos naquele dia, e contra a vontade de sua mãe, está entre os cavaleiros que o vão acompanhar na expedição a Ouguela.
Esta sortida é outro motivo de orgulho que sente naquela hora. Nunca se tendo encontrado frente a frente com João da Silva, conhece bem o alcaide de Ouguela. Por várias vezes o avistou do outro lado da raia, junto ao rio Xévora, em episódios de caça ao javali.
Sabe da valentia e nobreza do seu adversário que não é homem de vergar.
É neste estado de espírito que Juan Fernadez Galindo se dirige aos seus homens de armas:
«El rey de Portugal ha invadido nuestros Reinos de Castilla y Leon para quitar el trono a nuestra reyna y señora Doña Isabel y poner en su lugar a su sobrina Doña Juana.
La mayoría de las plazas del Reino, al igual que lo hicimos nosotros, después de la muerte del rey Enrique, han proclamado inmediatamente a Doña Isabel y a su marido, Don Fernando de Aragón, como sus legítimos Reyes. He decidido que nos vamos hoy a Ouguela para delimitar bien la soberanía de Castilla y devolver esa ciudad a nuestro Reino. Esa es nuestra misión. Que nos guíe la Virgen y su hijo Cristo Rey»
Em Ouguela essa manhã de 3ª feira, 6 de Maio de 1475, também acorda sorridente e adivinhando um dia quente.
Abre-se a porta de armas ainda de madrugada, para deixar sair um correio a caminho de Évora, onde se encontra o príncipe D. João, relatando-lhe João da Silva as suas últimas suspeitas sobre movimentações de tropas castelhanas ao longo desta parte da fronteira.
Alguns homens de sua confiança, colocados estratégicamente em terra castelhana, informam-no com rapidez do que por ali se vai passando.
Ainda há poucos dias teve notícias de D. Afonso V e sua hoste já dentro de Castela, a caminho de Plasencia, ao encontro de sua sobrinha D. Joana.
E soube, também, que o rei português não tem sido importunado na sua marcha, a não ser por alguns provocadores que quando a tropa portuguesa lhes deita a mão ficam a baloiçar na árvore mais próxima.
Nessa manhã, igual a tantas outras, o alcaide encontra-se bem cedo na Igreja Paroquial a ouvir missa. O silêncio habitual na casa de Deus é cortado, súbitamente, por passos apressados que enchem os ouvidos dos devotos e denunciam preocupação e alarme.
João da Silva sabe imediatamente que qualquer coisa de anormal acontece e ao virar-se na direcção do som tem a seu lado o Capitão da guarda Álvaro Pais.
-Tendes, com certeza, Álvaro Pais grave motivo para interromper as minhas orações e até adivinho o que me vindes dizer, atirou o alcaide ao seu homem!
A boca de Álvaro Pais, presa de estupefacção, não articula palavra e o alcaide adianta: -temos visitantes?
-É isso mesmo senhor, ressoa a voz grave do Capitão por todo o Templo, abafando as preces do Prior e fiéis. D. Juan Galindo encontra-se a trote à frente dos seus homens de armas e dirigem-se para aqui.
Mal o dia começou a clarear, a sentinela da torre maior viu grande poeirada para os lados de Alburquerque. Como a terra anda cheia de pó e há vento, pensou que era um daqueles remoinhos habituais nesta altura do ano. E descansou. Pouco tempo depois, ao enxergar outra vez na mesma direcção, estranhou continuar no ar aquela mancha de poeira. Foi então que percebeu a sua causa!
Agora vêem-se bem. São cerca de cem cavaleiros e quinhentos peões, comandados pelo próprio D. Galindo. Vêm armados até aos dentes, Senhor!
De um pulo o alcaide de Ouguela está fora da Igreja a subir as escadas da torre de menagem. E não fica com dúvidas sobre as intenções do grupo.
***
À nuvem de pó, que denuncia os castelhanos e é agora uma enorme cortina acastanhada que se vai refazendo, junta-se, passado algum tempo, a onda sonora do movimento da coluna: mistura de vozes, relinchares, trotear, passos apressados e sons metálicos.
Já encandeiam as luzes de mil sóis reflectidos por elmos e escudos. E tudo isto agora é nítido, provocando dentro do peito de quem espera um eco compassado ao ritmo da aproximação.
Em Ouguela fecha-se a porta de armas e há grande azáfama dentro muros. Fazem-se os últimos preparativos para receber os de Alburquerque, já que o plano de defesa da vila há muito está ensaiado pelo seu comandante.
João da Silva, trajado para combate, volta à torre de menagem e não tira os olhos do cavaleiro que encabeça a hoste: Juan Galindo.
Sabe de cor o português a que vem o castelhano. Adivinha-lhe o estado de alma, o olhar desafiante, a tensão de cada músculo do seu corpo, o desejo ardente de combate...
O aspecto imponente daquele homem condiz com tudo o que dele lhe contam. Vai, por certo, aceitar o seu desafio!
O comandante castelhano sente-se, por seu lado, observado e repara naquela silhueta imóvel, postada no alto da torre principal da fortaleza de Ouguela. Ali reconhece o mesmo homem que algumas vezes avistara junto à linha fronteiriça, até onde, por vezes, vem correr a caça.
Já muito perto do Castelo fica pasmado D. Galindo com um acenar amigável do seu opositor. E mais ainda quando percebe que o mesmo lhe indica que irá sair, sem escolta, ao seu encontro, para com ele chegar à fala.
«O português é homem valente, não há dúvida. Ele e os seus homens estão ali para assaltar Ouguela, pelo que esperava tudo menos aquela recepção».
E fica curioso, cogitando sobre as intenções de João da Silva. «Vindo sem escolta, para palestrar, é porque se dispõe a propôr-lhe qualquer acordo. E sabe que ele é homem para ouvir. O plano do cerco ao castelo está arquitectado e pode ser executado a qualquer momento, pelo que não há pressas. Deve ouvir o que o alcaide português tem para dizer».
D. Galindo faz sinal ao seu Capitão da guarda para que mande parar a tropa.
Homens e animais estão sequiosos, cobertos de pó, recebendo com agrado a ordem de suspender a marcha.
Depois, ele próprio, dá instruções muito precisas: «Voy al encuentro del comandante portugués que desea encontrarse conmigo a solas. Hasta que yo vuelva mantendréis esta posición y bajo ninguna circunstancia la abandonaréis.»
***
Chega o castelhano junto ao morro da vila no preciso momento em que o português sai fora muros. Estão desarmados os dois homens. As armas por agora não vão ser necessárias.
Soldados e população apinham-se entre ameias para assistir ao encontro que também é seguido com atenção pelos de Alburquerque.
Estancam os dois cavaleiros a menos de dez metros um do outro e olham-se com respeito. Parece que ambos aprovam o inimigo que têm pela frente.
Juan Galindo quebra o silêncio: «Señor Don João da Silva, mis intenciones son claras. No he entrado en tierras portuguesas para venir a pasear. Estoy aquí por expreso deseo de mí reina y señora, Doña Isabel, para tomar a ciudad de Ouguela y devoverla a nuestro reino de Castilla. Sin embargo he recibido vuestro ofrecimiento y, antes de ordenar a mis hombres que ataquen el castillo, quiero oír vuestras palabras».
João da Silva ouviu impassível, o comandante castelhano, sem deixar escapar do seu rosto qualquer emoção. Depois, com voz calma e pausada respondeu: «D. Juan Fernandez Galindo, pois sei muito bem a razão da vossa vinda. Mas, aviso-vos, estais aqui em vão!
Não conseguireis entrar em Ouguela para cumprir o desejo de vossa rainha, a Senhora D. Isabel. A isso me vou opôr!
Estamos fornecidos de água e mantimentos com fartura, pelo que vos podemos massacrar ali de cima por longo tempo.
Mas sei que não sois homem para dar meia volta e regressar a Alburquerque.
Morrerá gente vossa e minha sem proveito para ningém! E eu tenho dentro da muralha gente simples, que nada tem a ver com as quezílias entre o meu rei e a vossa senhora Dona Isabel.
Por isso vos venho desafiar!
Proponho-vos um combate entre nós que ditará a sorte de Ouguela. Combateremos os dois com as nossas espadas até um de nós morrer. Os vossos soldados e os meus, assim como o povo de Ouguela, serão testemunhas do que acontecer».
D. Galindo percebe a determinação do português. E concorda, para si, que é empreitada difícil assaltar o castelo de Ouguela. A proposta de João da Silva é prática e revela, sobretudo, grande nobreza de carácter. Que tudo se decida com a morte de um deles.
«Haré mías vuestas palabras», respondeu Don Galindo. «Y si Dios quiere llamarme hoy a su presencia, tendré mucha honra y orgullo de morir en vuestras manos».
***
Naquele fim de tarde de seis de Maio de 1475 encomendam-se os dois capitães a Deus na Igreja de N.ª S.ª da Graça. Cada um reza por seus sentimentos mais íntimos, oferecendo o sacrifício de sua vida por aquela nobre causa que concordam defender.
Terminada a oração abraçam-se os dois cavaleiros, mais parecendo irmãos de peito que inimigos, pedindo perdão um ao outro, como o algoz à sua vítima.
Álvaro Pais e Miguel Escobar, lugares-tenentes dos alcaides, ainda meio perturbados com o rumo dos acontecimentos, fazem os últimos preparativos para a liça. Escolhem um terreiro apropriado, com bastante espaço para dispôr tropas e gente curiosa.
Estão prontos para combater os dois homens. Juan Galindo beija o filho Pedro, balbuciando qualquer coisa que ninguém ouve mas todos pressentem o que lhe terá segredado.
Este combate decorre em silêncio! Talvez a léguas se oiça o som das espadas cruzando ares, cintilando uma sobre a outra.
Arremetem uma e outra vez os dois cavaleiros, ferozmente, defendendo cada escudo as tremendas espadeiradas desferidas. O castelhano mete a espada na axila direita do português, que a tinha a descoberto para infringir mais um ataque. Dobra-se de dor João da Silva mas logo recupera forças e atira potente estocada a D. Galindo que é atingido, gravemente, no baixo ventre.
Golpe atrás golpe ferem-se, mortalmente, João da Silva Português e Galindo Castelhano. Este está inerte, abraçando o pescoço da montada não recobra fôlego. João da Silva apeia-se, vacilando, vai com muito custo até junto do seu companheiro de lide e, levantando-lhe a viseira, compreende que o duelo está terminado. Imediatamente cai exausto, inanimado.
A hoste invasora regressa a Alburquerque, agora em cortejo fúnebre, transportando o cadáver do 3.º Mestre de Alcântara.
Em Ouguela, vinte e oito dias depois, morre o nobre alcaide João da Silva devido aos graves ferimentos recebidos da espada de seu valente adversário.
A vila continua portuguesa.
AC

Wednesday, September 20, 2006




Anta-Capela de S. Brissos
Évora











Dolmens e Antas
Os monumentos megalíticos, de que os dolmens e antas são os mais representativos, encontram-se espalhados por todo o Alentejo. Testemunhos de culto funerário ancestral, muitos desses monumentos não estão sinalizados, ou ainda nem sequer foi feito o seu levantamento topográfico, sofrendo lentamente a destruição natural, ou da mão humana e outras. Aqui foi uma azinheira que irrompeu, sem cerimónia, pela câmara mortuária, que praticamente não existe, mas ainda se vê bem o alinhamento dos esteios do corredor de entrada.
AC
Uma manhã cheia de esperança...
(a propósito dos presságios astrais)

Alvorecer de 11 de Agosto de 1999. São 7:45 quando olho para o relógio que inadvertidamente deixo cair no chão, de tal modo ainda estou ensonado. Às apalpadelas tento apanhar, com gestos de mão descoordenados, o tempo que se esquiva debaixo da mesa de cabeceira. Viro-me para o outro lado, irritado, disposto a voltar a dormir mas num instante estou fora da cama bem acordado, concentrando todas as energias no fenómeno que a esta hora deve ocupar milhões de mentes como a minha – hoje é o dia do último eclipse de sol do milénio.
Percorro a casa numa volta rápida. Detenho-me no quarto de Anaoi que tem a porta escancarada e as luzes acesas. Dorme com os óculos postos, sem livro por perto, o que me leva a suspeitar que algo se passou durante a noite.
Lá fora o cão capta-me os movimentos e dá-me os bons dias à porta da cozinha, como é seu hábito – um ressoar intenso que me faz lembrar o som expelido pelas narinas de um cavalo espantado. Não resisto a espreitá-lo por uma das janelas e registar o ar alegre e tranquilo que me são transmitidos pelo focinho e pelo abanar do rabo. Ele também não resiste e empina-se subitamente no parapeito, ao mesmo tempo que me prega uma lambidela descarada. Pela descontracção do animal concluo que naquela magnífica cabeça de rafeiro não há qualquer pressentimento de perigo – tenho ouvido, por aí, que os animais sentem antecipadamente a ocorrência dos fenómenos naturais de maior dimensão.
Abro as portadas da sala que é invadida por jorros de luz. Oiço alguém dizer que o “Clipse” já começou. Imagino que dentro de pouco mais de duas horas será escuro, um entardecer adiantado. Pego num jornal da semana passada e fico satisfeito por não ter conseguido um par de óculos de observação que procurei por tudo quanto era sítio. O eclipse não vai ser total por estas bandas, há notícia de óculos falsificados no mercado, o mais avisado é ver pela televisão que transmite em directo – como se de um jogo de futebol se tratasse e, ainda por cima, com relatos de vários pontos do país.
O CIS ( Canal Informativo Satélite ) abre com o acontecimento astronómico em exclusivo. O “Show Man” apresenta uma mesa quase redonda – ele, “Show Man”, na interface do programa onde mais parece um participante do jogo do toca e foge, um Padre porque os padres opinam sobre tudo e uma Astróloga que não cheguei a perceber em que se baseia para nos vir impingir o começo de uma «nova era» de prosperidade para todos nós, quando o que todas as televisões nos mostram nos telejornais é meio mundo à cacetada com a outra metade.
Desculpem, mandei o eclipse e a mesa quase redonda para “aquela parte” e deixei-me dormir a meditar na passagem do último cometa, acontecimento que foi bem mais divertido, não necessitando sequer de óculos especiais para ser observado.
Manhã adiantada sou retirado do sonho cósmico – viajando na cauda do cometa – pela voz aflita de Anaoi que está indisposta e passou mal a noite com problemas gástricos sem causa aparente. Pergunta-me se não vou ver o eclipse... ...e depois se acredito que o mundo vai acabar hoje?
Olho para a rua ao mesmo tempo que o show man anuncia freneticamente que se atingiu o “pico máximo”. Este eclipse, pelo menos por aqui, é uma desilusão total – lá fora está um dia de sol radioso.
Risonho de mais para que o mundo acabe hoje, sem mais nem menos...
Associo a questão colocada por Anaoi e compreendo de imediato a má disposição nocturna. Finjo não perceber as angústias existenciais noctívagas da pequena, penso abordar o assunto mais para o fim do dia, o que me dá uma margem de persuasão mais convincente. A táctica não resulta. Também para a minha filha o progenitor está na posse do conhecimento universal.
E ela volta à carga, desta vez com pontualidade: –ó pai se o mundo acabar hoje a que horas é que isso vai acontecer? Não esperando um segundo pela minha resposta esclarece-me o motivo da sua preocupação: –a Sara diz que isso vai acontecer quando a Lua passar mesmo em frente ao Sol... ...ela vai cair em cima da Terra. O tom do discurso transmite-me que Anaoi atravessa um estado de ansiedade marcada que é necessário contrariar de imediato.
Pela segunda vez sou ultrapassado a emitir opinião: –na Bíblia vem que é no ano 2000 (dizem os catastrofistas que hoje é o dia do fim do mundo referido na Bíblia)!
Adivinhando-lhe o pensamento, assim que ela iniciou a frase fiquei com a resposta engatilhada na ponta da língua: –estás a ver filha, as coisas não acontecem precisamente como estão escritas... ...a Bíblia é um livro muito rico em afirmações mas muito pobre em explicações... ...até porque ainda não chegámos ao ano 2000.
Sabes, as datas quando se trata de escritos antigos são sempre difíceis de interpretar, quer dizer, de sabermos precisamente o tempo a que se referem... ...porque então o calendário não era igual ao de hoje.
Não deves preocupar-te, a nossa Terra, com mais ou menos eclipse, vai continuar a girar à volta do Sol...
Anaoi voltou a sorrir, como sempre, e anda agora aos pulos no pátio, em grande retoiça com o cão.
Fico a fazer contas – se tudo correr bem, quando o Cometa Halley voltar terei a idade de 114 anos e no próximo eclipse total do Sol que espero ver com uns óculos decentes, na Cornualha ou em Budapeste, estarei com 132.
Bonita idade para assistir a um novo fim do mundo...

AC

Tuesday, September 19, 2006

Os Cometas

(do grego Kométes, «astro cabeludo»)


Os Cometas são corpos celestes de reduzidas dimensões, se comparados com os Planetas. As suas órbitas podem ser parabólicas mas são a maior parte das vezes elípticas, em torno do Sol. Nunca foram observadas órbitas hiperbólicas[1]. O ponto da órbita em que o cometa atinge a menor distância em relação ao Sol chama-se periélio, sendo o inverso o afélio.
Os Cometas podem ser classificados quanto ao seu período: de curto período (como é o caso do Cometa Encke, com um período de 3,3 anos), de médio e de longo período (como o Hale-Bopp[2], que fez a sua aparição entre a Primavera de 1996 e a Primavera de 1997, com um período de 2400 anos)
A sua massa pode variar entre algumas dezenas e alguns milhares de quilogramas. São constituídos por um Núcleo – rochoso, envolvido por camadas de gelo e poeiras. Em volta do núcleo têm uma camada superficial gasosa – a Cabeleira – e apresentam também uma Cauda, cuja direcção é orientada por acção do vento solar e é sempre oposta à do Sol, podendo atingir algumas centenas de milhões de quilómetros.
Actualmente pensa-se que são oriundos da parte exterior gelada do Sistema Solar.
Estes astros são visíveis da Terra quando passam nas proximidades do Sol, o que é devido à passagem de algum do seu gelo ao estado gasoso (sublimação), sendo reflectido pelo Sol.


Copérnico & Galileo
[1] Hipérbole: curva em que é constante a diferença das distâncias de cada um dos seus pontos, a dois pontos fixos chamados focos.
[2] foto Copérnico & Galileo / minolta 820 cxi / 80-210 mm, nos céus de Portalegre


Cometa Hale-Bopp

No céu de Portalegre - Julho 1996

AC

(foto Copérnico & Galileo)