Wednesday, September 06, 2006








Um voto a um Deus estranho


Caio Jullius Novatus chegara à Península à frente dos exércitos de Roma.
A marcha tinha sido apressada e extenuante, pois eram precisos reforços urgentes para as fustigadas legiões romanas, atormentadas por lutas sem tréguas com as tribos do território, sem vontade de se submeterem à Pax Romana. As promessas do Império eram olhadas com desconfiança e quase sempre rejeitadas com emboscadas mortíferas.
Caio vinha contrariado por abandonar, sabia-se lá por quanto tempo, os prazeres que lhe proporcionavam viver no centro do mundo e mais ainda por deixar a sua jovem esposa Viveniae Venustae Maniliae, com quem se casara havia pouco mais de um ano, com a atribulada tarefa de zelar na sua ausência, sem outro auxílio que não fosse o da fiel escrava Lívia, pela propriedade da vinha. E para aumentar a sua preocupação e receio um correio que recebera de Roma relatava-lhe o estado de saúde de Viveniae, que pouco tempo depois da sua partida caíra num estado de prostração e febre sem melhoras auspiciosas.
Nas horas de acalmia e repouso das caminhadas forçadas o seu pensamento reproduzia fielmente a imagem da mulher, com quem passeava junto ao Tibre nos fim de tarde encaloradas do estio, ou os passeios pela vinha que se derramava desde a casa da encosta, onde habitavam, até perder de vista. E as idas ao Teatro, ao Circo, às Termas, enfim, um turbilhão de recordações que chocavam com o ambiente hostil desta terra de caminhos de pó, de florestas e de gente estranha que os guerreava em grande algazarra quando menos eram esperados.
Naquela tarde as copas das árvores não afastavam, um pouco que fosse, o calor tórrido que parecia ser lançado das entranhas da terra.
O jovem Pretor e general romano tinha tomado o pulso aos seus homens e sabia que as suas forças estavam no limite – o que raramente acontecia. Continuar seria duro e imerecido castigo, para além de tremenda imprudência, pois em caso de ataque não haveria forças para combater – era conhecido o gosto dos bárbaros que habitavam estas paragens, em chacinar tropas desprevenidas enquanto se recompunham da fadiga, a qualquer hora do dia ou da noite.
Caio viu esconder-se o Sol na clareira da floresta, onde os últimos raios do astro cor de fogo criavam desenhos espectrais. E o bulício da brisa nocturna, tropeçando na folhagem do arvoredo, levantava suspeita e temor de um inimigo sempre presente na mente de cada legionário – umas noites atrás, um soldado, que se expusera à claridade de uma fogueira, fora varado por um dardo que partira de sítio incerto. Mesmo assim Caio decidiu fazer um passeio pelas imediações, apenas na companhia de um intenso luar que lhe guiava os passos e permitia distinguir, a alguma distância, uma sombra com forma humana, de um vulto animado procurando surpreendê-lo.
Depois de algum tempo vagueando pela floresta ouviu nitidamente o som de água em movimento, que um sopro de vento mais intenso lhe trouxe de longe. «Era um rio, não havia dúvida; –ou era uma queda de água?; não…, que o ruído seria diferente». Procurou melhor a direcção de onde vinha, alheado de outros sons da noite. Então sentiu a vibração, no seu ouvido apurado, de vozes, vozes de quinze a vinte tonalidades diferentes – a experiência permitia-lhe distinguir com precisão – que ora falavam uma língua incompreensível, ora entoavam cantares e emitiam gritos cadenciados que iam aumentando à medida que se aproximava do local que tinha situado pela audição. Caio manteve todos os sentidos alerta, pois adivinhou a quem pertenciam as vozes e qual seria o seu destino se fosse descoberto. Mas a valentia e curiosidade foram superiores a todos os receios. Dissimulado numa fraga da margem do rio, assistiu à cena como se fosse dia. O luar alumiava um altar de pedra, à volta do qual estavam reunidos duas dezenas de homens vestidos com seus trajes guerreiros, executando um ritual, certamente religioso, pois tinham sacrificado um enorme touro em cima de uma pira de madeira que se preparavam para acender. Quando as chamas se elevaram a grande altura, envolvendo o animal morto, todos eles entraram numa espécie de transe e pronunciavam uma palavra que os fazia inclinar a cabeça em direcção à Lua, no meio de cantares e danças ao ritmo da quantidade de cerveja que tinham bebido – qualquer coisa como Endvel, Endvel...
Naquela noite Caio retirou-se como se pairasse sobre o solo do bosque, procurando a escuridão para encobrir o seu regresso ao acampamento, pensativo sobre o culto a que acabava de assistir. O romano afastou-se do local, sensibilizado com aqueles homens a quem chamavam gentios mas que conheciam a música e tinham cantares próprios, adoravam um deus a quem faziam sacrifícios e amavam a Lua que lhes iluminava os rituais.
***
Não era por acaso que Treboruna chefiava as dez tribos guerreiras que ocupavam, desde há muitas gerações, o sul da Península. Dizia-se que nascera de adaga e escudo nas mãos, escorraçando os invasores que se intitulavam donos e senhores do mundo. A noite em que nasceu era invernal, a chuva e as trevas não deixavam enxergar a um palmo, o que não impediu o pai de pegar nele e colocá-lo em cima da pedra sagrada do santuário de Endovélico, a quem foi pedida protecção para a criança.
Por vontade divina ou não – os desígnios dos Deuses são insondáveis – o jovem Treboruna cresceu proporcionado em saber e força física e cedo foi persuadido pela convicção de que essas duas condições eram indispensáveis para a sobrevivência do seu povo. Numa dessas reuniões na casa dos chefes, discutia-se um desaire numa emboscada a uma coluna de soldados romanos, que terminara numa retirada desordenada, deixando um número importante de mortos no local. Atreveu-se interromper o grande chefe guerreiro Emeridas, que se desdobrava em explicações do sucedido, para lhe dizer que da próxima vez que se montasse um ardil, com os estômagos cheios de cerveja, o número de baixas seria com certeza maior. O pai ainda lhe deitou a mão ao cinto, para obrigá-lo a sentar-se, mas os que tinham direito a opinião, nessa assembleia de tribos, manifestaram acordo com as palavras sensatas de Treboruna. E o jovem guerreiro passou a ser ouvido com atenção sempre que se tratava de preparar cilada em caminho sinuoso, ou assalto a aquartelamento dos legionários, que chegavam em vagas sucessivas com o propósito de conquistar o território.
Treboruna fora eleito chefe natural das dez tribos do sul e tinha consciência que das suas decisões dependia, ou não, escorraçar o invasor. Conhecia o terreno melhor do que ninguém, sabia onde, como e quando atacar um inimigo esmagadoramente superior, conhecia-lhe os pontos fracos, a vulnerabilidade de exército regular e disciplinado nas tácticas em se defender dos ataques surpresa – bastava para isso aos seus homens, sem se exporem, um simples gesto de fazer rolar grandes pedras sobre um desfiladeiro de passagem obrigatória.
A chegada do Pretor Caio Jullius Novatus, apesar de todas as precauções, utilizando batedores e observadores avançados, não iludira o chefe tribal que lhe contava, dia a dia, as passadas dadas no seu território. Sem ser visto, Treboruna via aquele poderoso exército até ao mais ínfimo pormenor, sabendo ao certo a quantidade de lanças, de cavalos, de matilhas de cães ferozes, de catapultas e outras máquinas de guerra que vinham reclamar para Roma uma terra que não lhe pertencia.
A saída nocturna de Caio fora vigiada muito de perto, com agilidade e manha próprias de quem conhecia o sítio de cada árvore, de cada arbusto, de cada pedra daquela floresta imensa. Sem saber, o Pretor era espiado por alguém que se ausentara propositadamente do ritual a que assistira emboscado na escarpa rochosa, e lhe seguia o rasto com tal disfarce e leveza que mais parecia a sua própria sombra.
Caio Jullius Novatus tinha uma austeridade própria de soldado romano, difícil de claudicar perante qualquer perigo ou ameaça. A violência dos combates, em que estivera tantas vezes em risco a sua vida, revestira-o com uma carapaça discreta mas eficaz.
Treboruna era uma erupção conjugada da natureza, talhado em lutas não só contra os romanos, mas também contra os seus irmãos tribais, a quem conquistara o poder que sabia na iminência de ir parar a mãos estrangeiras. O último chefe a desafiá-lo ainda percorreu alguma distância, tetricamente, já com a cabeça decepada, caída no solo uns metros atrás.
A aparição súbita de Treboruna, como que surgido das profundezas da terra, teve em Caio um efeito paralisador, não por receio, mas apenas pelo efeito da surpresa. A claridade da noite dava realce aos contornos do guerreiro, ao mesmo tempo que deixava na penumbra a expressão do seu rosto. O espaço entre os dois era exíguo e Caio captou-lhe a intenção de não desejar confronto. Em seguida ficou surpreendido porque o ouviu dirigir-se-lhe na sua língua, tão difícil para estes povos empenhados em resistir à vontade de Roma. Sabia por demais Treboruna que dominar-lhes o idioma era estar por dentro de segredos de outro modo intransponíveis – interceptando mensageiros podia conhecer previamente planos de ataque, mapas de estradas, pontes, fortificações militares e atingir com precisão a alma do exército romano.
Desde o cair da noite tivera várias oportunidades de cortar com precisão a garganta de Caio e, no entanto, não o fizera – mestre em golpes de surpresa, a presença isolada do enviado de César quebrara-lhe o instinto da traição.
C. Jullius Novatus ouviu a voz austera emitida do fundo do peito de Treboruna, deixando adivinhar um rosto crispado e decidido, sob o manto da noite: «podeis enviar vagas sucessivas de legiões para nos submeter…, a nossa vontade e determinação são superiores à força dos exércitos de todo o Império Romano..., defendemos a nossa terra sagrada, os nossos povoados, o santuário do deus santo Endovélico – que profanaste esta noite com o teu olhar, encoberto no penhasco – e também os espíritos dos nossos antepassados cujo desejo de manter livre este chão é um dever que mantemos vivo em cada um de nós.
Caio achou por bem manter um silêncio defensivo perante as palavras inflamadas do guerreiro, com quem também não desejava luta. Com passo decidido – deslizou tão perto do adversário que este deu um salto para lhe dar passagem – encaminhou-se para o acampamento.
E nessa noite nada mais se ouviu na floresta a não ser o piar das aves nocturnas, embalado pelas danças ritmadas do vento.

***

Caio acordou já o dia clareava, preenchendo imediatamente o seu pensamento com o encontro inesperado da véspera, o que lhe provocou a suspeição de ter ocupado igualmente o descanso nocturno com intensa divagação sobre o sucedido. Ficara impressionado com o personagem que lhe interrompera a deambulação noctívaga pela mata, ao ponto de sentir alguma irritação com o tom das palavras com que fora abordado. Certamente para o atemorizar, provocando um estado de espírito de insegurança que, atingindo o chefe, se reflectiria em todos os seus homens. Mas também era certo que não o quis molestar, pois confundido com as sombras da noite tê-lo-ia decapitado à traição com toda a facilidade.
Nessa manhã, quando Caio espreitou o dia através da cortina dos seus aposentos, viu chegar um correio vindo de Roma. Entre ordens de justiça e militares e notícias de outras bandas do mundo romano, vinha uma missiva de Viveniae que lhe comunicava a cura da sua doença e o prenúncio de uma boa colheita.
Caio sorriu, inspirando fundo a frescura da aragem matinal e contemplando o céu límpido que cobria a clareira da floresta – deu graças.
O maior exército romano que até então invadira a Península dirigiu-se para norte, “em busca” desses povos que, teimosamente, contrariavam o poder do Império.
***
Muitos séculos depois foi identificada, em local de culto a Endovelico, uma inscrição latina “em cumprimento de voto”: “C. JULLIUS NOVATUS ENDOVELLICO PRO SALUTE VIVENIAE VENUSTAE MANILIAE VOTUM SOLVIT”.[1]


[1] Este relato é uma ficção mas não só. Os nomes latinos de C. Jullius Novatus e de Viveniae Venustae Maniliae são de indivíduos que se apresentam como romanos – os tria nomina – embora possam ter origem peninsular. Provavelmente eram marido e mulher e, pelo menos, passaram na região que é hoje o concelho de Alandroal. Talvez aí tenham vivido e conheceram seguramente o culto a Endovélico. Viveniae esteve doente e Caio fez um voto a Endovélico, pela sua saúde, como o atesta a epígrafe que chegou até nós. Dela nos dá conta Leite de Vasconcellos na sua obra “Religiões da Lusitânia”. Um moçárabe de nome Galvo e de profissão mestre de obras, constructor do castelo de Alandroal, retirou um documento epigráfico latino, certamente já da Ermida de S. Miguel, em cumprimento de voto a Endovélico, onde constam os referidos nomes de origem romana, e cimentou-o no pano da muralha do castelo. Em anos recentes, e por “motivo desconhecido”, esse documento foi sacado do sítio que Galvo elegeu para o eternizar, tendo desaparecido sem deixar rasto. Aqui fica o seu registo, em jeito de ficção.
AC

Tuesday, September 05, 2006


O CASTELO VELHO DO LUCEFECIT

O Castelo Velho do Lucefecit é um dos locais de habitat humano organizado mais antigos do Alentejo. Fazendo parte de um conjunto de jóias milenares do concelho de Alandroal, é o único sítio arqueológico deste concelho classificado como monumento nacional, por dec. lei de 16/06/1910, o que nos faz recuar ainda ao tempo da monarquia. Em 1997 foi classificado um outro sítio arqueológico como de "interesse público", o povoado de Endovélico no Districto de Évora, assim se refere o classificador ao cabeço de S. Miguel da Mota, local de onde outrora dominou as vastas cercanias o santuário romano de Endovélico.
No Castelo Velho sucederam-se as ocupações desde o período Calcolítico, depois pelas Idades do Bronze e do Ferro, entre os III e I milénios a.c., assim como longos períodos de abandono, sendo o mais notório entre o final da Idade do Ferro e a ocupação Islâmica, Séc. X da nossa era, período que perfaz mil anos. Após a saída árabe não mais voltou a ter ocupação.
O sítio tem grande defensibilidade natural. O seu envolvimento estratégico por acidentes naturais é completado pelo ribeiro do Lucefecit e por um seu pequeno afluente. O forte natural é encimado por restos de panos de muralhas de xisto, que revelam as várias intervenções a que foram sujeitas ao longo dos séculos, desde os tempos proto-históricos até à época islâmica
(na fotografia vê-se, um pouco acima da meia encosta, um lanço de muralha).
Nas imediações do povoado têm-se encontrado restos de cerâmica e escórias de fundição, vestígios de antigas indústrias de manuseamento do barro e de metais.
Uma formação rochosa antropomórfica, isolada do forte, é chamada "Pedra do Charro". Segundo a tradição popular, é a sepultura de um bandido lendário, ali enterrado com todas as suas riquezas.
Do lado norte, em escarpa rochosa sobre o ribeiro do Lucefecit, encontra-se uma galeria na rocha chamada "Casa da Moura", nome certamente relacionado com a lenda de uma moura encantada, tradição outrora frequente na região.
Uma das referências mais antigas ao Castelo Velho aparece nas "Memórias Parochiaes de 1758" (inventário do património ordenado pelo Marquês de Pombal após o terramoto de 1755), do P. Bento Ferrão Castelbranco: «No sítio onde chamam castelo velho, q. está sobre a ribeira do Luçafece, houve um castello de q. hoje nada ha mais q. ruinas e não tem mais de estabelidade q. os alicerces».
AC

Monday, September 04, 2006


ENDOVÉLICO: divindade pré-latina que teve o seu máximo explendor na época romana.


No cabeço de S. Miguel da Mota, perto da Vila de Terena - Alandroal, existiu um santuário romano dedicado a Endovélico, sede de intenso culto, como se deduz de importantes documentos epigráficos chegados até nós.

"Dirigem-lhe votos os escravos, mas sobretudo um grande número de indivíduos que se apresentam à maneira romana, com os três nomes (tria nomina), ainda que é claro que alguns deles são de origem peninsular".

No material epigráfico recolhido há uma variação do nome da divindade: Endovellicus, Endovollicus, Indovellicus e, apenas em um caso, Enobolicus. Por vezez o nome é precedido do substantivo Deus e Deus Sanctus, podendo também aparecer sob a forma de abreviatura.

O significado de Endovélico tem sido objecto de diferentes interpretações, sendo de referir a de Leite de Vasconcellos, que decompõe a palavra em duas partes: a primeira corresponde ao intensivo "muito", sendo a segunda derivada da forma correspondente ao galês e bretão gwell ("bom", "melhor"), pelo que o nome significa "muito bom"; e a de A. Tovar, que relaciona o termo com a raíz beltz ("negro"), associando o significado "muito negro" à vida no além. Por esta última interpretação a divindade teria um carácter infernal, eventualmente o de condutor de almas.

Curiosamente, ali bem perto corre o ribeiro do Lucefecit, a que Afonso X, nas "Cantigas de Santa Maria", se refere como "o rio que não digo o nome". Que obscuro significado teria o rio para que o rei sábio o não mencionasse?

No entanto, Endovélico teve sobretudo um importante cunho milagroso e curandeiro, e foi nessa qualidade que atraiu a si os fiéis durante alguns séculos.

Um dos documentos epigráficos mais interessante é uma lápide em que se figura um hemiplégico (paralisia de um dos lados do corpo), a qual contém também uma inscrição ex votum (em cumprimento de voto): do paralítico a Endovélico. A hemiplegia é do lado esquerdo e admite-se que o doente tivesse sido melhorado, ou curado, por sugestão, o que leva a supor que a etiologia da doença fosse neuropsíquica.

Outros documentos epigráficos levam a concluir que o santuário teria associado um oráculo bastante consultado. Um processo usado na antiguidade para consultar as divindades era através dos sonhos. Os crentes dormiam nos templos, ou na sua proximidade. Como os sonhos eram considerados "filhos da terra", existiria perto do templo alguma "cavidade, ou "antro", onde se recebiam as inspirações do Deus. Endovélico seria, provavelmente, consultado de forma similar. Assim se explicaria a fórmula "ex imperato averno" que se lê numa ara turícrema: ENDOVELLICO SACRVM. L.T.M. ET T.M. EX IMPERATO AVERNO. A.L.F, em que a expressão "ex imperato averno" significa «segundo a determinação avernal», isto é, segundo a determinação que emanou debaixo.

Depois do Séc. V o santuário foi cristianizado, surgindo no local uma ermida cujas paredes se compunham de lápides do "templo pagão", e que tinha por orago S. Miguel Arcanjo, olhado pelos primeiros cristãos como um dos génios tutelares da medicina. AC

Sunday, September 03, 2006


RIBEIRO DO LUCEFÉCE





O topónimo Luceféce, ou Lucefécit, referente ao ribeiro afluente do rio Guadiana, parece ser uma palavra de origem latina (lucem fécit, fez luz), mas tal não se verifica. Segundo os autores João Ferreira do Amaral e Augusto Ferreira do Amaral (Povos Antigos em Portugal), a palavra é pouco verosímil para dar o nome a um rio, assim como Lucifer, um dos nomes do Demónio, palavra também pensada para origem do topónimo (talvez por isso Afonso X, em "Cantigas de Santa Maria" se lhe refere como "o rio que não digo o nome"). A forma mais antiga constante de documento, em 1262, é Udialuiciuez, sendo provável que o elemento árabe udi (o mesmo que uadi, ued, odi ou od), designativo de rio, se tenha acrescentado ao nome que os habitantes pré-árabes lhe davam. Seria a conjugação de duas palavras do antigo europeu, utilizadas em hidrónimos: "albis" significando rio, que deu, entre muitos outros, o rio Elba (antigo Albis), com "ves" que queria dizer corrente de água. Trata-se, provavelmente, dum hidrónimo tautológico, fenómeno bastante frequente.
AC








ROCHA DA MINA - "SANTUÁRIO RUPESTRE DE ENDOVÉLICO"


No concelho de Alandroal, acompanhando o serpentear do ribeiro do Lucefecit, existem numerosos vestígios deixados por povos que ali viveram no período Calcolítico, Idades do Bronze e do Ferro.
É um legado de património impressionante, marca indelével do modo de viver e maneira de ser desses nossos ancestrais avós, das suas ocupações e preocupações, das suas alegrias e tristezas..., da sua cultura.
Entre esse legado patrimonial encontra-se o santuário proto-histórico chamado Rocha da Mina, com restos de muros de xisto (elemento de construção ainda hoje utilizado na região) e escadas talhadas na rocha, único no seu género até agora conhecido a sul do Tejo.
AC